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Ambientado na França em 1671,
Vatel conta a
história de um chefe de cozinha que trabalhava para o
príncipe, em uma província no oeste da França. Por motivo de
uma visita do Rei Luís XIV, François Vatel tem a incumbência
de preparar o banquete, além de todo o entretenimento para o
Rei. Por se passar no século dezessete, o barroco é o estilo
musical da trilha sonora. E não teria nome melhor do que
Ennio
Morricone para esse trabalho. Como já havia feito em
A Missão, do mesmo
diretor, Morricone nos transporta para a época de maneira
brilhante, mostrando todo seu eruditismo, seu conhecimento
sobre a História da Música e sua capacidade em passear por
todos os estilos de composição. Utilizou-se da orquestra AMIT
(Accademmia Musicale
Italiana), do
Cammerton Vocal Ensemble Musicanova Choir e de
grandes solistas.
A primeira faixa do CD não é a primeira que aparece no filme.
O que se ouve no início são as primeiras notas de “Ouverture
Pour Vatel”. “Theme de Vatel” aparece durante o filme, mas
nunca por inteiro. Talvez Roland Joffé devesse ter deixado
mais espaço para essa maravilhosa música. Não só para essa mas
para todas, pois a edição do filme faz com que escutemos
vários trechos de música. Nunca completas. A segunda faixa,
“L’Amour Suspendu”, é a mais melódica e talvez a mais
arrebatadora para os fãs do maestro, já que ali aparece todo o
estilo morriconiano. Dramático e melódico. Sublime! Podemos
considerar como o tema de amor, mas aparece com todo seu
esplendor no momento em que Vatel se suicida. O solo de flauta
de Paolo Carpici, que inicia a música, é o mesmo que encerra o
filme nos créditos finais.
Ennio Morricone foi detalhista em toda a trilha. Na música
“kaleidoscope” ele mostra todo o seu domínio sobre a orquestra
em uma composição muito alegre, condizente com o estilo da
época. Alegria que se repete em “Deuxieme Symphonie”. “Secundo
Pezzo” é um belíssimo tema para voz e harpsichord, típico do
século XVII. Inexplicavelmente, no momento adequado, onde uma
cantora se apresenta acompanhada apenas por um harpsichord o
que se ouve no filme é um outro tema e não o que está no CD.
Em um evento musical para o rei, é apresentado “L’Air d’Absalom”,
o segundo ato da ópera
Absalom, composta por Giovanni Paolo Colonna.
Nessa faixa temos a oportunidade de ouvirmos a impecável
interpretação da mezzo
soprano catalã Gemma Coma-Alabert.
Outro compositor escolhido para completar a trilha foi
Jean-Philippe Rameau, um dos mais importantes do período
barroco. Talvez tenha sido esse o motivo pelo qual o diretor
utilizou-se de suas músicas, pois Rameau nasceu em 1683 e,
lembremo-nos, o filme se passa em 1671. Se o diretor quisesse
ser mais fiel à época, uma opção poderia ter sido o compositor
italiano Lully, que além de ser contemporâneo do rei Luís XIV,
tornou-se monarca absoluto em sua corte e sua importância
histórica se deve justamente ao fato dele ser o criador da
ópera francesa. Mas “Hippolyte and Aricie”,
interpretada pela americana
Arielle Dombasle, “La Bourrèe” e “Les Indes
Galantes”, todas de Rameau, fazem parte do CD e são
composições maravilhosas.
Quando o rei Luís XIV está diante de um show musical e
pirotécnico, a obra escolhida foi “The Royal Fireworks”.
Curiosamente esta foi escrita em 1749, ou seja, setenta e oito
anos depois de 1671. Poderia ser considerada mais uma gafe,
mas na tradução para o português o título passa a ser
Concerto para Fogos de
Artifício. Então podemos considerá-la como uma
homenagem do diretor a outro importantíssimo compositor do
Barroco, o alemão George Frederic Handel.
Voltando à trilha sonora original,
Vatel é mais uma
obra de arte de Ennio Morricone, que só por sua assinatura já
valeria a pena ouvi-la. O perfeccionismo do compositor e seu
estudo abrangente sobre a época, transformam essa trilha em
uma aula sobre música barroca e História da Música. Sua
instrumentação, orquestração e interpretação são perfeitas.
Vale lembrar que, além de suas composições originais,
Morricone assina também a orquestração de “Hippolyte and
Aricie” e “La Bourrée”, regidas por Patrick Bismuth, que
também regeu a orquestra La Tempesta nas outras músicas que
não são de Morricone. |