STAR TREK: NEMESIS
Música composta e regida por
Jerry Goldsmith

Selo:
Varèse Sarabande
Catálogo:
66412
Ano: 2002

Faixas:
1. Remus
2. The Box
3. My Right Arm
4. Odds and Ends
5. Repairs
6. The Knife 
7. Ideals 
8. The Mirror 
9. The Scorpion 
10. Lateral Run 
11. Engage 
12. Final Flight  
13. A New Friend 
14. A New Ending
Duração: 48:36
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 

Mesmo antes do lançamento desta partitura do veterano Jerry Goldsmith, começaram a “pipocar” na web comentários entusiasmados, muitos dos quais lia com sensação de estranheza. Porque parecia ser consenso geral de que a primeira metade da música ouvida no CD era definitivamente mediana, ao passo de que a segunda metade seria a melhor música de ação composta em anos pelo veterano maestro, nos moldes de Executive Decision e U. S. Marshals, filmes do mesmo diretor de Star Trek: Nemesis. Ah, e também houve o release da gravadora, que não poupou elogios ao trabalho de Jerry, classificado como “o maior score de Goldsmith para Jornada nas Estrelas desde Jornada nas Estrelas: o Filme”, “a partitura mais agressiva de Jornada nas Estrelas em todos os tempos”, “mais épica do que qualquer coisa que o lendário compositor já escrevera”, etc. Somente algum tempo depois é que pude racionalizar a respeito, e concluir que muito ou quase tudo que se estava escrevendo a respeito estava imbuído de forte conteúdo emocional, oriundo da divulgação, meses antes, de que o compositor estava em tratamento quimioterápico devido a um câncer na próstata. É como alguém disse em nosso fórum, temos de agradecer pelo “velho”, mesmo doente, ainda estar disposto a compor e reger a orquestra...

Mas acredito que Goldsmith, independentemente de sua doença e de alguns fracos trabalhos recentes, possui uma obra de conjunto admirável que certamente lhe valerá o reconhecimento, no futuro, como um dos maiores compositores de música de cinema que já viveram. Definitivamente ele não precisa da nossa condescendência, afinal ele continua trabalhando e mesmo sendo ovacionado pelos músicos da orquestra, e o fruto de seu trabalho está nas telas dos cinemas e em nossos CD players exatamente para ser apreciado. Deste modo, tive o cuidado de ouvir várias vezes ao CD de Nêmesis para fazer uma avaliação justa. Então, serei franco: ao contrário do que foi alardeado à época pela Varèse Sarabande em sua propaganda (enganosa?), Goldsmith já compôs muitas (mas muitas MESMO) partituras melhores do que esta, e sua obra está repleta de trabalhos mais épicos e agressivos. A característica maior deste
score é parecer, à primeira audição, definitivamente ambiental e sombrio, mas também baseado na reutilização, desta vez pouco inspirada, de temas dos filmes da franquia para os quais o maestro já colaborou. Há o agravante de não ter sido criado nenhum grande novo tema de destaque, fato que não ocorreu nem mesmo no medíocre Insurreição.

O compositor optou por retratar o vilão Shinzon e seus aliados Remans com sonoridades sombrias e opressivas, fornecidas pela orquestra e sua habitual base de sintetizadores. Nessa linha, a primeira faixa do CD, “Remus”, inicia com a conhecida fanfarra originalmente composta por Alexander Courage (em uma interpretação mais intensa) para a Série Clássica, seguida de um motivo de caráter militar, percussivo e ameaçador, mas que dificilmente marcará o ouvinte. Assim como o tema klingon de O Filme foi usado anteriormente pelo compositor como o tema de Worf, ele agora utiliza o tema de A Fronteira Final ouvido pela primeira vez em “The Barrier” (e melhor desenvolvido em “A Busy Man”), como tema do andróide Data e de sua réplica, B-4. De fato este tema já havia aparecido, em menor escala, em Primeiro Contato e Insurreição. Aqui em Nêmesis ele se faz presente principalmente nas faixas “My Right Arm”, “Repairs” e “A New Friend”. Em “Ideals” temos o que mais se aproxima do tema principal do score, uma atraente e nostálgica melodia para oboé acompanhada por cordas, derivada do motivo que ouvimos nos main titles - como se ambos fossem os dois lados de uma mesma moeda, o Bem e o Mal, Shinzon e Picard - e que é reprisada em outros pontos da partitura.

