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Reconheçam comigo,
histórias como a luta milenar entre vampiros sedentos de sangue e lobisomens
furiosos que renegam sua condição animal, somente interessam a mercadores
com um olho no seu cofre, e outro no cada vez mais exasperante doutrinamento
de adolescentes ansiosos por violência gratuita e adoradores de
videogames aniquiladores de
neurônios. Com a história apresentando elementos históricos e sociológicos
que pretendem a quase impossível cumplicidade do espectador médio, de uma
cenografia pretensiosamente barroca e subterrânea, das sombras e da noite
como habitat natural destes monstros que vivem à margem da sociedade, e de um
emprego generoso de efeitos visuais, sonoros e tecnológicos, temos como
resultado um sucesso de bilheterias garantido, que ainda que não cumpra
exageradamente as primeiras expectativas, servirá como demanda inicial das
previsíveis ganâncias do mercado real ao qual é destinado o produto: o da
locação e venda de DVDs.
Este calculado produto de marketing
há alguns anos chamou-se Anjos da Noite
- Underworld, um filme com estética de
comic underground de culto, que
apesar de ser apenas medíocre alcançou o seu objetivo graças a uma
intensa campanha de “blockbuster
do momento”. Muito barulho por nada. Um produto que
evidentemente requeria um score
(sic) destruidor de tímpanos que servisse para algo mais do que acompanhar
ou destacar a cena, ou seja, para criar um envoltório
gore destinado à venda de discos
com tendência techno e
eletrônica. Como compreenderão, a história é o de menos e não vamos entrar
nas digressões propostas nesta seqüência, agora chamada
Anjos da Noite
- Evolução. Ainda que
algumas coisas, fora a mesmice, de fato tenham evoluído em relação ao
primeiro título: um orçamento maior, mais cenas de ação e um
score distante da pirotecnia
vazia daquele criado pelo esquecível Paul Haslinger.
Como é este segundo que nos compete comentar (desculpem todo o discurso
anterior), comecemos dizendo que o encargo de musicar esta continuação
recaiu nas mãos do hábil
Marco Beltrami.
Apesar de que Marco já tenha sido alvo da incompreensão e
da ira dos aficionados, em certas ocasiões encontrando seu nome
na mesma pira funerária de Graeme Revell, para este humilde
crítico ele se encontra entre os compositores mais interessantes
do panorama atual. Isto porque sempre vi em Beltrami vigor, que
não é pouco; elegância, que é muito;
inquietude e conhecimento do ofício, que falta a muitos; e como
não, personalidade - isso hoje é tão
difícil de encontrar que podemos distinguir a mesma mão
por trás da ardente agressividade de
Mimic ou de
Deep Water, do minimalismo
calculado de Minus Man ou
The Three Burials of Melquíades Estrada,
ou da emotiva grandeza de Hellboy.
Em resumo, Beltrami é um compositor de indubitável talento mas que lamentavelmente
não será devidamente reconhecido pela indústria (apesar de desde já mostrar
ser muito superior a colegas frustrantes carentes de personalidade
chamados Tyler e Ross, ou daqueles com um certo estilo mas sem muito talento, como Ottman
ou Shearmur) enquanto não se deixar de se dedicar quase que exclusivamente
aos gêneros fantástico ou terror.
O certo é que em Underworld: Evolution
Beltrami cumpre com sobras o seu dever. Sem excessiva originalidade, realiza
um trabalho funcional de primeira, oscilando entre peças de suspense
entregues às cordas e magníficos exercícios de ação, onde introduz seu
manejo pessoal dos metais e percussão. Um trabalho descritivo que se apóia
sobre um tema central de tom primitivo e bélico, com
crescendos percussivos que
emergem em “The Crawl”, se mostram vigorosos durante “Corvin’s Cruisin’
Crypt” e obtém uma deslumbrante interpretação no enérgico e dinâmico
“William’s Castle”. Sem dúvida o melhor Beltrami, o mais imaginativo, é
encontrado em todas as faixas de ação onde estimula o desenvolvimento
dramático da cena, outorgando maior força épica à história (e quem não viu o
filme, acredite: isto não seria possível para muitos). E exemplos como “Ol’
Timey Music”, “Mikey Doesn’t Like It”, “Trunkin’”, “Kill Will 2” ou a
goldsmithiana “Beware of Dog”,
demonstram um músico mais preocupado em criar ambientação global do que um
inquieto por antecipar cenas. Sutilidade, mas não isenta de força.
Terrenos tão previsíveis como os que alimentam o filme não permitem ir muito
além do que foi Beltrami, que além do mais se dá ao luxo de incluir um
motivo épico e nobre, que aparece em “Patricide”, para desenvolver-se
definitivamente na evocativa “The Future”, poderoso encerramento da
partitura. Levando em conta o trabalho precedente de Haslinger, não cabe
dúvida de que a trilha original de Beltrami merece o melhor dos
reconhecimentos, especialmente pela habilidade deste jovem compositor para
narrar musicalmente histórias que já estamos cansados de ver. |
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