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Passando a limpo a
história da música no cinema mundial, constata-se que não são raros os
casos em que scores são rejeitados por diretores ou produtores.
Alguns episódios tornaram-se famosos, como o da trilha de
Bernard Herrmann
para
Cortina
Rasgada
(1966), descartada por Hitchcock em favor de uma partitura “mais
moderna” de John Addison (isto inclusive provocou o fim da notável
parceria do grande compositor com o lendário diretor). Outro caso famoso
é o da trilha original de Alex North para
2001 - Uma Odisséia
no Espaço
(1968), que Stanley Kubrick substituiu por seleções de música clássica.
Agora temos outro caso que, tudo indica, também ficará registrado com
destaque nos anais da música do cinema: a rejeição da trilha sonora
original que Gabriel Yared compôs para
Tróia
(2004), e sua substituição por outra de autoria de
James Horner.
Após ter sido dispensado pelo diretor Wolfgang Petersen, Yared chegou a
disponibilizar em seu site oficial (http://www.gabrielyared.com/),
por algum tempo, clipes de seu
score
rejeitado. Não conhecia nenhum trabalho anterior de Yared com proporções
épicas, portanto foi com surpresa que constatei, pelos trechos
disponibilizados ali, de que tudo indicava tratar-se de uma obra com
estas características.
Posteriormente, tendo nas mãos o CD promocional de Yared utilizado para
esta análise, tive certeza de que os adjetivos “excessivo”, “grande
demais” e “antiquado”, utilizados para justificar a não-utilização desta
partitura, tinham certo fundamento. Porque, recentemente, apenas os
grandes scores orquestrais de
Howard Shore para a trilogia
O Senhor dos
Anéis
se aproximam deste trabalho de Yared em termos de grandiosidade e,
mesmo, de complexidade de estrutura e utilização conjugada de temas ou
motivos musicais.
Tróia
de Gabriel Yared é um
score
épico, magnífico, cem por cento acústico e, sim, antiquado - no sentido
de que segue a tradição dos grandes trabalhos do gênero produzidos por
mestres como Miklos
Rozsa, Alfred Newman
e Bernard Herrmann. Para a sua gravação em Londres foi utilizada uma
grande orquestra e um coral búlgaro que, posteriormente, foi também
empregado por James Horner. As refinadas orquestrações ficaram a cargo
de Jeff Atmajian, John Bell e Stephan Moucha. As qualidades inerentes da
música, todas típicas das grandes partituras orquestrais do cinema,
carregadas de força e emoção, justificam a impressão de que ela seja
“antiquada” - o que não deixa de ser irônico por tratar-se de um filme
que narra acontecimentos ocorridos há 3.200 anos. E é bom que se frise,
isso passa a ser defeito somente a partir do momento em que o cineasta
resolve que quer no filme uma música mais contemporânea, que possa ser
melhor assimilada pelo público de hoje.
De qualquer sorte nota-se que, provavelmente por pressão de Petersen ou
de alguma outra pessoa com poder decisório na produção, Yared buscou
incluir alguns elementos da música “étnica” comum em filmes do gênero
moderno, ou seja, as vocalizações que lembram sonoridades do Oriente
Médio, e instrumentos típicos. E, para remeter à trilha de
Gladiador
(hoje o
padrão para este tipo de score), em certas passagens o
compositor, a exemplo de
Hans Zimmer, usou harmonias de
"Mars, Bringer of War",
da sinfonia "The Planets", de Holst. Porém
estes elementos estão restritos a poucos momentos da obra, caracterizada
principalmente pela força da orquestra, do coral e dos fortes temas
sobre os quais se baseia. Em destaque temos o heróico tema de Aquiles,
apresentado em “Achilles & Boagrius”, bem diferente do de Horner mas
que, de modo análogo, é uma das forças que movem o
score;
os belos temas de amor ouvidos em “Paris and Helen” e “Achilles and
Briseis”; e o poderoso tema dos gregos, introduzido com força por
tambores de guerra, coral, ostinato de cordas e metais massivos já em
“Approaching Greeks”, a primeira faixa do CD promo. Para as
cenas de batalha Yared compôs peças rítmicas, percussivas e com forte
uso dos metais, que além de não fazerem feio frente às equivalentes de
Horner, chegam a superá-las. Faixas desta categoria, como “D-Day Battle”,
“Battle of the Arrows” e a longa “The Sacking of Troy” definitivamente
merecem nossa atenção.
Mas agora passamos a dar maior atenção à área onde os trabalhos de Yared
e Horner apresentam similaridades – para começar, o uso do
London Bulgarian Choir e da solista macedônia Tanja Tzarovska. Pelo
jeito os produtores gostaram destes elementos específicos da trilha de
Yared, e solicitaram a Horner que os reutilizasse nas gravações feitas
em Los Angeles. Contudo, o norte-americano fez deles uso de uma forma
mais “palatável” e menos crua que Yared. Ouça de Yared, por exemplo,
“Moaning Women” e “Hector’s Funeral”, onde Tanja Tzarovska e o coro
feminino literalmente lamentam e choram pela perda de vidas. Em outras
faixas, o coral masculino canta em tom baixo e grave, dando ares
sombrios à música. Já “Achilles & Hector Fight” é outro caso em que
Horner utilizou conceitos de Yared. É uma faixa em que não há um tema
propriamente dito: é, na definição do próprio Yared, uma “Dança da
Morte” na maior parte interpretada na percussão, acompanhando o combate
de Aquiles e Heitor. Quando este é ferido, finalmente ouvimos o coral e
Tzarovska. E, pelo menos ao meu juízo, nada mais há que aproxime o
trabalho dos dois compositores. O score aproxima-se do
final com “The Sacking of Troy”, onde novamente ouvimos o ostinato do
tema dos gregos, e “Achilles Death”. Estas duas faixas sozinhas duram 16
minutos, que se iniciam em ritmo de ação para, na última, termos uma
conclusão eminentemente emocional.
O álbum se encerra com “End Title Song”, canção que de pop
não tem nada. É uma espécie de versão melancólica e muito bonita
do tema de amor de Helena e Paris, com a voz de Tzarovska (que criou as
letras em macedônio) sobre um acompanhamento suave. Yared não chegou a
gravar toda a partitura, mas mesmo assim deixou registradas mais de duas
horas de música, das quais colocou 77 minutos no CD promo.
Algumas faixas não terminaram de ser mixadas, e a canção final possui
qualidade de áudio (mono) irregular. Mas nada disso enfraquece a música
que ouvimos. De fato, posso concluir ser até possível que, em
determinados momentos, a criação de Yared soasse mesmo intrusiva e
excessiva no filme; contudo, a rejeição completa deste magnífico
score, um dos mais grandiosos e elaborados compostos em anos recentes, foi um
erro lamentável, já que não tenho dúvidas que Tróia seria
um filme melhor se tivesse a acompanhá-lo a antiquada – e excelente –
partitura de Gabriel Yared. No momento não há previsão de que, em algum
momento no futuro, ela seja disponibilizada de forma ampla ao público.
Contudo, há uma petição online para seu lançamento em CD,
ou para que ao menos seja incluída no filme em uma futura edição
especial em DVD, como faixa de áudio alternativa. Para assinar a
petição, vá até
http://www.petitiononline.com/gyared/petition.html. |