No geral, toda esta primeira metade da trilha é dominada por música de suspense nos moldes do que o maestro vem compondo nos últimos tempos (isso inclui até mesmo o glissando de trombone de The Edge na faixa  “Repairs”). As coisas começam a ficar mais movimentadas em “The Mirror”, que inicia no padrão “suspense morno” mas logo segue para uma variação mais agitada do tema de A Fronteira Final, onde pelo menos as cordas mais fortes, percussão, metais e até mesmo xilophone quebram o marasmo. Em segmentos desta faixa e em “Odds and Ends” há ecos do trabalho de Goldsmith em Instinto Selvagem, obra que influenciou vários de seus trabalhos posteriores e ao qual o compositor freqüentemente retorna em busca de inspiração. Considerada por muitos o ponto alto do score, “The Scorpion” lembra-me em seu início uma de suas mais estimadas trilhas de ação dos anos 90, O Vingador do Futuro, com uma percussão rítmica e base de sintetizadores idem. A orquestra fornece uma interpretação vigorosa, e ao final o conhecido tema de O Filme faz uma rara (e eficaz) aparição fora dos “End Titles”, o que ajuda a concluir a faixa de modo positivo. No início de “Lateral Run” voltamos às texturas sombrias e de ameaça criadas pela orquestra e sintetizadores, que algum tempo depois se metamorfoseia em agressivo material de ação. Indiscutivelmente interessante, mas um tanto burocrático e longe de ser “apocalíptico”, como descrito nas notas do CD.

“Final Flight” é a composição de maior apelo dramático presente, sendo até mesmo um tanto diferente do atual padrão do compositor. Ela é ouvida na cena do passeio espacial de Data e no confronto final entre Picard e Shinzon. Em “A New Friend” o tema de Data volta em um estilo mais emocional, com um bom uso de sintetizadores, piano e violinos. A trilha conclui com “A New Ending”, onde após ouvirmos um curto trecho de “
Blue Skies, de Irving Berlin, temos a fanfarra de Courage e o tema de Goldsmith para O Filme em versões mais lentas e, porque não dizer, épicas. Após, volta o motivo ouvido primeiramente em “Ideals”, tendo o oboé, desta vez, um maior acompanhamento da orquestra, e que por ser uma melodia triste resulta em um encerramento pouco memorável para a partitura. No filme esse efeito é minimizado, já que durante os créditos finais trechos da composição foram substituídos pela reprise de  momentos mais vibrantes do score, como "Final Flight". De uma maneira abrangente, procurei destacar a essência da música de Nêmesis como ouvida no CD. Indiscutivelmente não é a maravilha apregoada pela gravadora e nem chega perto da antológica O Filme e mesmo de A Fronteira Final. Por outro lado, é superior a Insurreição, que apesar de possuir um tema mais destacado, é muito fraca no conjunto. Além do que, a música de Nêmesis parece melhorar a cada nova audição, onde notamos algumas sutilezas de Goldsmith que haviam passado despercebidas inicialmente.

Também resta um ponto a considerarmos quando se trata de trilhas sonoras de um modo geral - a utilização no filme, que aliás é a sua função básica. Não é fácil de admitir, mas há casos em que a música não empolga se ouvida separadamente, porém no filme é extremamente funcional. Ou seja, Nemesis é o tipo de trilha cuja avaliação correta e definitiva somente pode ser obtida após sua audição atenta em CD e no filme. A propósito, o fato do disco ter sido lançado com tanta antecedência nos EUA é singular, principalmente porque já se sabia que houve mudanças na edição do filme, cortes de cenas, etc. Como resultado, além de haver músicas no filme ausentes do CD, ocorre que faixas dele estão ausentes na montagem final. No mais, creio que com este trabalho Goldsmith despede-se de Jornada nas Estrelas nos deixando com saudades de outras partituras suas, estas sim indiscutivelmente memoráveis e excelentes, tanto em CD como no filme.

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