TROY (THE REJECTED SCORE)
Música composta por Gabriel Yared


Selo: Promo
Ano: 2004
Faixas:
1. Approach of the Greeks 
2. Achilles Destiny
3. Opening 
4. Achilles & Boagrius
5. Sparta 
6. Helen & Paris 
7. D-Day Battle 
8. 1000 Ships
9. Mourning Women
10. Achilles & Briseis 
11. Battle of the Arrows 
12. Greek Funeral Pyres
13. Hector, Hector!
14. Achilles & Hector Fight
15. Hector's Funeral 
16. The Sacking of Troy
17. Achilles Death 
18. End Title Song 
Duração: 77:04
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 

Passando a limpo a história da música no cinema mundial, constata-se que não são raros os casos em que scores são rejeitados por diretores ou produtores. Alguns episódios tornaram-se famosos, como o da trilha de Bernard Herrmann para Cortina Rasgada (1966), descartada por Hitchcock em favor de uma partitura “mais moderna” de John Addison (isto inclusive provocou o fim da notável parceria do grande compositor com o lendário diretor). Outro caso famoso é o da trilha original de Alex North para 2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968), que Stanley Kubrick substituiu por seleções de música clássica. Agora temos outro caso que, tudo indica, também ficará registrado com destaque nos anais da música do cinema: a rejeição da trilha sonora original que Gabriel Yared compôs para Tróia (2004), e sua substituição por outra de autoria de James Horner. Após ter sido dispensado pelo diretor Wolfgang Petersen, Yared chegou a disponibilizar em seu site oficial (http://www.gabrielyared.com/), por algum tempo, clipes de seu score rejeitado. Não conhecia nenhum trabalho anterior de Yared com proporções épicas, portanto foi com surpresa que constatei, pelos trechos disponibilizados ali, de que tudo indicava tratar-se de uma obra com estas características.

Posteriormente, tendo nas mãos o CD promocional de Yared utilizado para esta análise, tive certeza de que os adjetivos “excessivo”, “grande demais” e “antiquado”, utilizados para justificar a não-utilização desta partitura, tinham certo fundamento. Porque, recentemente, apenas os grandes scores orquestrais de Howard Shore para a trilogia
O Senhor dos Anéis se aproximam deste trabalho de Yared em termos de grandiosidade e, mesmo, de complexidade de estrutura e utilização conjugada de temas ou motivos musicais. Tróia de Gabriel Yared é um score épico, magnífico, cem por cento acústico e, sim, antiquado - no sentido de que segue a tradição dos grandes trabalhos do gênero produzidos por mestres como Miklos Rozsa, Alfred Newman e Bernard Herrmann. Para a sua gravação em Londres foi utilizada uma grande orquestra e um coral búlgaro que, posteriormente, foi também empregado por James Horner. As refinadas orquestrações ficaram a cargo de Jeff Atmajian, John Bell e Stephan Moucha. As qualidades inerentes da música, todas típicas das grandes partituras orquestrais do cinema, carregadas de força e emoção, justificam a impressão de que ela seja “antiquada” - o que não deixa de ser irônico por tratar-se de um filme que narra acontecimentos ocorridos há 3.200 anos. E é bom que se frise, isso passa a ser defeito somente a partir do momento em que o cineasta resolve que quer no filme uma música mais contemporânea, que possa ser melhor assimilada pelo público de hoje.

De qualquer sorte nota-se que, provavelmente por pressão de Petersen ou de alguma outra pessoa com poder decisório na produção, Yared buscou incluir alguns elementos da música “étnica” comum em filmes do gênero moderno, ou seja, as vocalizações que lembram sonoridades do Oriente Médio, e instrumentos típicos. E, para remeter à trilha de
Gladiador (hoje o padrão para este tipo de score), em certas passagens o compositor, a exemplo de Hans Zimmer, usou harmonias de "Mars, Bringer of War", da sinfonia "The Planets", de Holst. Porém estes elementos estão restritos a poucos momentos da obra, caracterizada principalmente pela força da orquestra, do coral e dos fortes temas sobre os quais se baseia. Em destaque temos o heróico tema de Aquiles, apresentado em “Achilles & Boagrius”, bem diferente do de Horner mas que, de modo análogo, é uma das forças que movem o score; os belos temas de amor ouvidos em “Paris and Helen” e “Achilles and Briseis”; e o poderoso tema dos gregos, introduzido com força por tambores de guerra, coral, ostinato de cordas e metais massivos já em “Approaching Greeks”, a primeira faixa do CD promo. Para as cenas de batalha Yared compôs peças rítmicas, percussivas e com forte uso dos metais, que além de não fazerem feio frente às equivalentes de Horner, chegam a superá-las. Faixas desta categoria, como “D-Day Battle”, “Battle of the Arrows” e a longa “The Sacking of Troy” definitivamente merecem nossa atenção.

Mas agora passamos a dar maior atenção à área onde os trabalhos de Yared e Horner apresentam similaridades – para começar, o uso do London Bulgarian Choir e da solista macedônia Tanja Tzarovska. Pelo jeito os produtores gostaram destes elementos específicos da trilha de Yared, e solicitaram a Horner que os reutilizasse nas gravações feitas em Los Angeles. Contudo, o norte-americano fez deles uso de uma forma mais “palatável” e menos crua que Yared. Ouça de Yared, por exemplo, “Moaning Women” e “Hector’s Funeral”, onde Tanja Tzarovska e o coro feminino literalmente lamentam e choram pela perda de vidas. Em outras faixas, o coral masculino canta em tom baixo e grave, dando ares sombrios à música. Já “Achilles & Hector Fight” é outro caso em que Horner utilizou conceitos de Yared. É uma faixa em que não há um tema propriamente dito: é, na definição do próprio Yared, uma “Dança da Morte” na maior parte interpretada na percussão, acompanhando o combate de Aquiles e Heitor. Quando este é ferido, finalmente ouvimos o coral e Tzarovska. E, pelo menos ao meu juízo, nada mais há que aproxime o trabalho dos dois compositores. O score aproxima-se do final com “The Sacking of Troy”, onde novamente ouvimos o ostinato do tema dos gregos, e “Achilles Death”. Estas duas faixas sozinhas duram 16 minutos, que se iniciam em ritmo de ação para, na última, termos uma conclusão eminentemente emocional.

O álbum se encerra com “End Title Song”, canção que de pop  não tem nada. É uma espécie de versão melancólica e muito bonita do tema de amor de Helena e Paris, com a voz de Tzarovska (que criou as letras em macedônio) sobre um acompanhamento suave. Yared não chegou a gravar toda a partitura, mas mesmo assim deixou registradas mais de duas horas de música, das quais colocou 77 minutos no CD promo. Algumas faixas não terminaram de ser mixadas, e a canção final possui qualidade de áudio (mono) irregular. Mas nada disso enfraquece a música que ouvimos. De fato, posso concluir ser até possível que, em determinados momentos, a criação de Yared soasse mesmo intrusiva e excessiva no filme; contudo, a rejeição completa deste magnífico
score , um dos mais grandiosos e elaborados compostos em anos recentes, foi um erro lamentável, já que não tenho dúvidas que Tróia seria um filme melhor se tivesse a acompanhá-lo a antiquada – e excelente – partitura de Gabriel Yared. No momento não há previsão de que, em algum momento no futuro, ela seja disponibilizada de forma ampla ao público. Contudo, há uma petição online para seu lançamento em CD, ou para que ao menos seja incluída no filme em uma futura edição especial em DVD, como faixa de áudio alternativa. Para assinar a petição, vá até http://www.petitiononline.com/gyared/petition.html.

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