WANTED
Música composta por Danny Elfman

Selo: Lakeshore Records
Catálogo: 34021
Lançamento: 2008
Faixas

1. The Little Things

2. Success Montage

3. Fraternity Suite

4. Wesley's Office Life

5. The Scheme

6. Fox in Control

7. Welcome to the Fraternity

8. Fox's Story

9. Exterminator Beat

10. Rats

11. The Train

12. Revenge

13. Fox's Decision

14. Breaking the Code

15. Fate

Duração: 48:13
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Quando vejo nomes de compositores extraordinários como John Williams, James Horner e Alan Silvestri associados a qualquer projeto, já sei o que esperar. O mesmo se aplica a Danny Elfman - sempre espero algo interessante, só não sei exatamente o que. Uma sonoridade comercial cheia de batidas eletrônicas e cordas pesadas? Uma overture heróica e cheia de metais? A verdade é que ele anda imprevisível.

Elfman, ao longo dos anos de sua carreira como compositor de trilhas sonoras, se consagrou como “o cara dos super-heróis”. Não apenas heróis bonzinhos, até o anti-herói Beetlejuice, interpretado por Michael Keaton no filme homônimo, teve direito a uma partitura composta por Elfman, que desde essa época já estava firmando sua parceria com Tim Burton. Sempre com tendências sombrias e góticas em seus motivos e temas, Batman foi a oportunidade perfeita para Elfman mostrar seu estilo orquestral forte, cheio de mistério e muitas nuances; ora movimentado e heróico, ora calmo e sinistro. No ano seguinte Darkman, Dick Tracy e o tema principal da série televisiva The Flash estabeleceram a marca registrada do compositor. Com toda essa demanda no intervalo de apenas dois anos, Elfman não só estabeleceu bem seus próprios clichês musicais, como também acabou soando repetitivo. É quase como se Dick Tracy fosse uma continuação de Batman, e o mesmo para o tema de The Flash. Mesmo assim isso não é negativo, pois o estilo de Elfman é tão cativante que mesmo tendo trilhas repetitivas você aprecia cada uma delas. Foi uma cópia que todos os fãs gostaram. Esssa similaridade quase plagistica, não creio ter sido falta de criatividade, mas sim erro de um compositor iniciante. Ele fez algo que deu certo, e todos gostaram. Então foi repetindo a dose, provavelmente a pedido dos próprios diretores. Mais do mesmo.

Desde sua briga com Sam Raimi, por divergências de idéias, durante a produção de Spider-Man 2 em 2004, o músico não trilhava nenhum filme de super-herói. Esse ano Elfman volta com com dois blockbusters: este Wanted (O Procurado) e Hellboy 2. O pequeno espaço de tempo entre uma trilha e outra é preocupante, pois sob pressão muitas vezes os compositores acabam entregando uma trilha enganadora, cheia de manobras orquestrais para impressionar o publico mais leigo, mas nada de consistência temática.Elfman tem tido alguns altos e baixos já há alguns anos. As trilhas mais fracas são justamente aquelas onde ele se distancia de seu estilo, tendendo para algo dramático ou então essencialmente eletrônico. Planeta dos Macacos, apesar de servir bem ao filme, é uma trilha que não atrai muito. O mesmo se aplica a Wanted. Elfman busca uma sonoridade diferente aqui, que tem até um tom requintado e melodioso. O grande problema é que isso se contrapõe à linguagem do filme, com muita adrenalina e efeitos especiais. Talvez isso decorra do fato de que, de certa forma, houve uma tentativa do diretor em dar um ar requintado para a Fraternidade.

Wanted
tem seus momentos interessantes, embora não se equipare à trilha que Elfman fez para o documentário Standard Operation Procedure, também de 2008 - que aliás é uma obra prima musical, daquelas que o compositor não fazia há tempos.
O filme tem uma linguagem bem contemporânea, cheia de adrenalina, manobras radicais e violência, aos moldes de Triplo X e Velozes e Furiosos. Elfman foi bem ousado usando uma abordagem mais orquestral, e nesse ponto ele já ganha pontos. Compositores têm apelado para uma abordagem menos musical e mais barulhenta e eletrônica em filmes desse tipo, com clichês de ação e nada de tema principal.

