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Todos sabem que o compositor
Alan Silvestri forjou
sua carreira em partituras de ação, criadas para filmes como a trilogia
De Volta para o Futuro, Predador, O Segredo do Abismo
e O Juiz. Mesmo que, nesse filmes, o compositor tenha
demonstrado talento para ir além dos padrões estabelecidos para o
gênero, também criando melodias belas e inspiradas, foram seus temas
fortes e acompanhamento percussivo para seqüências movimentadas,
lapidados em um estilo inconfundível, que atraíram a grande maioria de
seus fãs. Para o filme anterior do diretor Stephen Sommers,
O Retorno da
Múmia, ele criou um dos melhores scores de toda a sua
carreira para um filme de aventura, mas digamos que, no gênero, ele foi
um mero aperitivo para este
Van Helsing - O
Caçador de Monstros.
Desde o lançamento do filme e do CD com sua trilha sonora, muito se tem
discutido sobre o valor desta partitura, como ouvida no filme ou
separadamente, em disco. Se por um lado fica claro que, no filme, ela em
muito colabora para que a produção adquira o tom exagerado e alucinante
que a caracteriza, por outro, em disco, ela se consagra como uma das
trilhas de ação mais eletrizantes e opulentas que surgiram em anos. O
filme retrata os combates do reinventado caçador de vampiros Van Helsing
(Hugh Jackman em caracterização muito diferente do velho médico
imaginado por Bram Stoker em sua obra máxima) contra os clássicos
monstros da Universal - o vampiro Drácula, a Criatura de Frankenstein e
O Lobisomem - todos igualmente atualizados com tecnologia de ponta de
Hollywood, o que não significa exatamente melhorados.
O problema começa com o fato de que o filme carece de qualquer pingo de
sutileza, clima ou suspense ao retratar a ameaça destas criaturas e o
esforço do herói em combatê-las. A ênfase é na aventura praticamente
non-stop, uma série quase interminável de diálogos mais gritados que
falados e cenas de ação totalmente criadas em computador, com seu ritmo
frenético elevado às alturas pela massiva partitura musical. Por essa
razão muitos advogaram que o filme necessitaria música que fosse na
direção contrária, uma "anti-música" que atenuasse os rompantes do
diretor e dos técnicos da ILM e da Weta. Na minha opinião o score
de Van Helsing, por seus próprios méritos, é excelente, e não
acredito que tenha havido qualquer equívoco no trabalho do compositor,
tendo Silvestri entregue exatamente a música que Sommers queria. O
incômodo é que a visão do diretor sobre o filme era a de,
deliberadamente, apostar no exagero, no excesso, e Silvestri apenas fez
a sua parte - de forma exemplar, diga-se de passagem.
Suas orquestrações dramáticas e arranjos para o coral podem não ser
complexas ou originais, mas dentro da proposta e do modo como o projeto
foi encarado, são admiráveis. No aspecto temático, temos dois ou três
temas ou motivos bem distintos para caracterizar Van Helsing e seus
oponentes. O herói recebe alguns acordes sombrios, dado o mistério que
cerca seu passado, mas é principalmente representado nas cenas de ação
por uma fanfarra heróica, similar à do protagonista de The Mummy
Returns. Contudo, é da galeria de vilões que vem o motivo recorrente
mais forte da trilha, e ele é introduzido já na curta faixa de abertura,
"Transylvania", onde toda a ação transcorre em preto-e-branco - uma
homenagem de Sommers aos velhos filmes de horror da Universal. Nela
temos a primeira interpretação do tema de Drácula e suas Noivas, onde
sobre um ritmo cadenciado e percussivo o coral entoa cânticos em latim.
É um tema forte, com o qual Silvestri procurou compensar a fraca
personificação do Conde.
Esta é somente a introdução para uma série
de composições de ação, raramente
interrompidas por algum momento de quietude ou suspense. "Burn it
Down!" é igualmente ouvida na seqüência em
preto-e-branco, no momento em que o Monstro de Frankenstein é
encurralado em um moinho prestes a ser incendiado pela turba. A
música inicia sutil e pausadamente, para logo em seguida a
orquestra retornar com força total, em mais uma dramática
versão do tema dos vampiros. As faixas
"Journey To Transylvania" e
"Transylvanian Horses" apresentam outro tema que é um dos pontos altos
do score, um motivo de "viagem" ouvido nas andanças de Van
Helsing por paisagens belas e, às vezes, amedrontadoras. No filme ele é
ouvido pela primeira vez quando ele chega a Paris, no rastro de Mr.
