SUPERMAN RETURNS
Música composta por John Ottman, regida por Damon Intrabartolo. Temas originais de John Williams.

Selo: Warner Bros. / Rhino
Catálogo: R2 77654
Lançamento: 2006
Faixas

1. Main Titles
2. Memories
3. Rough Flight
4. Little Secrets/Power Of The Sun
5. Bank Job
6. How Could You Leave Us?
7. Tell Me Everything
8. You´re Not One Of Them
9. Not Like The Train Set
10. So Long Superman
11. The People You Care For
12. I Wanted You To Know
13. Saving The World
14. In The Hands Of Mortals
15. Reprise/Fly Away
16. Trailer # 1 (Video)
17. Trailer # 2 (Video)
18. Behind the Scenes: Superman Returns Score (Video)

Duração: 55:27
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 

Comecemos então enumerando fatos... Fato é que o grande tema de John Williams para Superman, The Movie, de 1978, o mais épico e majestoso dos já compostos para filmes de super-heróis, permanece como um dos mais famosos de todos os tempos, reconhecível até mesmo para os mais distraídos ouvidos. Outro fato é que John Ottman, acostumado a lidar com super-heróis (X2 e Quarteto Fantástico), propondo temas que tentam refletir a natureza essencialmente nobre de seus personagens em temas pouco inspirados e coros atmosféricos (moda atual em Hollywood), não conseguiu convencer-nos plenamente de que poderia fazer uma leitura convincente deste universo tão sensivelmente peculiar. Assim, óbvio é o fato de seu trabalho em Superman Returns se desdobrar à sombra projetada por John Williams. Mas é obvio também o fato de não poder ser esta situação diferente, pois seja qual fosse o compositor, mesmo Williams, ele trabalharia sobre expectativas baseadas na partitura original. Sabendo de tudo isso e talvez conhecendo seus limites, não só o compositor John Ottman, mas também o diretor Bryan Singer, se compararam quase que voluntariamente ao filme “original”; fizeram uso de seus temas musicais e até mesmo de alguns diálogos. Logo na abertura do filme ouvimos uma versão do tema de Kripton que serve de prelúdio ao grande tema "Main Titles" de John Williams, que acompanha a destruição do Planeta Kripton e a expansão através da galáxia de seus destroços até encontramos a Terra e o continente americano. Há ainda uma espécie de tributo à trilha original em "Behind the Scenes: Superman Returns Score", vídeo bônus do CD que consiste basicamente em uma entrevista com Bryan Singer, na qual ele discute a relação dele com John Ottman e a razão pela qual os temas originais de John Williams foram integrados a trilha, finalizando com o "Main Titles"  executado pela orquestra de 1978.

Supostamente retomando a história de Kal-El (nome real do herói) a partir do final de Superman II, este novo filme revela que, depois que cientistas descobriram vestígios de seu planeta natal, Superman partiu em uma longa viagem a fim de visitar os restos de Krypton, com a esperança de encontrar algum elo com seu passado. Cinco anos depois, ele volta à Terra e descobre que, durante sua ausência, Lois Lane teve um filho e tornou-se noiva do sobrinho de Perry White, editor do Planeta Diário. Enquanto isso, seu antigo inimigo, Lex Luthor, aproveitando a oportunidade, visita a abandonada Fortaleza da Solidão e rouba os cristais que continham os ensinamentos de Jor-El, pai do protagonista, e planeja utilizá-los para criar uma verdadeira cópia de Krypton em nosso planeta, destruindo, no processo, todo o continente americano.

