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Estará o
diretor hindú Manoj Night Shyamalan perdendo o seu toque mestre? A
primeira semana de A Vila em termos de bilheteria foi excelente,
mas nas seguintes decaiu vertiginosamente. Os comentários indicavam
tanto desconcerto como desilusão e rejeição ao filme. Se o filme
anterior, Sinais,
é transparente ideologicamente e em sua resolução, A Vila é o
outro lado da mesma moeda. Trata-se de uma obra esquiva, talvez porque
seja um "filme de grupo", já que não possui um protagonista definido,
mas sim é toda uma comunidade norte-americana, ambientada no final do
século XIX, que sofre a ameaça. Segundo a lenda, nos bosques que cercam
esta aldeia há uma raça de criaturas terríveis com as quais os anciãos,
o Conselho que governa o povoado, fizeram uma trégua: os humanos não
cruzam o bosque e os monstros os deixam em paz. Estes anciãos são
líderes que estão dispostos a qualquer coisa para conservar a harmonia
tão duramente conquistada, e não hesitarão em estreitar ainda mais sua
visão para manter estas condições, obtidas através do medo, da
ignorância e do preconceito.
Mesmo assim, The Village, como o resto de sua filmografia, repete
alguns dos temas do diretor. Fala sobre o poder do amor, a necessidade
de enfrentar nossos medos, a dificultade para expressar nossos
sentimentos, as conflituadas relações entre jovens e adultos, as
perturbações que produzem aqueles segredos do passado que na verdade
estão à nossa vista, a fé ou a falta dela e a tendência a nos isolarnos
dos outros. Também, The Village mostra uma dimensão política mais
que interessante. O filme funciona como uma metáfora sobre as formas de
ver o mundo e o progressivo isolamento dos Estados Unidos. A ameaça
(vermelha, para ser mais claro), a instável trégua e o Mal que vem de
fora convidam a repensar esses elementos. O que lhe agrega uma visão
sobre a comunidade que termina sendo muito menos idílica do que
aparenta.
E neste filme muito criticado e nada exitoso,
James Newton Howard
outra vez cumpre à perfeição com o que foi solicitado pelo diretor,
complementando-o de um modo surpreendente e transmitindo, eficazmente,
cada um dos seus climas. Desde a terna descrição da aldeia nas faixas "Noah
Visits" e "What Are You Asking Me?" (e também em parte de "The Bad Color"),
ou a aterradora presença dos inomináveis em "Those We Don't Speak Of",
"The Forbidden Line" e "It Is Not Real", até os estados de ânimo dos
protagonistas no restante dos temas. E atenção: não busquem, neste,
paralelos com outros trabalhos da dupla, porque a sonoridade de The
Village em nada se parece com eles. O que, neste caso, é uma grande
virtude, uma vez que trata-se de uma séria intenção de inovar temática e
musicalmente.
Também deve ser destacada a contribuição da excelente violinista Hilary
Hahn, que com sua excepcional execução, converte-se por vezes na
protagonista tanto do score como do filme. Seu trabalho agradou
tanto ao diretor de Corpo Fechado que seu nome é o primeiro a
surgir nos créditos finais, como forma de valorizar o seu desempenho.
A Vila não é um álbum para qualquer colecionador. Para apreciá-lo em
sua real magnitude há que se ter uma predisposição especial e um tanto
de mente aberta. Tal como o filme, esta trilha sonora repete
pontualmente seus acertos e virtudes. O que ratifica uma vez mais o
binômio Night Shyamalan / Newton Howard como um dos mais interessantes
da atualidade.
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