Hyde. É uma interessante combinação de coral, orquestra, violão e
acompanhamento eletrônico. A última composição torna-se especialmente
atrativa, onde a este motivo, agrega-se a fanfarra heróica de Van
Helsing e o tema dos vampiros, que acompanha o ataque das Noivas à
carruagem conduzida pelo herói, em uma das mais eficientes cenas de ação
do filme.
Em "Attacking Brides" Silvestri lança mão da orquestra e do coral em
intervenções intensas, para acompanhar o primeiro encontro de Van
Helsing com as Noivas. Aqui há um interessante uso das cordas,
acompanhadas da percussão e dos metais, em um crescendo de suspense até
chegarmos a um memorável - e maciço - epílogo. "Dracula's Nursery", em
seu primeiro terço de duração, contém alguns dos raros momentos de quase
silêncio e sutileza do score, ao acompanhar Van Helsing na sua
descoberta do "berçário" de Drácula. Outro dos meus momentos preferidos
da trilha de Van Helsing surge em "All Hallow's Eve Ball",
na forma de uma valsa gótica com vocal feminino e violinos
fantasmagóricos, que acompanha o baile de máscaras de Drácula. Ao final,
esta notável composição muda radicalmente com a intervenção do herói,
com a percussão e o coral conduzindo até os metais que interpretarão
mais uma vez a fanfarra de Van Helsing. "Final Battle" é outra
estrondosa música de ação que acompanha o confronto decisivo de Helsing
e Drácula - sem surpresa, os temas do herói e do vilão se cruzam na
conclusão, em um duelo próprio.
A última faixa, "Reunited", é a única essencialmente emotiva e lírica
presente no CD, e também a solitária representação que nele temos da
música relativa à personagem Anna e à ligação da família Valerious com o
Vaticano. Muitos notaram neste motivo, que ao final do filme assume tons
definitivamente religiosos, uma acentuada semelhança com o tema do Graal
de Indiana Jones e a Última Cruzada, criado por
John Williams. De fato
há uma grande semelhança entre as duas composições, especialmente na
interpretação das cordas, mas estou longe de achar que Silvestri tenha
plagiado Williams. Creio que no máximo ele tenha "tirado o chapéu",
homenageado seu colega. De modo análogo, dizem que a introdução de
O Vingador do
Futuro, de Jerry
Goldsmith, idêntica à de
Conan, O Bárbaro,
foi uma homenagem ao compositor
Basil Poledouris (e
ao Schwarzenegger, astro dos 2 filmes). Em Van Helsing, reparem
na utilização da música para uma temática religiosa semelhante à de A
Última Cruzada - Jesus -> Cálice Sagrado -> Vaticano. Ou
seja, aqui pode ter acontecido algo parecido, uma referência direta à
obra de um colega, de objeto similar. Acima de tudo, considero este
trabalho um seguimento natural e, até mesmo, superior, ao realizado por
Silvestri em O Retorno da Múmia. Com a vantagem que, desta vez, o
álbum da trilha sonora contém todo o material temático do filme e a
representação musical de seus principais momentos (no CD de The
Mummy Returns todo o segmento final do filme, com a aparição do
Escorpião Rei e o confronto dentro da pirâmide, foi omitido).
Isto que o CD de Van Helsing, em uma época em que são cada vez
mais comuns discos com quase 80 minutos de duração, não chega aos 43
minutos, já que também inclui uma seção multimídia para CD-Rom
(basicamente material publicitário do filme, do game e do gibi).
Uma futura versão expandida, incluindo momentos mais reflexivos para
contrabalançar a adrenalina presente na maior parte das faixas, pode ser
desejável. Mesmo assim, esta edição da Decca revela uma das mais
agradáveis e dinâmicas trilhas originais que já ouvi. E ao final, tenho
até que agradecer a Stephen Sommers, já que a extravagância chamada
Van Helsing rendeu um score que, além de ser um dos melhores
de 2004, poderá mesmo consagrar-se, no futuro, como um clássico do
gênero. |
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