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Desde que foi anunciado que J.J. Abrams seria o produtor e diretor do
novo longa de
Jornada nas
Estrelas
(agora simplesmente
Star Trek),
poucos duvidavam que seu colaborador habitual, Michael Giacchino,
seria o responsável pela trilha. Isso posteriormente se confirmou, e
criou-se uma grande expectativa quanto à música que Giacchino, que
vem construindo uma sólida carreira também participando de produções
que não são de Abrams, criaria para este filme que marca um retorno
ao início das viagens da nave estelar Enterprise.
Bem, ouvi pela primeira vez o CD da trilha de
Star Trek
antes de ver o filme, e confesso que não fiquei muito impressionado.
Contudo, após assisti-lo, minha opinião tornou-se mais
favorável. E inicio esta resenha fazendo referência a uma das
maiores críticas que este trabalho vem recebendo - o de não utilizar
em nenhum momento o tema que
Jerry Goldsmith
criou para
Jornada nas
Estrelas - O Filme,
que virou uma espécie de hino da franquia. Se retrocedermos aos
filmes anteriores, constataremos que este tema foi utilizado apenas
por Goldsmith - as trilhas criadas por outros compositores (e
destes, James Horner
e Cliff Eidelman compuseram ótimas partituras) trouxeram temas
próprios, lançando mão no máximo do tema da
Série Clássica,
de Alexander
Courage. Giacchino apenas seguiu pelo mesmo caminho, e sejamos
sinceros - ele não tinha obrigação nenhuma de agir de modo diverso.
Mas enfim, o compositor entregou um score que,
indiscutivelmente, possui uma personalidade própria, que reflete seu
estilo particular. E sim, Giacchino criou um tema muito
interessante, ouvido já a partir da faixa inicial, "Star Trek". É
uma melodia pomposa, inicialmente interpretada apenas por trombone,
que busca prestar homenagem à franquia a qual serve. Este tema
será utilizado de forma recorrente ao longo da trilha, normalmente
ligado a Jim Kirk (Chris Pine) e à própria Enterprise.
"Labor of Love" é puro Giacchino - no filme este agridoce motivo
pontua as cenas de nascimento do bebê Kirk em plena batalha, e a
orquestra - com destaque para a seção de cordas - interpreta uma
melodia delicada que celebra a chegada de uma nova vida, mas que ao
mesmo tempo traz a melancolia da perda que também a acompanha. "Hella
Bar Talk" novamente inclui o tema principal, no momento em que o
Capitão da Enterprise, Christopher Pike, convence o jovem Kirk a
alistar-se na Frota Estelar. Inicialmente em ritmo contemplativo, ao
final ela ganha um ritmo mais intenso.
Um dos pontos altos do trabalho é "Enterprising Young Men",
ouvida quando os cadetes chegam pela primeira vez na Enterprise
e que remete às épicas trilhas de filmes do Velho Oeste. Uma
fanfarra grandiosa - previamente usada
para acompanhar o surgimento do título
Star Trek
na tela -
é
seguida pela interpretação do tema
principal com toda a orquestra, e na platéia é difícil não conter a
empolgação. É um dos momentos mais inspirados de Giacchino, e
extremamente adequado, uma vez que o próprio criador de
Jornada nas
Estrelas,
Gene Roddenberry, classificara sua obra como uma "caravana no
espaço".
Em contraponto, um dos pontos
fracos do filme é seu vilão, e isto se reflete no score. O
material dedicado a Nero e sua nave Narada é, via de regra, restrito
a faixas de ação genérica ("Nero Sighted", "Nero Fiddles, Narada
Burns" - esta, pelo menos, traz algo raramente ouvido nas trilhas da
franquia: corais), que dificilmente ficarão marcadas na memória do
ouvinte. Já "That New Car Smell" inicia com a sensível melodia
dedicada a Spock, que apropriadamente emprega uma orquestração
"etérea" que evoca o planeta e a cultura do personagem. Em seu
desenvolvimento ela encontrará o tema principal do filme, como que
selando a amizade que se inicia entre o vulcano e Kirk. Ressalte-se
que este tema de Spock é levemente referido em
"Enterprising Young Men", uma das melhores faixas do score.
Seguem-se as duas faixas que concluem o álbum, onde Giacchino prepara o terreno
para que a tripulação completa da Enterprise, agora sob o comando do
jovem Capitão Kirk, finalmente se reúna e parta rumo a novas
aventuras. Nelas, "To Boldly Go" e a longa suíte final "End
Credits", Giacchino emprega de forma marcante o tema de Courage,
sendo que na última, de forma raramente feita nos filmes, ele surge
de forma completa.
Esta homenagem à
Série Clássica
marca o encerramento digno de um trabalho que será melhor apreciado
acompanhado das imagens do filme de Abrams, ou pelo menos após
o ouvinte tê-lo assistido. De qualquer modo, é mais um competente score
que entra para o currículo de Giacchino, a quem considero um dos mais promissores jovens talentos da música do
cinema.
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