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Mesmo antes do lançamento desta partitura
do veterano Jerry
Goldsmith, começaram a “pipocar” na web comentários
entusiasmados, muitos dos quais lia com sensação de estranheza. Porque
parecia ser consenso geral de que a primeira metade da música ouvida no
CD era definitivamente mediana, ao passo de que a segunda metade seria a
melhor música de ação composta em anos pelo veterano maestro, nos moldes
de Executive Decision e U. S. Marshals, filmes do mesmo
diretor de Star Trek: Nemesis. Ah, e também houve o release
da gravadora, que não poupou elogios ao trabalho de Jerry, classificado
como “o maior score de Goldsmith para Jornada nas Estrelas
desde Jornada
nas Estrelas: o Filme”, “a partitura mais agressiva de
Jornada nas Estrelas em todos os tempos”, “mais épica do que
qualquer coisa que o lendário compositor já escrevera”, etc. Somente
algum tempo depois é que pude racionalizar a respeito, e concluir que
muito ou quase tudo que se estava escrevendo a respeito estava imbuído
de forte conteúdo emocional, oriundo da divulgação, meses antes, de que
o compositor estava em tratamento quimioterápico devido a um câncer na
próstata. É como alguém disse em nosso fórum, temos de agradecer pelo
“velho”, mesmo doente, ainda estar disposto a compor e reger a
orquestra...
Mas acredito que Goldsmith, independentemente de sua doença e de alguns
fracos trabalhos recentes, possui uma obra de conjunto admirável que
certamente lhe valerá o reconhecimento, no futuro, como um dos maiores
compositores de música de cinema que já viveram. Definitivamente ele não
precisa da nossa condescendência, afinal ele continua trabalhando e
mesmo sendo ovacionado pelos músicos da orquestra, e o fruto de seu
trabalho está nas telas dos cinemas e em nossos CD players
exatamente para ser apreciado. Deste modo, tive o cuidado de ouvir
várias vezes ao CD de Nêmesis para fazer uma avaliação justa.
Então, serei franco: ao contrário do que foi alardeado à época pela
Varèse Sarabande em sua propaganda (enganosa?), Goldsmith já compôs
muitas (mas muitas MESMO) partituras melhores do que esta, e sua obra
está repleta de trabalhos mais épicos e agressivos. A característica
maior deste score
é parecer, à primeira audição, definitivamente ambiental e sombrio, mas
também baseado na reutilização, desta vez pouco inspirada, de temas dos
filmes da franquia para os quais o maestro já colaborou. Há o agravante
de não ter sido criado nenhum grande novo tema de destaque, fato que não
ocorreu nem mesmo no medíocre Insurreição.
O compositor optou por retratar o vilão Shinzon e seus aliados Remans
com sonoridades sombrias e opressivas, fornecidas pela orquestra e sua
habitual base de sintetizadores. Nessa linha, a primeira faixa do CD, “Remus”,
inicia com a conhecida fanfarra originalmente composta por
Alexander Courage
(em uma interpretação mais intensa) para a Série Clássica,
seguida de um motivo de caráter militar, percussivo e ameaçador, mas que
dificilmente marcará o ouvinte. Assim como o tema klingon de O Filme
foi usado anteriormente pelo compositor como o tema de Worf, ele agora
utiliza o tema de
A Fronteira Final
ouvido pela primeira vez em “The Barrier” (e melhor desenvolvido em “A
Busy Man”), como tema do andróide Data e de sua réplica, B-4. De fato
este tema já havia aparecido, em menor escala, em
Primeiro Contato
e Insurreição.
Aqui em Nêmesis ele se faz presente principalmente nas faixas “My
Right Arm”, “Repairs” e “A New Friend”. Em “Ideals” temos o que mais se
aproxima do tema principal do score, uma atraente e nostálgica
melodia para oboé acompanhada por cordas, derivada do motivo que ouvimos
nos main titles - como se ambos fossem os dois lados de uma mesma
moeda, o Bem e o Mal, Shinzon e Picard - e que é reprisada em outros
pontos da partitura.
