V FOR VENDETTA
Música composta por Dario Marianelli

Selo: Astralwerks
Catálogo: ASW 58414

Ano: 2006

Faixas:

1. Remember Remember
2. "Cry Me a River" (Julie London)
3. "Governments Should Be Afraid of Their People"
4. Evey's Story
5. Lust at the Abbey
6. The Red Diary
7. Valerie
8. Evey Reborn
9. "I Found a Reason" (Cat Power)
10. England Prevails
11. The Dominoes Fall
12. "Bird Gerhl" (Antony & The Johnson)
13. Knives and Bullets (and Cannons Too)

Duração: 63:01
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 

Até recentemente a carreira cinematográfica do compositor italiano Dario Marianelli estava restrita a produções de seu país, ou então pouco conhecidas. Seu reconhecimento amplo de público chegou em 2005 com duas obras de alta qualidade – The Brothers Grimm e Pride and Prejudice, esta última sendo inclusive indicada ao Oscar® de Melhor Trilha Sonora Original. Com trabalhos caracterizados por belas harmonias, estruturas melódicas vibrantes e elaboradas orquestrações, Marianelli conquistou com justiça o reconhecimento de público e crítica, o que o tornaria a escolha certa para compor o score de V for Vendetta, versão cinematográfica da graphic novel de Alan Moore publicada nos anos 1980, produzida pelos irmãos Wachowski (Matrix).

V (Hugo Weaving) é um sujeito misterioso, com o rosto sempre coberto por uma sorridente máscara de Guy Fawkes (que, em 05 de novembro de 1605, quis explodir o Parlamento inglês), que combate num futuro próximo um governo ditatorial na Inglaterra. V salva a jovem Evey (Nathalie Portman) de agentes do governo, e a partir daí seus destinos ficam entrelaçados. Caçado pela polícia, V desvenda segredos do governo e prepara a explosão do Parlamento, anunciada para o dia 05 de novembro. Enquanto isso, os ideais de V, lentamente, começam a se propagar entre a população. Como se nota por esta visão superficial da trama, o filme oferecia para o compositor variadas possibilidades musicais, que iam desde a figura romântica do personagem (“um humilde veterano do vaudeville”, como se apresenta), seu envolvimento platônico mas profundo com Evey, as sombrias tramas da ditadura fascista, até os elementos mais usuais do suspense e da aventura.

Contudo, Marianelli optou por caminhos mais sutis. O roteiro destacava uma composição que não é de sua autoria, a “1812 Overture”, conhecida obra de Tchaikovsky inspirada pela fracassada invasão da Rússia pela França, durante as Guerras Napoleônicas de 1812. Ela é ouvida isolada no início do filme, durante o primeiro atentado de V. E nos dois minutos finais da faixa de encerramento “Knives and Bullets (and Cannons Too)”, enquanto na tela fogos explodem no céu, contemplados por milhares de pessoas usando máscaras de V, Marianelli integra de forma impressionante a grande obra de Tchaikovsky à sua partitura. Deste modo ele garante que, no lugar de uma composição original sua, esta será a peça musical que ficará nas mentes dos espectadores comuns, já que ouvida no clímax, o momento mais forte e simbólico da produção.

Provavelmente o leitor já está a desconfiar que, também neste caso, temos o problema recorrente da maioria das trilhas originais de hoje, que é a falta de temas principais marcantes. De fato, aqui Marianelli compõe com força, mas seu impacto emocional no ouvinte é escasso. O compositor utiliza recorrentemente uma progressão de quatro notas - com maior ênfase em “Evey Reborn” - que simboliza o crescimento da revolução de V, mas isto, por si, está longe de poder ser considerado um bom tema, e é incapaz de provocar no ouvinte uma maior conexão com o score como um todo. Dado o destaque já citado à criação de Tchaikovsky, neste caso pode ter havido um movimento deliberado (até inesperado), talvez inerente à mente criativa do compositor que, corajosa e não ambiciosa, pensou mais no conjunto do que em satisfazer seu próprio ego.

Marianelli criou um score de pretensões mais modestas que as de, por exemplo, The Brothers Grimm. No lugar da variedade e riqueza daquele, temos aqui a predominância de harmonias para cordas, apoiadas por vigorosas intervenções de metais e percussão militar. Também de modo diverso daquele trabalho, este score sombrio apresenta instrumentação eletrônica, bem equilibrada com a orquestra, de modo a lembrar ao espectador que o filme se passa num futuro (alternativo?) próximo. Mas a partitura de V for Vendetta também é mais modesta em paixões e emoções, algo que enriquecia a partitura de Pride and Prejudice. E talvez esteja nesta área a limitação maior deste trabalho: a ausência do romantismo que Marianelli demonstrou anteriormente, e que seria perfeito para caracterizar Evey e seu relacionamento não consumado com V, por exemplo. Ao contrário, aqui o compositor opta por tonalidades mais subliminares e contidas, sendo a maior exceção a tocante “Valerie”, onde Marianelli emprega de forma suave e lírica o piano solo, acompanhado de cordas e coral.

O problema de Marianelli, se é que pode ser chamado assim, decorre da própria estrutura do longa, que relega o alto drama, a ação e os efeitos visuais a um plano muitíssimo secundário e centra-se mais na despótica ameaça, na discussão das idéias motivadoras de V, na conscientização de Evey e, principalmente, na lenta propagação do seu movimento entre a população. Isto por si já exigiria uma partitura mais sutil, mas que, na minha opinião, poderia ser mais inspirada. Relativamente ao coral, este é composto de vozes adultas em apropriados crescendos. Não havendo uma oportunidade concreta de que as vozes soem com a majestade de outros trabalhos, o coral serve, basicamente, para aumentar o nível de dramaticidade e o senso de importância de determinadas faixas, como a sombria “Governments Should Be Afraid of Their People”, ou a eclesiástica “Lust at the Abbey”.

Dito tudo isso, contudo, quero deixar bem claro que, apesar de não ser tão satisfatória quanto seus trabalhos de 2005, V for Vendetta está longe de ser uma trilha sonora ruim. Ao contrário da maior parte de partituras que são atualmente produzidas, é uma obra sólida; mas que em disco, separada das imagens, mostra ser uma audição de difícil assimilação, provavelmente graças à falta de maior variação no material. Ainda assim, deve ser reconhecida a capacidade que Marianelli teve ao transpor para sua música, com razoável dose de sucesso, os tons sombrios e o clima político, opressivo do filme, e igualmente a de lançar mão (de forma inteligente) da obra de Tchaikovsky.

Também fazem parte do álbum três canções - “Cry Me a River”, “I Found a Reason” e “Bird Gerhl”, que diferentemente do que normalmente ocorre, complementam de forma adequada o score e a própria história do filme.

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