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Em 1983, uma década depois do filme
Sem Medo da Morte
(The Enforcer),
Clint Eastwood resolveu voltar ao papel do policial Harry
Callaham – vulgo Harry, O Sujo. Em
Impacto Fulminante
(Sudden Impact),
reencontramos o policial mais envelhecido tendo que
enfrentar, no lugar de psicopatas, esquadrões da morte ou
terroristas, uma jovem que está matando, um a um, os homens
que a estupraram anos antes. O maior diferencial deste filme
é que ele foi o primeiro da série dirigido pelo próprio
Eastwood, que chamou de volta o veterano compositor
Lalo Schifrin
para se encarregar da trilha sonora.
Para o filme anterior Jerry Fielding criou um
score
interessante, mas não escapou a Eastwood o fato de que
aquele compositor não conseguiu criar o clima musical
característico da franquia – que aliás, a cada título,
descaracterizava cada vez mais o personagem (Harry estava
cada vez menos “sujo”), em tramas que pareciam vindas de uma
série policial de TV. Assim, o argentino retomou as funções
das quais se desincumbiu de forma exemplar em
Perseguidor
Implacável (Dirty
Harry) e
Magnum 44 (Magnum
Force). Este trabalho, que anteriormente só fora lançado
na íntegra em vinil, chega ao CD em mais um lançamento do
selo de Schifrin, que já disponibilizara uma coletânea da
série e os scores
completos dos três filmes anteriores.
Em minhas resenhas anteriores, já apontara que as trilhas da
franquia, a exemplo dos próprios filmes, foram
progressivamente tornando-se mais fracas. Schifrin é um
compositor que, neste gênero de filme (policial urbano),
sempre procurou fundir seu
jazz com
ritmos pop da
época, e no caso de
Sudden Impact
isto causou prejuízos porque o “balanço dos anos 80” foi um
tipo de som que tornou-se datado muito rapidamente. Exemplo
disso já temos na faixa inicial, “Main Title”, um misto de
ritmo dançante com
slap bass e efeitos
sctratch
usados ad nauseam
pelos DJs, tendo ao fundo sirenes e conversas de policiais
via rádio. Uma mistura meio indigesta, que felizmente não é
repetida ao longo do
score. A
partir daí, Schifrin mostra por que é um compositor
diferenciado, adicionando cores orquestrais criativas e
mesmo fazendo referência a temas que criara para os outros
filmes, ainda que de forma discreta (por exemplo, o tema
melancólico de Harry ganha um belo desenvolvimento no sax
tenor de Ernie Watts em “San Francisco After Dark”).
Comparando com sua música para
Dirty
Harry e
Magnum Force, aqui Lalo expandiu o uso da orquestra,
criando peças mais sinfônicas e acústicas, enfatizando
sopros, metais e uma grande seção de cordas. Mas para manter
o clima musical da série, eventualmente ouvimos a percussão
rítmica e o baixo
fender que é uma espécie de assinatura musical de Harry.
Quando o policial tira férias forçadas, acompanhamos sua
viagem com a mais do que adequada “The Road to San Paolo”,
onde o trompete está à frente da orquestra. Faixas agitadas
como “Cocktails of Fire” e “Robbery Suspect” lembram o
estilo
jazz/pop/orquestra que celebrizou o compositor, enquanto
outras como “Remembering Terror” e “Unicorn's Head”,
mesclando música de parque de diversões, suspense orquestral
e até rock, podem surpreender aos desavisados.
Schifrin também cria um interessante tema para a assassina,
evocando sua inocência perdida com o estupro, que contrasta
com o ríspido acompanhamento musical, caracterizado pelas
cordas dissonantes que remetem aos brutais assassinatos por
ela perpetrados.
Enfim, este é mais um clássico
score de
Schifrin, feito numa época onde a música ainda não tinha
vergonha de soar às vezes exagerada – hoje ouvimos música
durante todo o filme, mas raramente algo dela se sobressai.
Pena que, ao contrário dos lançamentos anteriores em CD,
este (que como de hábito traz um encarte com extensas e
detalhadas notas de Nick Redman) não pode ser considerado
como uma trilha sonora completa. Mesmo trazendo toda a
música diegética e uma faixa adicional (a versão alternativa
do
“Main
Titles”
com pequenas mudanças de orquestração e adição de guitarra
wah wah), ficou de fora a canção final “This Side of
Forever”, versão de “San Francisco After Dark” com os vocais
de Aretha Franklin que, no filme, é a que toca nos créditos
finais. Porém, realmente estranha é a omissão da primeira (e
melhor) parte de “A Ray of Light”, cuja versão integral está
presente no CD
Dirty Harry Anthology. A omissão deste trecho em uma
faixa que originalmente já é curta (dura pouco mais de dois
minutos) só pode ter sido causada por um erro na edição das
faixas. Ainda assim, este é um lançamento altamente
recomendável para os fãs de trilhas de ação. |