No geral, toda esta primeira metade da trilha é dominada por música de
suspense nos moldes do que o maestro vem compondo nos últimos tempos
(isso inclui até mesmo o glissando de trombone de The Edge
na faixa “Repairs”). As coisas começam a ficar mais movimentadas em
“The Mirror”, que inicia no padrão “suspense morno” mas logo segue para
uma variação mais agitada do tema de A Fronteira Final, onde pelo
menos as cordas mais fortes, percussão, metais e até mesmo xilophone
quebram o marasmo. Em segmentos desta faixa e em “Odds and Ends” há ecos
do trabalho de Goldsmith em
Instinto
Selvagem, obra que influenciou vários de seus trabalhos
posteriores e ao qual o compositor freqüentemente retorna em busca de
inspiração. Considerada por muitos o ponto alto do score, “The
Scorpion” lembra-me em seu início uma de suas mais estimadas trilhas de
ação dos anos 90,
O Vingador do
Futuro, com uma percussão rítmica e base de sintetizadores idem.
A orquestra fornece uma interpretação vigorosa, e ao final o conhecido
tema de O Filme faz uma rara (e eficaz) aparição fora dos “End
Titles”, o que ajuda a concluir a faixa de modo positivo. No início de
“Lateral Run” voltamos às texturas sombrias e de ameaça criadas pela
orquestra e sintetizadores, que algum tempo depois se metamorfoseia em
agressivo material de ação. Indiscutivelmente interessante, mas um tanto
burocrático e longe de ser “apocalíptico”, como descrito nas notas do
CD.
“Final Flight” é a composição de maior apelo dramático presente, sendo
até mesmo um tanto diferente do atual padrão do compositor. Ela é ouvida
na cena do passeio espacial de Data e no confronto final entre Picard e
Shinzon. Em “A New Friend” o tema de Data volta em um estilo mais
emocional, com um bom uso de sintetizadores, piano e violinos. A trilha
conclui com “A New Ending”, onde após ouvirmos um curto trecho de “Blue
Skies”,
de Irving Berlin,
temos a fanfarra de Courage e o tema de
Goldsmith para O Filme em versões mais lentas e, porque não
dizer, épicas. Após, volta o motivo ouvido primeiramente em “Ideals”,
tendo o oboé, desta vez, um maior acompanhamento da orquestra, e que por
ser uma melodia triste resulta em um encerramento pouco memorável para a
partitura. No filme esse efeito é minimizado, já que durante os créditos
finais trechos da composição foram substituídos pela reprise de
momentos mais vibrantes do score, como "Final Flight". De uma
maneira abrangente, procurei destacar a essência da música de Nêmesis
como ouvida no CD. Indiscutivelmente não é a maravilha apregoada
pela gravadora e nem chega perto da antológica O Filme e mesmo de
A Fronteira Final. Por outro lado, é superior a Insurreição,
que apesar de possuir um tema mais destacado, é muito fraca no conjunto.
Além do que, a música de Nêmesis parece melhorar a cada nova
audição, onde notamos algumas sutilezas de Goldsmith que haviam passado
despercebidas inicialmente.
Também resta um ponto a considerarmos quando se trata de trilhas
sonoras de um modo geral - a utilização no filme, que
aliás é a sua função básica.
Não é fácil de admitir, mas há casos em que
a música não empolga se ouvida separadamente,
porém no filme é extremamente funcional. Ou seja, Nemesis é o tipo de trilha cuja avaliação correta e
definitiva somente pode ser obtida após sua audição atenta em CD e no
filme. A propósito, o fato do disco ter sido lançado com tanta
antecedência nos EUA é singular, principalmente porque já se sabia que
houve mudanças na edição do filme, cortes de cenas, etc. Como resultado,
além de haver músicas no filme ausentes do CD, ocorre que faixas dele
estão ausentes na montagem final. No mais, creio que com este trabalho
Goldsmith despede-se de Jornada nas Estrelas nos deixando com
saudades de outras partituras suas, estas sim indiscutivelmente
memoráveis e excelentes, tanto em CD como no filme.
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