TROY
Música composta e regida por
James Horner

Selo: Warner/Reprise
Catálogo: 48798

Ano: 2004

Faixas:
1. 3200 Years Ago 
2. Troy 
3. Achilles Leads The Myrmidons 
4. The Temple Of Poseidon 
5. The Night Before 
6. The Greek Army And Its Defeat 
7. Briseis And Achilles 
8. The Trojans Attack 
9. Hector’s Death 
10. The Wooden Horse And The Sacking Of Troy 
11. Through The Fires, Achilles... And Immortality 
12. Remember - Performed by Josh Groban with Tanja Tzarovska 

Duração: 75:21
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 
Todo blockbuster de Hollywood tem histórias pitorescas e até polêmicas de bastidores, que surgem antes da sua estréia nos cinemas. Com Tróia não foi diferente, tendo algumas ficado no terreno da futilidade, como aquela de que teriam usado um "dublê de coxas" para Brad Pitt (que não teria coxas dignas de seu personagem Aquiles); outras envolveram aspectos importantes da produção, sendo o caso mais notório a rejeição da trilha sonora original que Gabriel Yared compôs para o filme. Yared, que como você deve saber, ganhou um Oscar por seu trabalho em O Paciente Inglês, passou mais de um ano trabalhando em um elaborado e grandioso score para Tróia. Contudo, como não é raro de acontecer, algumas semanas antes da estréia do filme o trabalho do compositor foi rejeitado, uma vez que os produtores, mesmo reconhecendo a qualidade do trabalho de Yared, decidiram que ele era  muito "antiquado" e que Tróia deveria ter uma linguagem musical mais afinada com os tempos atuais - entenda-se, que "tivesse uma trilha sonora da moda" (étnica).

Em face da complicada situação formada - a nova trilha teria de ser composta, gravada e adicionada ao filme em poucas semanas, o diretor Wolfgang Petersen teve de recorrer a alguém com a experiência de trabalhar nestas condições e, acima de tudo, com a capacidade de criar uma partitura funcional com a sonoridade exigida, algo na linha dos sons ouvidos em Gladiador e A Paixão de Cristo. Entra em cena nosso conhecido e competentíssimo James Horner, que já trabalhara com Petersen em Mar em Fúria. De habilidade e recursos indiscutíveis, Horner encarou a missão suicida e compôs 120 minutos de música em 13 dias, levando outros 12 para gravá-la com uma grande orquestra de 118 instrumentos (entre eles, 5 pianos), regida por ele mesmo, e coral. O resultado pode ser conferido no filme e nos 75 minutos de música contidos no CD lançado pela Warner. Horner, como seria de esperar, entregou uma trilha sonora funcional e que contém os elementos que lhe foram exigidos - instrumentação e vocais étnicos, com uma solista à la Lisa Gerrard, e orquestração contemporânea. De um modo geral, novamente ele comprovou sua grande versatilidade e experiência como compositor de cinema, orquestrador e maestro.

Porque, digam o que disserem, poucos profissionais do ramo, hoje, teriam condições de concluir uma trilha original de qualidade mínima no curto prazo que ele teve. E, neste aspecto, o score de Horner para Tróia, principalmente como ouvido no filme, pode ser considerado um trabalho bem sucedido. Já em disco, ficam mais expostos os conhecidos "hornerismos", que tem origem na insistência do compositor em reaproveitar porções de seus trabalhos anteriores (e, não raro, de outros compositores). Neste aspecto, o  que mais é visível (melhor dizendo, audível), é aquele motivo de quatro notas que Horner tomou emprestado de Prokofief, celebrizado em Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan como o tema do vilão. Ao longo dos anos o compositor vem repetindo este tema para representar o perigo, com pouquíssimas variações, em uma série de filmes de temáticas distintas, como Willow, A Máscara do Zorro e Círculo de Fogo. Em Tróia ele é utilizado para representar o exército grego e, forçoso é reconhecer, mais uma vez de forma eficaz. No álbum este motivo é ouvido primeiramente em "Achilles Leads The Myrmidons", e posteriormente em trechos de música de batalha. Além desta trademark, a partitura é recheada das orquestrações de cordas e percussão típicas do compositor para trilhas de ação e suspense, porém sem a mesma coesão e foco de trabalhos mais antigos - reflexo, provavelmente, da falta de tempo para lapidar melhor estas composições.

"The Greek Army and It's Defeat" é, no caso, uma boa exceção. Na sua introdução, Horner usa os registros graves dos cinco pianos para criar um ritmo militar e estável, como se a música fosse um exército em marcha. Ela inicia lentamente com as notas dos pianos, com os metais e samplers vindo em seguida repetindo o motivo grego, mas logo a música acelera-se e Horner adiciona percussão à mixagem. A faixa conclui com o tema heróico ascendente/descendente dos troianos, interpretado em metais (cuja primeira aparição se dá em "Troy"). "Briseis and Achilles" introduz no álbum o tema de amor do filme, que não é dos mais inspirados de Horner. O que é de se lamentar, já que o compositor, em sua carreira, compôs alguns love themes belíssimos. Para completar, este tema guarda uma grande semelhança com o tema de Stargate, de David Arnold... Se de um modo geral os temas que Horner criou para Tróia não chegam a empolgar, dentre eles destaca-se o tema composto para o guerreiro Aquiles. Nele, a música consegue transmitir muito bem o heroísmo do personagem, especialmente em "Achilles Leads The Myrmidons", faixa de ação com uma ótima escrita para cordas e metais. O tema de Aquiles retorna em outros momentos, como em "The Trojans Attack" e "Through The Fires, Achilles... And Immortality", valorizando tais composições.

Outro momento atrativo da trilha chega em "Hector's Death", que acompanha o confronto de Heitor com Aquiles. A faixa inicia e transcorre por um bom tempo somente com percussão, até que o coral étnico assinala a queda do guerreiro troiano. Em seu conjunto a composição possui um tom tribal bem interessante. Além da grande orquestra e coral, como já citei ao início temos os vocais femininos da solista Tanja Tzarovska, que também participou do score rejeitado de Yared. Sua voz é ouvida já na faixa inicial, "3200 Years Ago", e retorna em vários momentos do score, como "The Temple of Poseidon". Sem surpresa, os solos de Tzarovska lembram muito os de Lisa Gerrard em Gladiador, e têm grande relevo na música. De fato, tanto relevo que um scoretracker comentou ter se irritado com a  intérprete, que parecia sofrer de cólicas menstruais violentas... E sim, não nos esqueçamos da obrigatória canção ao final, uma versão vocal do tema de amor interpretada por Tzarovska e Josh Groban, que certamente foi incluída para concorrer ao Oscar - sorry James, mas eu duvido muito disso.

Bom, no frigir dos ovos é isso - Tróia é mais um eficiente score de Horner, que poderia ser melhor se o compositor tivesse um pouco mais de tempo para entregar um trabalho mais elaborado e, preferencialmente, sem  a sua "marca registrada" de quatro notas. Ah, e quanto à inevitável pergunta: afinal, o score de Horner é melhor que o de Yared? A resposta vocês podem conferir aqui mesmo no ScoreTrack.net, no comentário do CD Promo contendo a partitura rejeitada. Gabriel Yared chegou, inclusive, a disponibilizar por algum tempo em seu site oficial, na seção "News", The score for Troy, clipes deste trabalho.

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