TreeSonG CONCERTO
John Williams: TreeSong, for violin and orchestra (2000); Concerto for Violin and Orchestra (1974-76, rev. 1998); Three Pieces from Schindler's List (1993) - Gil Shaham, violino/Boston Symphony Orchestra/John Williams

Selo:
Deutsche Grammophon
Catálogo:
471 326-2
Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 
O mais recente álbum do mais procurado compositor de Hollywood não contém a música do principal blockbuster do verão, mas antes um pouco da sua música privada, escrita não para acompanhar explosões e aventuras, mas para a sala de concertos, obedecendo apenas à inspiração pessoal do compositor e não às imagens. Williams traz para a casa de todos os amantes de grande música três obras que cobrem 26 anos, usando como veiculo o som lírico do violino e a orquestra. É uma forma de entender a evolução de Williams enquanto compositor, e de avaliar o desenvolvimento das suas sensibilidades, desde o Concerto para Violino (1974-1976, revisto em 1998) até TreeSong (2000), passando pela suíte para salas de concerto da partitura para Schindler's List (1993). TreeSong, a grande novidade do CD, foi iniciada no final de 1999 e a sua orquestração foi dada como concluída pouco antes da estréia em Tanglewood, a 8 de Julho de 2000.

Escrita expressamente para Gil Shaham, a quem é dedicada, a obra vai buscar inspiração à árvore preferida de Williams no Jardim Público de Boston, a Dawn Redwood (metasequoia glyptostroboides), uma árvore que até há poucos anos era julgada extinta e cuja existência remonta ao período Mesozóico. A história desta árvore foi contada a Williams por uma botânica de Harvard, a Drª. Hu, que a havia semeado nos anos 40, e ela e a árvore são a base para a peça. TreeSong, em três movimentos interpretados sem pausa, começa num tom meditativo que sugere a antiguidade e herança mística da árvore. Orquestrada de forma escassa, o violino faz brilhar toda a sua qualidade lírica. Outros instrumentos aparecem, nomeadamente o clarinete, num pequeno diálogo com o solista, que toma um tom algo expressionista. Há também uma breve recordação de outro trabalho de Williams, o Concerto para Violino, escondido por entre uma curta passagem para cordas. Embora não seja programático, todos os movimentos recebem títulos. O primeiro, marcado na partitura com Dreamly, é intitulado "Doctor Hu and the Metasequoia". O segundo movimento (Twice as fast - Deciso 'Trunks, Branches and Leaves') é num tempo mais rápido, e com maior participação da orquestra.

Há alguns gestos minimalistas, principalmente na forma como Williams manuseia as texturas orquestrais, e quando a orquestra atinge um tutti, este faz lembrar a música de John Adams. Segue para uma cadenza, em que o violino ou surge sozinho, ou com acompanhamento escasso. Ao contrário da cadenza da tradição romântica, a de Williams, embora exigente para o interprete, não o é num sentido de destreza física, mas antes da entoação. Aliás, como em muita da música para as salas de concerto de Williams, a música carrega algo de profundamente espiritual com ela, e no regresso ao tempo mais sereno do primeiro movimento em 'The Tree Sings', Williams liberta todo o lirismo deste instrumento, feito de uma caixa de madeira, ele também assombrado pelas árvores, e com a companhia das cordas entoam um belo cântico pela árvore que apaixonou tão profundamente o compositor. E nesta contemplação meditativa TreeSong termina com o som distante e misterioso da harpa e marimba, enquanto o violino deixa perder no ar a sua última nota. TreeSong é um trabalho de uma sensibilidade extraordinária, vindo da mão de um artista consumado, que soube criar uma homenagem a um ser milenar com uma grande economia de meios, escrevendo o que quase é música de câmara, em contraponto com as suas musculosas partituras para cinema.

O Concerto para Violino e Orquestra foi sugerido a Williams pela sua primeira esposa, a cantora e atriz Barbara Ruick. Quando esta faleceu, vítima de derrame cerebral em 1974, Williams começou a trabalhar no concerto, que completou em 1976, tendo-o dedicado postumamente. Ao contrário de ser assombrado pelo espírito da sua falecida esposa, o concerto é assombrado por alguns dos ídolos musicais de Williams, nomeadamente os compositores russos deste século, que Williams guarda em alta estima. E assombrosas também as melodias que o compositor desenvolve durante os trinta minutos e três movimentos do concerto. Este inicia com um solo para o violino, apresentando o tema principal que vai ser desenvolvido no decorrer do movimento. Após vários desenvolvimentos, segue-se uma cadenza, e um final diálogo entre orquestra e violino encerram o primeiro movimento. O tom do segundo movimento 'Slowly - In Peacefully Comtemplation' é elegíaco, apenas interrompido por uma brusca seção central onde violino e orquestra trocam idéias sobre um novo motivo. O movimento final 'Maestoso', começa com acordes dissonantes dos metais e segue na tradição do rondo. Os temas principais ouvidos durante os movimentos anteriores são recordados, e somos encaminhados para a mais bela melodia, que o violino 'chora'. Acordes dissonantes levam-nos para a coda e conclusão excitada do concerto. A presente gravação difere não só na interpretação mas também no fato de ser uma versão revista datada de 1998. As principais alterações são em relação às relações dinâmicas entre violino e orquestra, assim como pequenas alterações na orquestração.

Algumas passagens foram aumentadas e encurtadas também. O CD encerra com o único trabalho de inspiração cinematográfica presente nesta gravação. A suíte de Schindler's List, compila os três principais temas da partitura vencedora do Oscar. O 'Theme' é levado num tempo mais lento do que na maioria das gravações. 'Jewish Town' é interpretada com profunda emoção e 'Remembrances', a única das peças que foi revista para esta versão, é o culminar da obra. Shaham é um solista mais do que dedicado, e deixa nesta gravação as melhores interpretações em CD destas peças. Em todo o álbum, a música brilha e assombra-nos com os mesmos espíritos que assombram o violino, que Williams parece conhecer tão bem, e aos quais Shaham e a Boston Symphony Orchestra respondem com clara simpatia. Ao ouvir esta música só posso desejar que nos anos que restam a Williams ele continue a concentrar os seus esforços a compor música de tão grande profundidade e sensibilidade, e se isso implicar compor mais para as salas de concerto e menos para cinema, que seja. A música, quando se eleva a níveis tão elevados não conhece limitações. Nem Williams.

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