TOMORROW NEVER DIES
Música composta por
David Arnold

Selo:
A&M Records (edição regular), Chapter III (score expandido)
Catálogo:
31453 0830 2, CHA 0125
Ano: 1997, 2003
Faixas (edição regular):
1. Tomorrow Never Dies - Sheryl Crow
2. White Knight
3. Sinking of the Devonshire
4. Company Car
5. Station Break
6. Paris and Bond 
7. Last Goodbye 
8. Hamburg Break In 
9. Hamburg Break Out 
10. Doctor Kaufman 
11. *-3-Send 
12. Underwater Discovery 
13. Backseat Driver 
14. Surrender - k.d. lang 
15. James Bond Theme - Moby

Duração (edição regular): 53:59
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha e Hugo Moya Arancibia

 
Depois das inovações de Eric Serra em GoldenEye, que não agradaram, os produtores da mais longa série do cinema resolveram retornar ao clássico "Bond Sound",  celebrizado nos anos 60 e 70 por John Barry, e por conseqüência foi gerado um grande interesse a respeito do compositor que seria designado para compor a trilha sonora do filme seguinte, O Amanhã Nunca Morre. Definitivamente esta matéria se havia convertido em um elemento crítico. Também houve o temor (infundado) de que Serra continuaria na função, já que os produtores jamais se pronunciaram formalmente a respeito do decepcionante trabalho daquele compositor, situação que foi entendida como conformidade (um dos fatos que gerou este temor foi a musicalização do trailer de Tomorrow Never Dies).

Mas com a confirmação de
David Arnold como compositor, imediatamente nos vieram à memória duas de suas partituras anteriores: Stargate e Independence Day, o que nos levou a esperar pelo menos uma trilha sonora predominantemente orquestral, mais ajustada com a música de James Bond. Graças a entrevistas posteriores, soubemos que Arnold era um fanático pela música de Bond, particularmente a composta na década de 60, e que pouco tempo antes de ser designado como compositor de Tomorrow Never Dies ele havia produzido um álbum com novas versões de canções e temas utilizados na série, intitulado “Shaken And Stirred: The David Arnold James Bond Project”. Em uma entrevista recente John Barry declarou que casualmente conheceu Arnold quando este estava produzindo "Shaken And Stirred". depois de uma longa conversa com Arnold, Barry ligou para Barbara Bróccoli e lhe disse que havia encontrado o cara perfeito para ficar encarregado da música do novo filme. Com a sua contratação, Arnold teria pelo menos três objetivos a atingir: fazer esquecer a experiência anterior com Serra, retornar a música à melhor de suas origens e lançar as bases de um novo som para uma nova era.

Arnold declarou que compôs este score com um pé na década de 60 e outro na de 90, o que é comprovado graças à sua grande versatilidade, que lhe permite compor todo tipo de música. Como nos filmes anteriores, a composição da canção principal não foi responsabilidade do compositor da partitura principal. “Tomorrow Never Dies” foi composta por Sheryl Crow e Mitchel Froom e interpretada por Sheryl Crow, sendo uma balada cuja letra é bastante dramática, mas apresenta como principal característica musical ser bastante plana e sem momentos de grande emoção. Apesar de não ser uma canção ruim, dificilmente pa
ssará para a história como uma das mais destacadas da série. A canção não tem nenhuma relação com o argumento do filme e David Arnold jamais a utilizou como inspiração para seus temas instrumentais, até porque, imediatamente após ter sido contratado para este trabalho, ele havia composto juntamente com Don Black (antigo compositor de letras para a série) um tema para ser proposto como canção principal. Este tema se chamava “Tomorrow Never Dies” e foi interpretado por k.d Lang. A canção ao final não foi a escolhida, e Arnold teve de conformar-se em utilizá-la nos créditos finais, rebatizada como “Surrender” (já que a canção finalmente selecionada tinha o mesmo nome).