Assim, o jovem diretor de realizações artísticas admiráveis, como O Aprendiz e Os Suspeitos, após o duplo sucesso de X-Men e X-Men 2, assumiu a realização de um projeto essencialmente grandioso que lhe exigiria disciplina e acima de tudo comedimento: o tão esperado retorno de Superman às telas de cinema. Pois se as ambições artísticas do cineasta contribuíram para conferir peso dramático ao universo dos mutantes, desta vez o resultado é bem menos satisfatório. Em sua ambição por conferir amplitude dramática à história, conciliando-a com a clássica historieta de aventura do herói contra vilão, fez por embaraçar a narrativa com tantos meandros que nenhuma de suas faces pôde ser desenvolvida devidamente. Só com piedade podemos aceitar plausíveis o estapafúrdio e megalomaníaco plano de Lex Luthor de especulação imobiliária; ou a escolha do elenco, já que obviamente Brandon Routh e Kate Bosworth são jovens demais para os papéis – particularmente a moça que, aos 23 anos, tenta nos convencer, sem a energia inquiridora e a personalidade forte tão característica de Lois Lane, de que é mãe de um garoto de 5 anos e vencedora do Pulitzer – principalmente se considerarmos que ela supostamente já era uma repórter consagrada antes dos 18 anos, quando ocorreram os eventos dos capítulos anteriores. Além disso, a frieza com que sua personagem trata Clark é pouco interessante, eliminando uma das dinâmicas mais importantes do primeiro filme. Kevin Spacey, por sua vez, encarna Luthor de modo excepcional, eliminando qualquer resquício do bufo Gene Hackman, assumindo uma postura mais sarcástica e cruel. Por fim, Brandon Routh, por mais que apresente o tipo físico perfeito para o papel, parece sentir o peso do personagem e falha miseravelmente no aspecto mais importante de sua composição, jamais conseguindo diferenciar Clark Kent do Homem de Aço, talvez por falta de oportunidades mais claras para isso. Pois que o brilhantismo do trabalho de Christopher Reeve residia justamente em sua capacidade de levar o espectador a acreditar que Clark e Kal-El eram indivíduos diferentes; aliás, ao surgir como Superman, torna-se evidente que as feições de Routh receberam algum tipo de tratamento digital para diferenciá-lo ainda mais de Clark Kent, uma grande bobagem, uma ajuda que Reeve dispensava graças ao seu carisma, talento e timing cômico.

Também falha a música em sua característica básica no cinema: evocar emoções. Essa deficiência contamina-a, tornando-a por vezes afetada e excessiva como no momento em que Lois Lane e seu filho vagam pelo iate de Lex Luthor e se deparam com sua coleção de perucas, e ouvimos o soar dos metais tentando conferir a esses objetos um ar ameaçador que verdadeiramente não possuem, como ao final de uma seqüência de suspense mal sucedida. A música só faz tornar este instante um momento cômico quando desemboca num encontro com Lex escovando os dentes... Pude ouvir os risos. Na cena em que o Superman é espancado, a música falha por omissão, renunciando à descrição emotiva da cena, figurando como ambientação desconectada do ritmo. Ela reflete a melancolia da humilhação sofrida por ele, mas não se altera mediante as passagens mais tensas. Uma das cenas mais musicalmente interessantes, impressa irremediavelmente em minha memória, não pertence a Ottman - foi a do menino tocando ao piano, em seu cativeiro no iate, a infantil melodia protagonista do filme Quero Ser Grande com Tom Hanks; pois que por contraste imprimia à cena uma tensão que de outra forma não teria. E o que dizer desta seqüência, quando o próprio vilão senta-se ao seu lado tocando em dueto?

Diferentemente de Patrick Doyle, que em Harry Potter and The Goblet of Fire, substituindo John Williams, recriou o já consagrado tema em um elegante exercício de composição incidental e temática, Ottman não fez nada além do esperado, re-arranjando quase frivolamente os antigos temas e compondo somente material adicional indispensável às  novas necessidades. Corroborando, mais uma vez, a idéia corrente de que dificilmente uma trilha atual poderia vislumbrar a solidez daquela partitura original, não conseguiu a orquestração apurada e muito menos a sobriedade perspicaz do mestre Williams. Desde suas primeiras notas, percebemos fortemente carências de personalidade e originalidade em soluções técnicas pouco elegantes e conceitos melódicos e temáticos pouco interessantes, em nenhum momento me parecendo potencialmente brilhantes para serem recordados. Salvo um comovente tema nas seis suaves notas que serve de alternativa ao consagrado tema de amor de Williams e que, apesar de carecer de inspiração melódica, nos promove as melhores passagens do álbum em desenvolvimentos intimistas inspirados. Mas que mesmo assim, poderia ter sido melhor aproveitado no filme se firmado como o tema do garoto, filho de Lois Lane. Passemos à descrição e análise do score, faixa a faixa:

“Main Titles”
(Faixa 01 - 03:49): O Álbum se inicia, sem o prelúdio habitual, com a hábil música do maestro Williams, apostando talvez numa conexão mais intima com o passado e com seu majestoso espírito. Mas também incentivando a percepção dos contrastes entre os compositores.

