Uma das poucas grandes trilhas
dos anos 70 de John
Williams que ainda não haviam ganho uma edição oficial,
Inferno na Torre (1974) foi o maior sucesso cinematográfico do
lendário diretor/produtor Irwin Allen, e sua última colaboração com o
mais famoso compositor do cinema. Para Allen, Williams compusera
anteriormente scores e temas para as famosas séries de TV
Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo e Terra de Gigantes, além
da trilha do sucesso de 1972
O Destino do
Poseidon. A Film Score Monthly, que já havia editado Poseidon,
lança The Towering Inferno em um CD que possui o dobro de duração
do antigo LP (75:31), coloca as músicas em ordem cronológica e restaura
faixas memoráveis como "Let There Be Light" (uma fanfarra explosiva para
a inauguração do arranha-céu) e praticamente toda a seção intermediária
do filme. O CD inclui, também, tanto a versão do LP da canção premiada
com o Oscar "We May Never Love Like This Again" (de Al Kasha e Joel
Hirschhorn, cantada por Maureen McGovern, ausente no CD Promo lançado em
1999, também comentado neste site), como a versão interpretada no
filme.
Towering Inferno é uma trilha que reflete o estilo de Williams da
época, ou seja, uma combinação de músicas puramente orquestrais com
alguns temas jazzísticos ou pop, mais ou menos nos moldes de
Earthquake (Terremoto), outro filme-catástrofe para o qual ele
compôs, neste mesmo ano. Porém, há uma clara predominância de
composições eminentemente orquestrais, já apontando para o padrão que o
compositor imporia a seus trabalhos, já a partir da metade da década de
70. Neste sentido, destaca-se um dos mais vibrantes temas de abertura já
compostos por Williams, arranjado para orquestra completa, que em seus 5
minutos de duração, acompanha o vôo de um helicóptero até o topo do
edifício mais alto do mundo - e durante o qual somos apresentados ao
motivo utilizado nas cenas de resgate, mas também aos nomes do grande e
estelar elenco. Agora,
o "Main Title" pode ser ouvido em toda a sua glória original, já que
para esta edição foram utilizadas principalmente as matrizes originais
estéreo de 35 mm.
Fui, provavelmente, um dos primeiros a receber o CD fora dos EUA, e o
que vou dizer pode parecer incrível, mas é a pura verdade: mesmo
conhecendo muito bem esta trilha, ouvi-la nesta nova edição da FSM é uma
experiência nova, quase uma redescoberta. Fato que se torna ainda mais
significativo, se considerarmos que o LP original, ao contrário da
maioria dos álbuns da época, não era uma regravação: continha as
gravações realmente utilizadas no filme. As diferenças na audição,
portanto, originam-se da nova mixagem. O CD também inclui faixas bônus,
como um arranjo jazzístico para a canção de The Poseidon Adventure,
além de 3 faixas inéditas que apresentam defeitos no som. Ao invés de
deixá-las de fora, a FSM decidiu incluí-las mesmo assim, para satisfazer
aos completistas. Um item indispensável para qualquer fã de Williams e
da boa música de cinema, o CD pode ser adquirido no site
www.filmscoremonthly.com.
Mas atenção, como todos os lançamentos da FSM, este também é uma edição
limitada de 3.000 cópias.
Jorge Saldanha
A inexistência de
um lançamento oficial em CD de The Towering Inferno até o
lançamento da FSM é um mistério inexplicável. Para além da importância
deste trabalho no output de Williams, o filme, com todos os seus
méritos e falhas, ainda é hoje recordado, pelo que uma edição em CD
nunca seria um desastre absoluto. A comprovar o interesse dos fãs fica o
fato de as três mil cópias terem sido totalmente vendidas em apenas
alguns meses, juntando agora esta edição ao grupo de álbuns procurados a
qualquer preço pelos colecionadores. O CD apresenta as faixas que faziam
parte do LP original, sequenciando-as de forma cronológica e expandindo
a duração do álbum para cerca do dobro do original. Há muita música
nova, que vai desde a que está associada à tragédia, normalmente usando
uma escrita mais modernista, até à apresentações com o som pop
dos anos 70 do material composto para as personagens interpretadas por
Faye Dunaway e Fred Astaire. De realçar a curta e brilhante fanfarra "Let
There Be Light", para a abertura do prédio. Basicamente Williams
apresenta três temas: o que surge na abertura, associado com os
bombeiros, um para Susan (Dunaway) e outro para Harlee (Astaire). Estes
dois últimos começam por surgir como peças pop e vão ganhando uma
qualidade mais requintada à medida que o filme avança. As duas recebem
um tratamento orquestral na música para os créditos finais "An
Architect's Dream".
