THE UNTOUCHABLES
Música composta e regida por Ennio Morricone


Selo:
A&M Records
Catálogo:
CD3909/DX1678
Ano: 1987
13 Faixas

Duração: 39:20
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 
Com Os Intocáveis (1987), o diretor Brian De Palma assumiu uma tarefa de risco – adaptar para o cinema uma das mais cultuadas séries de TV de todos os tempos (o que repetiria anos mais tarde com Missão Impossível). A seu favor, De Palma teve um excelente roteiro, de autoria de David Mamet, um elenco masculino excepcional integrado por, entre outros, Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia e Robert De Niro, e uma inspirada partitura musical do maestro italiano Ennio Morricone. “Il Maestro” à época já era um dos mais respeitados compositores do cinema, tendo feito história ao revolucionar a linguagem musical cinematográfica nos filmes de seu conterrâneo Sergio Leone, em vários westerns, policiais e diversas produções européias e dos EUA. Apesar de prolífico, Morricone ainda se mantém em atividade como um criativo profissional do ramo, onde cada uma de suas partituras apresenta tratamentos incomuns de composição, harmonia e orquestração. Ou seja, deste compositor, espere sempre o inesperado…

Neste sentido, De Palma arriscou ao contratá-lo para compor a trilha sonora de Os Intocáveis, já que teria sido muito mais seguro providenciar um score convencional, de um compositor mais conhecido das platéias norte-americanas. Mas o fato é que a “ousadia” do diretor mostrou-se acertada, até porque quem conhece o trabalho do maestro sempre apostará na qualidade superior de sua música. Dentre os trabalhos realizados por Morricone para Hollywood, The Untouchables possui uma posição de destaque; cada composição funciona excepcionalmente bem no filme, capturando as emoções e o clima presentes em cada cena, e em disco, dissociadas das imagens, as faixas correspondentes possuem um elevado valor intrínseco. Na essência, sua partitura é tradicional, “motívica”, ou seja, gravita em torno de alguns motivos principais dedicados aos “mocinhos” do filme.

O principal deles é ouvido com pleno desenvolvimento na faixa que inicia o CD, “The Untouchables (End Title)”. No filme a composição é a última a ser ouvida, mas a inversão da ordem no CD é mais do que justificável. É uma feliz transposição musical da força e da nobreza do grupo liderado pelo policial Elliot Ness (Costner), denominado “Os Intocáveis”, encarregado da imensa tarefa de combater a corrupção e o crime organizado em plena vigência da Lei Seca, nos Estados Unidos dos anos 20. Orquestral, melódico e por vezes glorioso, também ouvimos o tema em “Victorious”, que representa a primeira ação bem sucedida dos protagonistas. Outro tema relevante é dedicado ao grupo, porém com ênfase na emoção e na amizade que se desenvolve entre Os Intocáveis. Por vezes melancólico e triste (“Death Theme”), o tema tem a sua melhor representação em “Four Friends”. Juntamente com as composições dedicadas ao policial e à sua família (“Ness And His Family”), ele é responsável pelos momentos mais líricos e emotivos do score.

Por fim, temos um tema que representa os perigos e os desafios que o grupo deverá enfrentar, bem como a determinação necessária para tanto. Ele é ouvido inicialmente em “The Strength Of The Righteous (Main Title)”, e é o tipo de música que não esperaríamos ouvir em um filme como esse. Não há uma melodia propriamente dita, mas essencialmente ritmo: sobre uma cadência de bateria e piano, cordas e sopros fazem rápidas intervenções, e de tempos em tempos ouvimos ao fundo uma gaita de boca quase idêntica à utilizada por Morricone em Once Upon A Time in the West (as notas são praticamente as mesmas). Pode-se entender que a intenção do compositor foi transmitir a idéia de que os policiais seriam cowboys modernos, desafiando inimigos muito mais poderosos do que eles, etc., mas particularmente acredito que foi simplesmente uma bem colocada e inteligente auto-referência do maestro. Este tema, ameaçador e ao mesmo tempo estranhamente divertido (graças a trechos da performance dos sopros) também se destaca em “On The Rooftops”, composta para uma cena de ação que possui um desfecho de impacto.

Mas os vilões não foram esquecidos, já que o famoso gângster com a cicatriz no rosto (De Niro) também ganhou a sua música, representada no CD por “Al Capone”. Introduzida por pianola e depois adornada por trompetes de jazz, a faixa possui influência da música do período, devidamente reciclada por Morricone com uma bateria eletrônica. Além destes temas e motivos, o maestro também demonstra ser um magistral construtor de climas, em faixas de suspense como “Waiting At The Border” (na qual utiliza sintetizadores nos moldes de The Thing, também de sua autoria), “The Man With The Matches” (violinos e, novamente, a gaita de boca) e “Machine Gun Lullaby”, esta uma longa construção de sete minutos baseada em uma canção de ninar, que resultará em um carrinho de bebê descendo sem controle uma escadaria, em meio ao fogo cruzado dos Intocáveis e dos gângsteres. A cena, assim como a música, é antológica e genial.

Enfim, se há algo a criticar neste CD de The Untouchables é a sua curta duração – seus meros 39 minutos nos deixam querendo muito mais da maestria de Morricone. Ainda assim, é uma boa representação desta trilha sonora de exceção, que valeu ao seu autor um Globo de Ouro e uma de suas cinco indicações ao Oscar.

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