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O mais recente álbum do mais procurado
compositor de Hollywood não contém a música do principal blockbuster
do verão, mas antes um pouco da sua música privada, escrita não para
acompanhar explosões e aventuras, mas para a sala de concertos,
obedecendo apenas à inspiração pessoal do compositor e não às imagens.
Williams traz para a casa de todos os amantes de grande música três
obras que cobrem 26 anos, usando como veiculo o som lírico do violino e
a orquestra. É uma forma de entender a evolução de Williams enquanto
compositor, e de avaliar o desenvolvimento das suas sensibilidades,
desde o Concerto para Violino (1974-1976, revisto em 1998) até
TreeSong (2000), passando pela suíte para salas de concerto da
partitura para
Schindler's List (1993). TreeSong, a grande novidade do
CD, foi iniciada no final de 1999 e a sua orquestração foi dada como
concluída pouco antes da estréia em Tanglewood, a 8 de Julho de 2000.
Escrita expressamente para Gil Shaham, a quem é dedicada, a obra vai
buscar inspiração à árvore preferida de Williams no Jardim Público de
Boston, a Dawn Redwood (metasequoia glyptostroboides), uma árvore que
até há poucos anos era julgada extinta e cuja existência remonta ao
período Mesozóico. A história desta árvore foi contada a Williams por
uma botânica de Harvard, a Drª. Hu, que a havia semeado nos anos 40, e
ela e a árvore são a base para a peça. TreeSong, em três
movimentos interpretados sem pausa, começa num tom meditativo que sugere
a antiguidade e herança mística da árvore. Orquestrada de forma escassa,
o violino faz brilhar toda a sua qualidade lírica. Outros instrumentos
aparecem, nomeadamente o clarinete, num pequeno diálogo com o solista,
que toma um tom algo expressionista. Há também uma breve recordação de
outro trabalho de Williams, o Concerto para Violino, escondido
por entre uma curta passagem para cordas. Embora não seja programático,
todos os movimentos recebem títulos. O primeiro, marcado na partitura
com Dreamly, é intitulado "Doctor Hu and the Metasequoia". O
segundo movimento (Twice as fast - Deciso 'Trunks, Branches and
Leaves') é num tempo mais rápido, e com maior participação da orquestra.
Há alguns gestos minimalistas, principalmente na forma como Williams
manuseia as texturas orquestrais, e quando a orquestra atinge um
tutti, este faz lembrar a música de John Adams. Segue para uma
cadenza, em que o violino ou surge sozinho, ou com acompanhamento
escasso. Ao contrário da cadenza da tradição romântica, a de
Williams, embora exigente para o interprete, não o é num sentido de
destreza física, mas antes da entoação. Aliás, como em muita da música
para as salas de concerto de Williams, a música carrega algo de
profundamente espiritual com ela, e no regresso ao tempo mais sereno do
primeiro movimento em 'The Tree Sings', Williams liberta todo o lirismo
deste instrumento, feito de uma caixa de madeira, ele também assombrado
pelas árvores, e com a companhia das cordas entoam um belo cântico pela
árvore que apaixonou tão profundamente o compositor. E nesta
contemplação meditativa TreeSong termina com o som distante e
misterioso da harpa e marimba, enquanto o violino deixa perder no ar a
sua última nota. TreeSong é um trabalho de uma sensibilidade
extraordinária, vindo da mão de um artista consumado, que soube criar
uma homenagem a um ser milenar com uma grande economia de meios,
escrevendo o que quase é música de câmara, em contraponto com as suas
musculosas partituras para cinema.
O Concerto para Violino e Orquestra foi sugerido a Williams pela
sua primeira esposa, a cantora e atriz Barbara Ruick. Quando esta
faleceu, vítima de derrame cerebral em 1974, Williams começou a
trabalhar no concerto, que completou em 1976, tendo-o dedicado
postumamente. Ao contrário de ser assombrado pelo espírito da sua
falecida esposa, o concerto é assombrado por alguns dos ídolos musicais
de Williams, nomeadamente os compositores russos deste século, que
Williams guarda em alta estima. E assombrosas também as melodias que o
compositor desenvolve durante os trinta minutos e três movimentos do
concerto. Este inicia com um solo para o violino, apresentando o tema
principal que vai ser desenvolvido no decorrer do movimento. Após vários
desenvolvimentos, segue-se uma cadenza, e um final diálogo entre
orquestra e violino encerram o primeiro movimento. O tom do segundo
movimento 'Slowly - In Peacefully Comtemplation' é elegíaco, apenas
interrompido por uma brusca seção central onde violino e orquestra
trocam idéias sobre um novo motivo. O movimento final 'Maestoso', começa
com acordes dissonantes dos metais e segue na tradição do rondo.
Os temas principais ouvidos durante os movimentos anteriores são
recordados, e somos encaminhados para a mais bela melodia, que o violino
'chora'. Acordes dissonantes levam-nos para a coda e conclusão
excitada do concerto. A presente gravação difere não só na interpretação
mas também no fato de ser uma versão revista datada de 1998. As
principais alterações são em relação às relações dinâmicas entre violino
e orquestra, assim como pequenas alterações na orquestração.
Algumas passagens foram aumentadas e encurtadas também. O CD encerra com
o único trabalho de inspiração cinematográfica presente nesta gravação.
A suíte de Schindler's List, compila os três principais temas da
partitura vencedora do Oscar. O 'Theme' é levado num tempo mais lento do
que na maioria das gravações. 'Jewish Town' é interpretada com profunda
emoção e 'Remembrances', a única das peças que foi revista para esta
versão, é o culminar da obra. Shaham é um solista mais do que dedicado,
e deixa nesta gravação as melhores interpretações em CD destas peças. Em
todo o álbum, a música brilha e assombra-nos com os mesmos espíritos que
assombram o violino, que Williams parece conhecer tão bem, e aos quais
Shaham e a Boston Symphony Orchestra respondem com clara simpatia. Ao
ouvir esta música só posso desejar que nos anos que restam a Williams
ele continue a concentrar os seus esforços a compor música de tão grande
profundidade e sensibilidade, e se isso implicar compor mais para as
salas de concerto e menos para cinema, que seja. A música, quando se
eleva a níveis tão elevados não conhece limitações. Nem Williams. |
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