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Estranha ironia. Uma
das últimas trilhas sonoras de
Jerry Goldsmith que
comentei foi a de
Jornada nas
Estrelas: Nêmesis, e no texto apontei como a avaliação daquele
trabalho poderia ser afetada pelo aspecto emocional, já que à época
recém fora divulgado que o compositor sofria de câncer. Pois bem,
Goldsmith faleceu poucos dias antes deste comentário, e mais uma vez o
aspecto emocional poderia ser um fator de grande influência na análise
desta trilha original. Por sorte o trabalho que Goldsmith realizou para
Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira é simplesmente o
segundo melhor que compôs para a franquia, perdendo somente para o
antológico
Jornada nas Estrelas: O Filme. Portanto, é legítimo enaltecer
suas qualidades, já que temos aqui um dos melhores momentos do
compositor na série, o que podemos facilmente constatar comparando-se
com as subseqüentes trilhas que compôs para
Primeiro Contato,
Insurreição
e o já citado Nêmesis, que progressivamente foram perdendo o
brilho e a inspiração.
O filme é quase uma unanimidade: a estréia na direção de William Shatner
(o Capitão Kirk) é considerado um dos piores da franquia, se não o pior.
Particularmente não acho que seja o pior, mas é forçoso reconhecer que
nele há uma abundância de problemas, que vão desde um roteiro cheio de
absurdos aos efeitos especiais ruins, passando pela própria direção de
Shatner, que pode ser considerada, na melhor das hipóteses, medíocre.
Apesar de tudo é neste filme que vemos a melhor e mais profunda
exploração da amizade que une o trio Kirk-Spock-McCoy. É dos três
personagens que vêm os mais divertidos, sinceros e emocionais momentos
do filme, e toda a vez que vejo suas cenas no Parque Yosemite, em volta
da fogueira, meus olhos brilham. E também brilha o talento de Goldsmith,
que conseguiu minimizar muitas das falhas da produção com uma partitura
que fornece grandes momentos de ação e emoção ao espectador/ouvinte. A
maior característica deste score é a forma como Goldsmith
habilmente reutiliza temas prévios que, juntamente com novas idéias
musicais, ajudam a impulsionar a trama do filme. O compositor trouxe de
volta seu tema de Jornada nas Estrelas: O Filme, que lhe valeu a
indicação ao Oscar em 1979 e um Emmy em 1987 (pela série de TV da
Nova Geração).
O álbum e o filme iniciam com "The Mountain", o main title que é
introduzido pela fanfarra original de
Alexander Courage e
que segue com o tema de Goldsmith para O Filme. À época este tema
ainda não havia sido tão utilizado no cinema, e dá um ar de
grandiosidade às cenas de abertura. Na parte final da faixa o tema cede
lugar a uma delicada música pastoral, que acompanha Kirk escalando a
montanha. Este belo motivo claramente delineia os sentimentos que levam
o Capitão tanto a escalar montanhas quanto a lançar-se aos locais mais
inóspitos da galáxia. Do filme original Goldsmith resgata também o tema
klingon, usado aqui de forma mais intensa já que os klingons ganham
maior relevância na ação. E falando em ação, faixas como "Without Help",
"Let's Get Out Of Here" e "Open The Gates" mostram Goldsmith em sua
melhor forma. Elas são tão boas quanto o material presente em
O Vingador do
Futuro, trilha composta no mesmo ano. Delas destaca-se "Without
Help", ouvida enquanto a nave auxiliar que leva Kirk, Sybok e cia. tenta
retornar à Enterprise, sob a ameaça do ataque iminente dos klingons. A
música enriquece a cena com tensão e um grande senso de perigo.
Porém o ponto alto do score é um novo tema de Goldsmith, dedicado
a "Deus" e melhor desenvolvido na faixa "A Busy Man". Este tema possui
uma beleza etérea, e faz-se presente de forma muito eficaz também em
"The Barrier" e "An Angry God". De um modo geral, Star Trek V: The
Final Frontier é uma trilha original que possui qualidades
características de Goldsmith: metais pesados e envolventes, percussão
eclética, sintetizadores aqui e ali, e um cativante tema que,
convenientemente já que o filme trata da busca por Deus, faz milagres.
Goldsmith, como já fizera em outros momentos de sua carreira,
demonstrando ter grande inspiração até em filmes problemáticos como
esse, criou um score capaz de complementar perfeitamente as
imagens e sendo, ao mesmo tempo, um sólido trabalho sinfônico que possui
vida própria mesmo estando delas apartado, em disco. Portanto, apesar da
desnecessária faixa do grupo Hiroshima ("Moon's a Window to Heaven", em
versão diferente da ouvida no filme), a trilha de A Fronteira Final
merece ser ouvida e apreciada não apenas por trekkers e fãs do
legado de Goldsmith, mas por qualquer um que aprecie uma trilha sonora
de grande qualidade.
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