“Memories”
(Faixa 02 - 03:07): Acompanha os pensamentos de Clark, que vislumbra sua fazenda em Smallville e se lembra de quando corria por ela. Traz uma breve introdução do Kent Family Theme original de Williams e logo ouvimos um trecho que lembra muito América de Leonard Bernstein, que se funde com o motivo anterior. Não me parecendo muito bem estruturada e inspirada, o restante da faixa é composta de detalhes rítmicos e timbres próprios do compositor fundidos a motivos e base rítmica dos temas de Williams, falsificando por instantes o “Growing Up” da trilha original. Ouvimos então uma capitulação lenta e delicada da Fanfarra do tema que se desfaz numa passagem mais ambiental, executada pelas madeiras e o misterioso coro misto; jogando com a idéia da trilha original, quando Clark acha o cristal no celeiro e inicia sua viagem ao Ártico.

“Rough Flight”
(Faixa 03 - 05:13): Acompanhando o resgate de um avião; é uma faixa fundamentalmente rítmica de início caótico, sem claridade e com pretensão de agressividade, mas carecendo de consistência. Uma das primeiras coisas que ouvimos é uma linha descendente e rápida de metais e muita dissonância orquestral, cessando subitamente. As variações rítmicas e orquestrais do “Main Titles” que se seguem são pouco ousadas, mas corretas e interessantes em meio a seções harmônico-melódicas conferidas a cordas, coro e metais.  Um tema muito dramático e heróico é ouvido quando passamos pela marca de quarto minuto. A faixa termina com uma seção incidental percussiva para coro e orquestra que cessa bruscamente.

“Little Secrets/Power of the Sun”
(Faixa 04 - 02:49): Com um belo início onde faz uso de uma variação do tema “Main Titles”, logo introduz-se, variando através das madeiras o tema do amor original de Williams, parecendo-me um tanto carente de expressão interpretativa. Ottman em seguida esboça o que será seu próprio leit-motif romântico na metade da faixa; algo escasso de inspiração melódica e arranjo orquestral, mas mesmo assim funcional e explicito. O trompete pontua com o tema “Main Titles” a chegada do coro em uma bela passagem melancólica, mas esperançosa que se finaliza em uma coda dramática.

“Bank Job”
(Faixa 05 - 02:21): É basicamente uma faixa rítmica incidental, uma vez mais com pretensões grandiosas, mas sem chegar a “golpear” o ouvinte com suas construções rítmicas infantis, maçante e com abuso dos efeitos orquestrais. Um rol de tímpanos abre a faixa culminando no frescor dos pratos. Trompetes emudecidos e madeiras recordam a música de Mystique de X-Men 2. Entre o caos percussivo, o tema de Lex luthor permanece meio escondido, mas é ouvido ocasionalmente nos metais. Na seção final se recorre mais uma vez às notas iniciais do “Main Title” sem nenhum brilhantismo (continuidade ou falta de idéias?), ouvida brevemente nos metais, logo em seguida o coro masculino acompanha o tema sobre o correr das cordas. A faixa termina com uma progressão curta e dissonante.

“How Could you Leave Us?”
(Faixa 06 - 05:49): Se desenrola durante a seqüência do reencontro e vôo do herói e Lois Lane em que conversam sobre sua ausência. Ottman apresenta inicialmente um terno esboço de seu próprio leit-motif de amor, passando logo então a uma magnífica recapitulação do tema de “Kripton” de Williams com um solo de corne inglês, que dá lugar a uma seção ambiental, intimista, insinuante e bem construída, apoiada em sintetizadores, violino solo e em texturas de cordas. Este conceito culmina na exposição e desenvolvimento do leit-motif de amor de Ottman (Faixa 04) com o piano, cordas e coro. No final da faixa de novo reaparece o tema de Williams, delicadamente apresentado nas cordas. Sem dúvida é uma das melhores e mais inspiradas faixas do álbum.