Quase todos os críticos consideram esta canção muito superior à que foi escolhida como tema principal, já que é claramente inspirada nas primeiras canções da série, com  força e melodia absolutamente apropriadas para Bond, e interpretada soberbamente por k.d Lang. De qualquer sorte, mesmo não sendo ouvida nos créditos principais, Arnold restabeleceu uma velha tradição, utilizando-a abundantemente como padrão instrumental para seus temas incidentais, seja isoladamente ou
combinada com o “Tema de James Bond”. A letra desta canção, apesar de igualmente não refletir o argumento do filme, se aproxima dele bem mais do que o habitual para a série. A trilha sonora de O Amanhã Nunca Morre
possui uma série de características que a torna uma das favoritas dos fãs, já que pela primeira vez desde a época de John Barry existe a sensação de que o compositor, além de fazer um bom trabalho, também o apreciou como talvez nenhum outro pudesse fazê-lo (incluindo o próprio Barry). Para Arnold, cumprir esta tarefa foi realizar um sonho de infância, e portanto nela pôs o melhor de si. Ao percorrer páginas da internet dedicadas a Bond ou à música de filmes, é quase unânime a opinião de que este é um grande trabalho. Também é certo que esta opinião é em boa parte influenciada pelo deficiente trabalho efetuado por Eric Serra em GoldenEye, mas esta situação não desmerece em nada a trilha sonora de Arnold, que apresenta as seguintes características principais:

1. Arnold, ao contrário de Serra, caracteriza a música de Bond recorrendo, em várias oportunidades, ao “Tema de James Bond”, utilizando-o acertadamente e nos momentos precisos, de acordo com as necessidades do roteiro. Segundo muitos críticos, Arnold revive o estilo de John Barry ao ponto extremo de tomar emprestadas algumas passagens compostas por este último para filmes anteriores da série. De fato, a
pesar de o estilo característico de David Arnold estar presente, em determinados momentos o que ouvimos é puro Barry dos tempos de Goldfinger ou Thunderball.  Em outras circunstâncias poderíamos até achar que é plágio, porém tratando-se de trilhas sonoras de um filme de James Bond, cuja fórmula deve ser tão "imexível" quanto a da Coca-Cola que sorvemos no cinema, acabamos por saborear com prazer o prato musical que nos é servido;
2.  Arnold incorpora tanto arranjos sinfônicos como eletrônicos, tendo o feeling suficiente para determinar que tipo de música utilizar em cada seqüência. Depois do desastre de Serra ficaram dúvidas se a música eletrônica servia para Bond, mas Arnold deixou bem claro que sabendo utilizá-la corretamente, pode converter-se em um perfeito complemento para as cenas;
3.  Abundante utilização de sua canção “Surrender” como padrão dos temas instrumentais. Inclusive até se poderia dizer que este tema é um pilar fundamental da partitura.

Já ao escutarmos as primeiras notas na seqüência de abertura ("Gun Barrel Sequence"), pressentimos  que este trabalho percorrerá um caminho bem distinto de seu predecessor. Este pressentimento se confirma no tremendo arranjo orquestral que acompanha a seqüência de pré-títulos. Dali em diante devemos estar preparados para sermos surpreendidos com vários temas que aparecerão durante o filme: “Company Car”, “Backseat Driver”, “Hamburg Break Out”, “The Bike Chase”, “Kowloon Bay” e “All in a Day's Work”.  Já que Arnold não utilizou a canção principal como padrão instrumental, ele se viu na obrigação de compor um tema romântico especial, o qual é utilizado em um par de seqüências protagonizadas por Bond e Paris Carver. As cenas de ação em general foram acompanhadas por arranjos sinfônicos fortemente baseados no “Tema de James Bond” e na canção “Surrender”. Também existe uma espetacular perseguição no estacionamento de um hotel, brilhantemente musicada pelo tema “Backseat Driver”, que corresponde a um arranjo eletrônico que Arnold compôs juntamente com o grupo Propellerhead, e que demonstra que se pode utilizar música eletrônica nos filmes de Bond.

Mesmo se considerarmos que não há pontos baixos na trilha, nos parece que
as composições “Dr Kauffman”, “The Sinking of Devonshire” e “Underwater Discovery” não estão à altura do restante dos temas. De modo contrário à música de GoldenEye, que prejudicou o filme, em O Amanhã Nunca Morre houve o efeito contrário, a ponto de que parte importante de seu êxito de público e crítica se deve à trilha sonora. No CD original de 007 - O Amanhã Nunca Morre, praticamente metade da partitura ficou de fora já que o compositor, à época em que o álbum chegou às lojas, ainda estava concluindo as gravações. Em janeiro de 2000 Arnold conseguiu lançar a partitura completa em um CD da extinta gravadora Chapter III, com exceção das duas canções e do “Station Break”. Este disco, em relação ao original, adiciona 27 minutos de score e inclui uma entrevista (apenas áudio) com o compositor. Ao final, ficamos pensando que, se não existisse a magistral partitura de 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade, provavelmente a trilha sonora de O Amanhã Nunca Morre seria a melhor de toda a série, e que nos perdoe John Barry...

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