Williams adapta também a canção do duo Kasha e Hirchhorn "We May Never
Love Like This Again", usando-a em várias ocasiões, sempre associado ao
drama de um casal de amantes ("Not a Cigarette" e "Trapped Lovers", que
combinam passagens mais exigentes com o tema da canção). Mas o mais
interessante do disco é o material associado com a tragédia e o esforço
dos bombeiro, onde é usado extensivamente o tema da abertura, que convêm
um sentido de urgência e dedicação. A abertura só por si é um dos
grandes momentos do CD, e Williams vai usar o tema que lhe serve de base
de forma dramática em várias ocasiões. Há faixas que usam um som
atmosférico com recurso à atonalidade como em "Doug's Fall/Piggy Back
Ride" ou "Lisolette's Descent". Muito deste material deixa antever muito
do que chegaria pela mão deste compositor nos anos seguintes. Grande
parte do material na segunda parte do álbum concentra-se nestas
ambiências, com o surgimento de vários solos para flauta, mas ao
contrário do que acontece com The Poseidon Adventure e no
claramente inferior Earthquake (também de 1974), o resultado é
muito mais satisfatório, já que Williams consegue criar uma paisagem
musical completa, integrando estas passagens atmosféricas com o restante
material, como acontece na já mencionada faixa "Trapped Lovers" (um dos
melhores momentos do score) e mais à frente "Down the Pipes/The
Door Opens". A conclusão climática da partitura está no extenso "Planting
the Charges" com cerca de nove minutos, juntamente com o "Main Title" e
"Trapped Lovers", o ponto alto da partitura. Continuando a usar efeitos
orquestrais para criar tensão como noutras faixas anteriores, "Planting
the Charges" usa extensivamente e de forma inteligente o tema da
abertura. Seguimos para o "Finale" e "An Architect's Dream", com a
apresentação algo elegíaca em tom, dos dois temas associados com algumas
das personagens, concluindo com uma última apresentação do tema
principal do "Main Title".
Adicionalmente a FSM resolveu incluir várias versões instrumentais (uma
delas arranjada pelo próprio Williams) e cantadas (por Mauren McGovern)
da canção de Kasha e Hirchhorn, e no final do disco, várias faixas
bônus, que foram para aqui remetidas por estarem danificadas ou por
serem versões usadas no álbum original. Embora o que seja de maior
interesse já estivesse disponível na edição original do LP, no CD pirata
que era uma reprodução do próprio LP, ou na regravação da Varèse
Sarabande, uma edição oficial deste trabalho era realmente necessária.
Este é um trabalho de grande importância na obra deste compositor, um
dos pontos altos (no que respeita à música) no gênero do filme
catástrofe, e embora na minha modesta opinião me agrade mais as escolhas
programáticas que Williams fez para o LP, não faria grande sentido
prescindir de todo este material adicional, que traz nova luz para o
trabalho de Williams dos anos 70 (particularmente permite entender como
ele trabalha as melodias pop, transformando-as em afirmações
dramáticas). A FSM consegue apresentar mais uma vez um excelente CD,
dando um brilho desconhecido à gravação. Excelentes notas de Jeff Bond,
do expert em Williams Jeff Eldridge e Lukas Kendall, completam um
CD que é um must para todos os interessados em música para
cinema. Miguel Andrade |