“Tell Me Everything”
(Faixa 07 - 03:13): Acompanha a visita de Lex Luthor à Fortaleza da Solidão. Uma faixa interessante, especialmente em sua seção central e final, bem construída em textura e orquestração, que de algum modo segue a linha intimista e ambiental da faixa anterior, só que mais obscura e inquietante. De inicio os metais entoam o tema de Luthor antes que o coro inicie uma bela, vibrante e misteriosa passagem junto aos metais e cordas, cortejando o tema de Luthor. O tema de “Kripton” é pontuado rápida e fortemente antes de tudo se acalmar. O que segue tem um sentido semelhante à "The Fortress of Solitude” original de Williams. O coro se faz presente, lírico, baseado no material de Krypton, só que mais dramático que na trilha original, antes de se acalmar. O minuto final é composto de alternados momentos, entre serenos e suspensivos, conferidos às cordas e aos metais, enquanto fragmentos melódicos nas cordas sugerem o tema de Luthor.

“You´re Not One of them”
(Faixa 08 - 02:22): Nova faixa intimista, algo mais simples e menos inspirada em construção que as anteriores, mas correta e funcional. A faixa tem início com um brilho morno e desamparado, enquanto se deixa acariciar por toques eletrônicos. O clarinete surge um momento por entre o calor dos sons; o violoncelo entra em seguida. Nós ouvimos uma linha de piano agradável enquanto os violinos reiterarem o tema principal, o leit-motif de amor de Ottman. Este tema é levado pelo cello e então pelo coro em um momento graciosamente contido: o ponto alto da faixa.

“Not Like the Train Set”
(Faixa 09 - 05:12): Aqui voltamos de início aos sons rítmicos e com pretensões agressivas de Ottman, encontrando-nos em meio a uma música demasiada mecânica. Os trompetes emudecidos estão de volta, pulsando enquanto as flautas introduzem ameaçadoramente uma variação do tema de Luthor. O coro “ah-ah” por sobre o tema nos recorda Quarteto Fantástico. A reprise das flautas ocorre sobre uma linha ascendente de trompetes emudecidos. É um tema que realmente representa o caráter inteligente e ao mesmo tempo ligeiramente maníaco do vilão, mas necessitaria de um maior desenvolvimento. Um motivo vocal fresco vaza brevemente e nos movemos então ao tema principal, com uma passagem ascendente conduzida pelo flautim e trompete. Ameaçadores, os baixos e trombones retomam o tema de Luthor. Mas tudo cessa novamente, cortado por uma curta e resplandecente passagem com trompete e coro feminino. Logo então os baixos e trombones retomam o tema de Luthor. O restante da faixa contém seções harmônicas convencionais, que se resolvem corretamente numa nova exposição da marcha de “Superman” numa execução interessante.

 “So Long Superman”
(Faixa 10 - 05:31): Inicia-se com uma passagem minimalista, dando origem ao leit-motif de Ottman executado pelo coro e metais. Logo ouvimos um obscuro lamento cantado por um coro masculino antes dos metais insurgirem sobre a cena de modo secundário com o tema de Luthor e alguns sons dissonantes. O violino suspenso nos evoca expectativa... Então, trágicas, as cordas ecoam antes de se calarem. Em seguida ouvimos a percussão lânguida ao fundo sob as madeiras e logo, estas, em dissonância. Então ouvimos o soar de sinos e um fragmento do tema de Luthor para trombones. As cordas ganham volume e nós ouvimos harmonias mais longas que se transformam no leit-motif de Ottman, se desenvolvendo em uma contida elegia para o Homem de Aço. Um golpe metálico seguido de outros nos tira deste transe. A elegia após alguns segundos de silêncio, vem a nosso encontro. Ouvimos então, através de sucessivos tempos, o ressoar de tambores...  As vozes e violinos retornam e nós ouvimos as trompas executando a Fanfarra e injetando um pouco de esperança na música. Destaca-se especialmente nesta faixa a re-exposição lírica do leit-motif de Ottman, ainda que com um arranjo de cordas repetitivo e simples, não careceu de emotividade.

“The People You Care for”
(Faixa 11 - 03:27):  Nova insinuação de ameaça. Um rol de tímpanos queda-se sobre a base contida de um coro masculino que dá origem a um ostinato de cordas sobre o qual os metais sugerem a apresentação do tema de Luthor. Somos levados então para um ostinato de violinos rompido pelo insurgir dos metais, com o coro, um grito estranho se segue, prelúdio para a articulação do tema de Luthor. Logo um delicado ostinato de glockenspiels toma o ambiente e, após o surgimento do coro, ouvimos as cordas introduzindo de modo previsível um trecho do leit-motif de Ottman, e os metais surgem dando origem a uma seção rítmica conduzida inicialmente pelo piano e metais que aludem ao tema de Luthor. Os violinos vibram psicóticos e o correr da harpa nos leva aos metais, que heroicamente finalizam a faixa. A seção final, bastante rítmica, carece uma vez mais de claridade, pegada e dinamismo.

