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O lançamento da primeira temporada da
série de TV Twin Peaks em DVD, no Brasil, é
uma boa oportunidade para revisitarmos sua bela trilha sonora, composta
por Angelo
Badalamenti - habitual colaborador do cineasta
David Lynch. O CD norte-americano foi um dos primeiros que comprei,
porém este álbum, pelo que me recordo, chegou ao Brasil somente em LP,
em 1991, aproveitando a exibição da série. A criação de David Lynch e do
produtor Mark Frost foi mutilada pela Globo, o que colaborou para que
ela não tivesse aqui a mesma repercussão que teve nos EUA. E o horário -
domingos, após o indefectível Fantástico - também não ajudou em
nada. Contudo a sua trilha sonora, para mim a obra-prima de Badalamenti,
acabou sendo um sucesso entre os apreciadores da boa música, e aqui não
me refiro apenas aos fãs de trilhas sonoras. Contando com alguns temas
com letras de Lynch, a música de Twin Peaks teve boa aceitação
pelo público porque, além de extremamente eficiente como reforço
dramático aos aspectos peculiares da trama, sendo muito mais que uma
mera peça acessória no seriado, ela pode ser perfeitamente apreciada
também fora do contexto para o qual foi composta.
Em suma, é facilmente percebida como música da melhor qualidade, tenha
você assistido ou não à série. Badalamenti foi trazido ao projeto antes
mesmo de que qualquer cena houvesse sido filmada, e para gravar a trilha
tratou de arregimentar um grupo de excelentes músicos de estúdio. Lynch
solicitou ao compositor que criasse um tema principal que fosse, ao
mesmo tempo, dark, melódico e belo, com variações melódicas que
sugerissem ao espectador o clima bucólico da cidadezinha de Twin Peaks e
o suspense da trama. O resultado é o inesquecível "Twin Peaks Theme", um
dos mais belos temas de abertura já compostos para a TV. A música nos
transmite a beleza e a tranqüilidade do lugar, porém possui um tom
melancólico que nos sugere que este não é o paraíso que aparenta ser:
seus habitantes possuem muitos e sombrios segredos. Outra peça de
resistência da trilha sonora é "Laura Palmer's Theme", dedicada à jovem
cuja morte dá início à trama da série. A composição inicia sombria e
grave, com uma abertura pesada à base de sintetizadores que é recorrente
em outras faixas do CD, mas progressivamente, atinge um momento de
beleza arrebatadora quando o piano interpreta uma melodia suave.
Posteriormente a música volta aos tons sombrios, enfatizando a vida
dupla que a personagem mantinha.
Outra personagem, a maluquete Audrey Horne, tem em "Audrey's Dance" um
tema mais do que apropriado, ouvido pela primeira vez na série quando
ela, para atrair a atenção de um grupo de empresários suecos, ensaia uma
lânguida dança, como se estivesse em transe. A bateria sutil de Grady
Tate, os sopros de Al Regni e Eddie Daniels, complementados pelos
sintetizadores de Badalamenti e Kinny Landrum marcam o clima cool
jazz de "Freshly Squezed", que sofrem acréscimo de guitarras, sempre
em vibrato, em "The Bookhouse Boys". "Night Life in Twin Peaks" e
"Love Theme from Twin Peaks" funcionam mais como música incidental
tradicional em vários episódios, esta última sendo uma variação do tema
de Laura Palmer. Outro tema instrumental de destaque é "Dance of The
Dream Man". Apresentando o sax tenor de Al Regni, o tema é ouvido
quando, no antológico primeiro sonho do Agente do FBI Dale Cooper, o
anão que fala de trás para a frente começa uma dança bizarra.
A cantora Julee Cruise, que já trabalhara com Badalamenti em outros
trabalhos, pode ser ouvida na bela "The Nightingale", na qual se
destacam os acordes em vibrato das guitarras de Vinnie Bell e
Eddie Dixon. Ela faz o vocais também na lúgubre "Into The Night" e
"Falling", esta a versão vocal do tema principal. Enfim, mesclando
elementos de jazz e rock, a trilha sonora de Twin Peaks
possui uma beleza atemporal que cativa o ouvinte, e faz dela um dos
melhores trabalhos já compostos para a televisão, em todos os tempos.
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