UNDERWORLD: EVOLUTION
Música composta por Marco Beltrami

Selo: Lakeshore
Catálogo:
33850
Ano: 2006

Faixas:

1. The Crawl
2. Ol’ Timey Music
3. William Captured
4. Previously...
5. Safehouse 2 Crypt
6. Stay
7. Corvin’s Cruisin’ Crypt
8. Morgue Medallion
9. Mike to Tavern
10. Mikey Doesn’t Like It
11. Cue de Cilantro
12. Trunkin’
13. Marcus Trumpped
14. Marcus Hits Snooze
15. Beware of Dog
16. Shot Glass
17. Family Values
18. Marcus Taps Tannis
19. Patricide
20. Alexander Can Help
21. He Is My Sonshine
22. Heli Ride
23. William’s Castle
24. Selene, William and Marcus
25. Trying to Kill Will
26. Kill Will 2
27. Marcus Trumpped Again
28. The Future
29. Something I Can Never Have - Flyleaf
30. EracTou - Cevin Key/Ken Hiwatt Marshall

Duração: 75:57
Cotação:


Comentário de
Miguel Ángel Ordóñez

 
Reconheçam comigo, histórias como a luta milenar entre vampiros sedentos de sangue e lobisomens furiosos que renegam sua condição animal, somente interessam a mercadores com um olho no seu cofre, e outro no cada vez mais exasperante doutrinamento de adolescentes ansiosos por violência gratuita e adoradores de videogames aniquiladores de neurônios. Com a história apresentando elementos históricos e sociológicos que pretendem a quase impossível cumplicidade do espectador médio, de uma cenografia pretensiosamente barroca e subterrânea, das sombras e da noite como habitat natural destes monstros que vivem à margem da sociedade, e de um emprego generoso de efeitos visuais, sonoros e tecnológicos, temos como resultado um sucesso de bilheterias garantido, que ainda que não cumpra exageradamente as primeiras expectativas, servirá como demanda inicial das previsíveis ganâncias do mercado real ao qual é destinado o produto: o da locação e venda de DVDs.

Este calculado produto de marketing há alguns anos chamou-se  Anjos da Noite - Underworld, um filme com estética de comic underground de culto, que apesar de ser apenas medíocre alcançou o seu objetivo graças a uma intensa campanha de “blockbuster do momento”. Muito barulho por nada. Um produto que evidentemente requeria um score (sic) destruidor de tímpanos que servisse para algo mais do que acompanhar ou destacar a cena, ou seja, para criar um envoltório gore destinado à venda de discos com tendência techno e eletrônica. Como compreenderão, a história é o de menos e não vamos entrar nas digressões propostas nesta seqüência, agora chamada Anjos da Noite - Evolução. Ainda que algumas coisas, fora a mesmice, de fato tenham evoluído em relação ao primeiro título: um orçamento maior, mais cenas de ação e um score distante da pirotecnia vazia daquele criado pelo esquecível Paul Haslinger.

Como é este segundo que nos compete comentar (desculpem todo o discurso anterior), comecemos dizendo que o encargo de musicar esta continuação recaiu nas mãos do hábil
Marco Beltrami. Apesar de que Marco já tenha sido alvo da incompreensão e da ira dos aficionados, em certas ocasiões encontrando seu nome na mesma pira funerária de Graeme Revell, para este humilde crítico ele se encontra entre os compositores mais interessantes do panorama atual. Isto porque sempre vi em Beltrami vigor, que não é pouco; elegância, que é muito; inquietude e conhecimento do ofício, que falta a muitos; e como não, personalidade - isso hoje é tão difícil de encontrar que podemos distinguir a mesma mão por trás da ardente agressividade de Mimic ou de Deep Water, do minimalismo calculado de Minus Man ou The Three Burials of Melquíades Estrada, ou da emotiva grandeza de Hellboy. Em resumo, Beltrami é um compositor de indubitável talento mas que lamentavelmente não será devidamente reconhecido pela indústria (apesar de desde já mostrar ser muito superior a colegas frustrantes carentes de personalidade chamados Tyler e Ross, ou daqueles com um certo estilo mas sem muito talento, como Ottman ou Shearmur) enquanto não se deixar de se dedicar quase que exclusivamente aos gêneros fantástico ou terror.

O certo é que em Underworld: Evolution Beltrami cumpre com sobras o seu dever. Sem excessiva originalidade, realiza um trabalho funcional de primeira, oscilando entre peças de suspense entregues às cordas e magníficos exercícios de ação, onde introduz seu manejo pessoal dos metais e percussão. Um trabalho descritivo que se apóia sobre um tema central de tom primitivo e bélico, com crescendos percussivos que emergem em “The Crawl”, se mostram vigorosos durante “Corvin’s Cruisin’ Crypt” e obtém uma deslumbrante interpretação no enérgico e dinâmico “William’s Castle”. Sem dúvida o melhor Beltrami, o mais imaginativo, é encontrado em todas as faixas de ação onde estimula o desenvolvimento dramático da cena, outorgando maior força épica à história (e quem não viu o filme, acredite: isto não seria possível para muitos). E exemplos como “Ol’ Timey Music”, “Mikey Doesn’t Like It”, “Trunkin’”, “Kill Will 2” ou a goldsmithiana “Beware of Dog”, demonstram um músico mais preocupado em criar ambientação global do que um inquieto por antecipar cenas. Sutilidade, mas não isenta de força.

Terrenos tão previsíveis como os que alimentam o filme não permitem ir muito além do que foi Beltrami, que além do mais se dá ao luxo de incluir um motivo épico e nobre, que aparece em “Patricide”, para desenvolver-se definitivamente na evocativa “The Future”, poderoso encerramento da partitura. Levando em conta o trabalho precedente de Haslinger, não cabe dúvida de que a trilha original de Beltrami merece o melhor dos reconhecimentos, especialmente pela habilidade deste jovem compositor para narrar musicalmente histórias que já estamos cansados de ver.

CDs COMENTADOS