Depois das inovações
de Eric Serra em
GoldenEye,
que não agradaram, os produtores da mais longa série do cinema
resolveram retornar ao clássico "Bond Sound", celebrizado nos anos 60 e
70 por John Barry, e
por conseqüência foi gerado um grande interesse
a respeito do compositor que seria designado para
compor a trilha sonora do filme seguinte, O Amanhã Nunca Morre.
Definitivamente esta matéria se havia convertido em um elemento crítico.
Também houve o temor (infundado) de que Serra continuaria na função, já
que os produtores jamais se pronunciaram formalmente a respeito do
decepcionante trabalho daquele compositor, situação que foi entendida
como conformidade (um dos fatos que gerou este temor foi a musicalização
do trailer de Tomorrow Never Dies).
Mas com a confirmação de
David Arnold como
compositor, imediatamente nos vieram à memória duas de suas partituras
anteriores: Stargate e
Independence
Day, o que nos levou a esperar pelo menos uma trilha sonora
predominantemente orquestral, mais ajustada com a música de James Bond.
Graças a entrevistas posteriores, soubemos que Arnold era um fanático
pela música de Bond, particularmente a composta na década de 60, e que
pouco tempo antes de ser designado como compositor de Tomorrow Never
Dies ele havia produzido um álbum com novas versões de
canções e temas utilizados na série, intitulado “Shaken And Stirred: The
David Arnold James Bond Project”. Em uma entrevista recente John Barry
declarou que casualmente conheceu Arnold quando este estava produzindo
"Shaken And Stirred". depois de uma longa conversa com Arnold, Barry
ligou para Barbara Bróccoli e lhe disse que havia encontrado o cara
perfeito para ficar encarregado da música do novo filme. Com a sua
contratação, Arnold teria pelo menos três objetivos a atingir: fazer
esquecer a experiência anterior com Serra,
retornar a música à melhor de suas origens e lançar as bases de
um novo som para uma nova era.
Arnold declarou que compôs este score com um pé na década de 60 e
outro na de 90, o que é comprovado graças à sua grande versatilidade,
que lhe permite compor todo tipo de música. Como nos filmes anteriores,
a composição da canção principal não foi responsabilidade do compositor
da partitura principal. “Tomorrow Never Dies” foi composta por Sheryl
Crow e Mitchel Froom e interpretada por Sheryl Crow, sendo uma balada
cuja letra é bastante dramática, mas apresenta como principal
característica musical ser bastante plana e sem momentos de grande
emoção. Apesar de não ser uma canção ruim, dificilmente
passará
para a história como
uma das mais
destacadas da série.
A canção não tem nenhuma relação com o
argumento do filme e David Arnold jamais a utilizou como inspiração para
seus temas instrumentais, até porque, imediatamente após ter sido
contratado para este trabalho, ele havia composto juntamente com Don
Black (antigo compositor de letras para a série) um tema para ser
proposto como canção principal. Este tema se chamava “Tomorrow Never
Dies” e foi interpretado por k.d Lang. A canção ao final não foi a
escolhida, e Arnold teve de conformar-se em utilizá-la nos créditos
finais, rebatizada como “Surrender” (já que a canção finalmente
selecionada tinha o mesmo nome).
Quase todos os críticos consideram esta canção muito superior à que foi
escolhida como tema principal, já que é claramente inspirada nas
primeiras canções da série, com força e melodia absolutamente
apropriadas para Bond, e interpretada soberbamente por k.d Lang. De
qualquer sorte, mesmo não sendo ouvida nos créditos principais, Arnold
restabeleceu uma velha tradição, utilizando-a abundantemente como padrão
instrumental para seus temas incidentais, seja isoladamente ou
combinada com o “Tema de James Bond”. A letra desta
canção, apesar de igualmente não refletir o argumento do filme, se
aproxima dele bem mais do que o habitual para a série. A trilha sonora
de O Amanhã Nunca Morre
possui uma série de
características que a torna uma das favoritas dos fãs, já que pela
primeira vez desde a época de John Barry existe a sensação de que o
compositor, além de fazer um bom trabalho, também o apreciou como talvez
nenhum outro pudesse fazê-lo (incluindo o próprio Barry). Para Arnold,
cumprir esta tarefa foi realizar um sonho de infância, e portanto nela
pôs o melhor de si. Ao percorrer páginas da internet dedicadas a Bond ou
à música de filmes, é quase unânime a opinião de que este é um grande
trabalho. Também é certo que esta opinião é em boa parte influenciada
pelo deficiente trabalho efetuado por Eric Serra em GoldenEye,
mas esta situação não desmerece em nada a trilha sonora de Arnold, que
apresenta as seguintes características principais:
1. Arnold,
ao contrário de Serra, caracteriza a música de Bond recorrendo, em
várias oportunidades, ao “Tema de James Bond”, utilizando-o
acertadamente e nos momentos precisos, de acordo com as necessidades do
roteiro. Segundo muitos críticos, Arnold revive o estilo de John Barry
ao ponto extremo de tomar emprestadas algumas passagens compostas por
este último para filmes anteriores da série. De fato, apesar
de o estilo característico de David Arnold estar presente, em
determinados momentos o que ouvimos é puro Barry dos tempos de
Goldfinger
ou Thunderball.
