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Com “The Queen”, um tema ascendente de duas notas levemente
fanfárrico, de ar nobre e aristocrático para metais e percussão,
seguido de um acorde para clavicórdio e pela repetição do tema em
cordas suaves e elegantes, inicia este estupendo trabalho do
compositor francês Alexandre Desplat, indicado ao Oscar 2006 (e para
muitos, o que deveria ter sido vencedor). Este tema lembra em sua
orquestração, em especial em seus recursos percussivos e na presença
dos sopros, a brilhante composição do mesmo autor para a soberba
partitura de
Birth,
sem dúvida uma de suas obras mais audaciosas e interessantes,
cinematograficamente falando. Com o uso da celesta, um hábito do
compositor, se desenvolvem as duas faixas seguintes: a primeira,
“Hills of Scotland”, é um delicado
scherzo de cadência
morriconiana
e melodia interpretada por flauta; a segunda, “People’s Princess I”,
revela uma magnífica passagem rítmica pontuada pelo mandolin, onde
vão se enredando sopros, piano e de novo o clavicórdio, culminando
num tema bem estruturado, orquestrado e resolvido.
A partir daqui Desplat deixa a orquestração empregada nestas três
primeiras faixas de forma brilhante, para ir revelando uma obra
cuidada e atraente com ocasionais variações das melodias mais
importantes como em “H.R.H.”, onde volta a aparecer o motivo da
Rainha, em “The Stag”, em que de forma dramática e intensa surge a
passagem cortesã que apareceu no
scherzo inicial, e
“People’s Princess II”, estupenda volta ao tema da princesa. Além
destes, em momentos mais lúgubres como a dramática “Mourning”, com a
percussão surgindo como solene e fúnebre voz da inesperada morte da
princesa Diana, ou o jogo de harpa, celesta,
pizzicatos e corda de
“Elisabeth & Tony”, o compositor amplia maravilhosamente as
inicialmente poucas possibilidades de um filme que,
a priori, pouco poderia
inspirar em sua narrativa musical.
Nada mais distante do resultado sonoro final, pois Alexandre Desplat,
atualmente um dos músicos mais inspirados e talentosos que atuam na
música de cinema, consegue elevar com sua obra, na medida do
possível, a qualidade de um filme centrado num dos mais recentes
capítulos da historia popular inglesa contemporânea. Trata da morte
de Lady Di e suas repercussões na vida da monarquia, vistas através
dos olhos da Rainha Elisabeth II, interpretada de forma magistral
por Hellen Mirren. O filme, dirigido pelo britânico Stephen Frears,
contou para sua partitura original com o compositor francês, em
detrimento de outros nomes que poderiam ter se encarregado do
projeto sem problemas e com maior razão de ser, se levarmos em conta
a nacionalidade do autor de
Syriana.
Nomes de gabarito como George Fenton, Stephen Warbeck, Patrick Doyle
ou Rachel Portman seriam opções em razão de seu país de origem, mas
fica a dúvida se teriam obtido a elegância com que Desplat abordou
musicalmente o terreno aristocrático inglês, onde se move como um
peixe na água, brilhando com luz própria as orquestrações de sua
própria mão, com a ajuda nas mesmas de Jean-Pascal Beitus.
Composições formosas e contemplativas como “River of Sorrow”, ou
mais intensas em seu emprego das cordas como “The Queen Drives”,
completam uma audição que é curta, apesar do repetido uso de alguns
temas, e que culmina ao final em “Queen of Hearts”, uma peça que
resume todas as virtudes melódicas deste trabalho, assim como a
perícia orquestral de seu criador.
Em complemento à música original de Desplat foi incluído o tema
“Libera me”, composto por Verdi e que foi interpretado durante o
funeral de Diana, uma peça soberba que é a chave de ouro para uma
trilha sonora totalmente recomendável e um firme passo adiante na
carreira de um compositor que, se continuar nessa linha de trabalho
sério e de qualidade, poderá ser um dos mais importantes músicos
cinematográficos do nosso tempo.
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