“I Wanted You to Now”
(Faixa 12 - 02:56):  Esta faixa abre-se com uma melodia delicada no glockenspiel; uma harpa surge calmamente, então o clarinete declara uma melodia com um piano ao fundo... Vislumbramos as cordas. Há então um desenvolvimento melódico interessante nos compassos finais... Primeiramente o trompete profere uma curta aparição do leit-motif de Ottman antes da reprise pelo clarinete e logo então, da orquestra inteira ganhando em impulso e volume. Uma grande e vigorosa execução deste tema pelas cordas é ouvida com o acompanhamento ao fundo dos metais. Os cellos finalizam a faixa com uma variação do Kent Family Theme original.

“Saving the World”
(Faixa 13 - 03:12): A faixa se inicia com um arranjo percussivo adaptado de “Bank Job” (Faixa 05). Golpes orquestrais e seções corais sem muito critério de condução nos levam até uma ameaçadora seção rítmica  que desemboca corretamente no ostinato do “Main Titles” e ouvimos, nos metais, o tema de Luthor que cede lugar ao tema “Main Titles” de Williams, ilustrando a visão do minúsculo homem que ergue a ilha. De repente tudo cessa em dissonâncias e estrondos dos tímpanos e ouvimos o coro como uma turba repetidamente. O coro surge vibrante e tudo termina com uma ascensão não resolvida... É o silêncio da “morte” de Superman.

“In the Hands of the Mortals”
(Faixa 14 - 02:11): Talvez com a intenção inicial de ser uma marcha fúnebre com melodia coral e acompanhamento de corda, não se destacam nem o arranjo nem a melodia em si, muito limitados em técnica, ritmo e dinâmica. Uma nota insistente acompanha o coro infantil, talvez num anseio, mas incapaz de desenvolver o ostinato “Main Titles” que reviveria o herói, figurando talvez como uma variação deste. O ostinato simples pára e nos movemos ao motivo alternativo de amor no som do glockenspiel suavizando durante alguns segundos o ambiente. Assim chegamos ao fim da faixa.

“Reprise / Fly Away”
(Faixa 14 - 04:15): Serve apenas de recapitulação amalgamada de outras faixas, sem nenhuma novidade. Assim os créditos finais expõem os leit-motifs “românticos” de John Ottman e John Williams, bem como também, ao final, a “Superman March”. Tudo com um escasso trabalho instrumental ou de novos arranjos. Lástima, porque esta pista poderia ser a redenção, mas se resolve de forma rápida, cômoda e preguiçosa. E isso é como termina.

Confesso que ouvir a música de John Williams nos créditos iniciais me emocionou inesperadamente, me lançando de volta à infância, quando esperava o ano todo para ver a reprise do primeiro filme na TV e, sentado sozinho no sofá, assistia extasiado àquelas imagens. Esta foi a primeira música orquestral que me chamou a atenção na vida; com 6 anos eu a havia decorado e cantarolava-a na integra - lembro-me bem. Por isso, não me furtei à oportunidade de comentar a trilha deste novo filme cuja comparação com o original, como já disse, é inevitável, e até mesmo provocada por seus organizadores. Se
Batman Begins de Hans Zimmer e James Newton Howard nos deixou apenas a possibilidade de julgar se preferimos sua trilha à original de Danny Elfman em Batman, já que são díspares em estilo, Superman Returns nos evoca a comparação pura e simples do “o que é melhor?”. E sem dúvida, o que há de melhor em quaisquer dos scores é John Williams. Se tirássemos deste novo álbum toda e qualquer citação à partitura original, o que sobraria? Resposta: quase que mais um amontoado de insípidas partituras da moda, mas que de modo convincente (como dizem: “funcional”), aglutinadas aos imortais temas de Williams, sob os quais escondem suas deficiências, executam o trabalho ao qual se propõem: musicar um filme lembrando, e apenas lembrando, por entre as distorções dos novos e estéreis tempos, as grandes trilhas do passado.

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