Em outras circunstâncias poderíamos até achar que é plágio, porém
tratando-se de trilhas sonoras de um filme de James Bond, cuja fórmula
deve ser tão "imexível" quanto a da Coca-Cola que sorvemos no cinema,
acabamos por saborear com prazer o prato musical que nos é servido;
2.
Arnold incorpora tanto arranjos sinfônicos como eletrônicos,
tendo o feeling suficiente para determinar que tipo de música
utilizar em cada seqüência. Depois do desastre de Serra ficaram dúvidas
se a música eletrônica servia para Bond, mas Arnold deixou bem claro que
sabendo utilizá-la corretamente, pode converter-se em um perfeito
complemento para as cenas;
3.
Abundante utilização de sua canção “Surrender” como padrão dos
temas instrumentais. Inclusive até se poderia dizer que este tema é um
pilar fundamental da partitura.
Já
ao escutarmos as primeiras notas na seqüência de abertura
("Gun Barrel Sequence"), pressentimos que este trabalho
percorrerá um caminho bem distinto de seu predecessor. Este
pressentimento se confirma no tremendo arranjo orquestral que acompanha
a seqüência de pré-títulos. Dali em diante
devemos estar preparados para sermos surpreendidos com vários
temas que aparecerão durante o filme: “Company Car”,
“Backseat Driver”, “Hamburg Break Out”,
“The Bike Chase”, “Kowloon Bay” e “All in
a Day's Work”. Já que Arnold não utilizou a canção principal
como padrão instrumental, ele se viu na obrigação de compor um tema
romântico especial, o qual é utilizado em um par de seqüências
protagonizadas por Bond e Paris Carver. As cenas de ação em general
foram acompanhadas por arranjos sinfônicos fortemente baseados no “Tema
de James Bond” e na canção “Surrender”. Também existe uma espetacular
perseguição no estacionamento de um hotel, brilhantemente musicada pelo
tema “Backseat Driver”, que corresponde a um arranjo eletrônico que
Arnold compôs juntamente com o grupo Propellerhead, e que demonstra que
se pode utilizar música eletrônica nos filmes de Bond.
Mesmo se considerarmos que não há pontos baixos na trilha, nos parece
que as composições “Dr Kauffman”, “The Sinking of
Devonshire” e “Underwater Discovery” não estão à altura do restante dos
temas. De modo contrário à música de GoldenEye, que prejudicou o
filme, em O Amanhã Nunca Morre houve o efeito contrário, a ponto
de que parte importante de seu êxito de público e crítica se deve à
trilha sonora. No CD original de 007 - O Amanhã Nunca Morre,
praticamente metade da partitura ficou de fora já que o compositor, à
época em que o álbum chegou às lojas, ainda estava concluindo as
gravações. Em janeiro de 2000 Arnold conseguiu
lançar a partitura completa em um CD da extinta gravadora Chapter III,
com exceção das duas canções e do “Station Break”. Este disco, em
relação ao original, adiciona 27 minutos de score e inclui uma
entrevista (apenas áudio) com o compositor. Ao final, ficamos pensando
que, se não existisse a magistral partitura de
007 A Serviço Secreto
de Sua Majestade, provavelmente a trilha sonora de O Amanhã
Nunca Morre seria a melhor de toda a série, e que nos perdoe John
Barry...
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