Em geral podemos considerar este filme como um pouco paradoxal. Ao mesmo tempo que ele remonta a filmes clássicos de organizações secretas, com todo aquele conservadorismo e preservação das tradições, ele também pende para o lado da modernidade, com armamentos ultra sofisticados, câmeras bullet time (efeito consagrado pela trilogia Matrix) e cenas de pancadaria gratuita. A tradição versus a modernidade. Outra marca do filme são as armas estilizadas com desenhos entalhados no cabo, que segundo os próprios responsáveis pelo design são uma forma de mostrar um certo estilo sem perder a classe.

Elfman compôs uma partitura que tende para o lado mais erudito da trama. Estabelece um tema orquestral, que dá um tom requintado ao filme. Em certos momentos o tema toca ao fundo de cenas totalmente modernas de ação, e a música acaba não combinando com a cena. É como se o tema estivesse em um filme ao qual não pertence. Já em outros momentos o tema fecha perfeitamente, então há um contraste bem grande. Creio que a fonte de inspiração para Elman tenha sido o personagem Sloan, chefe da fraternidade interpretado por Morgan Freeman, que é um homem conservador, tanto na aparência como nos valores.

"The Little Things" abre o disco, com Danny relembrando os velhos tempos de Oingo Bongo - ele assume as guitarras e vocais em uma faixa que lembra um pouco o estilo psicodélico de Hendrix, com um toque de Hard Rock anos 80. Já "
Success Montage" é o tema principal do filme, que é insinuado algumas vezes mas vai aparecer de forma clara só da metade da projeção em diante. A faixa inicia com um ritmo de cordas bem marcado, uma das assinaturas de Elfman na trilha. O cello expõe então a melodia principal. Em seguida, o fagote canta a melodia novamente, clarinete e madeiras ao fundo criando uma textura que é outra assinatura clássica de Elfman. O tema vai se repetindo e se desenvolvendo aos poucos, com variações na orquestração, mas poucas no tema em si. Em 1:41 temas um momento bem barroco, de polifonia nas cordas, e aqui já dá para sentir as tendências eruditas pesando na trilha. Logo em seguida temas algumas batidas eletrônicas, mostrando que o contraste também está presente na trilha em alguns momentos.

"Fraternity Suíte". A fraternidade de assassinos até me lembra um pouco Hitman, com a questão de moldar o mundo matando as pessoas necessárias, e também por toda a ambientação. A sede da fraternidade é um castelo, e há essa conexão muito forte com o passado no filme, o que acaba trazendo esse caráter mais erudito. O tema começa com vozes masculinas expondo uma melodia de canto gregoriano, em seguida metais vão criando uma textura, preparando a entrada das cordas que tocarão um padrão em staccato e assim vão criando o clima denso e dramático da faixa.

A maioria das outras faixas consiste de variações dessas três primeiras - os temas de "Success Montage", "Fraternity Suite" e até mesmo de "The Little Things", em interpretações mais orquestrais. Eu diria que a trilha tem dois pontos altos. "Success Montage", que é a melhor faixa do disco e também a única onde dá para se identificar mais claramente o estilo de Elfman. Eu diria que no resto da trilha ele se afasta um pouco de sua estética composicional, em direção a algo mais comercial. O outro ponto alto da trilha é "The Little Things", que poderia até ter sido mais enfatizada no filme, pois realmente é um rock muito gostoso de ouvir.

Wanted vai agradar alguns, principalmente os que não conhecem ainda muito dos trabalhos mais antigos do Elfman, e vai deixar muio fã um pouco desgostoso. Entretanto, tudo que faltou em Wanted tem de sobra na trilha do novo filme de Guillermo del Toro, Hellboy 2, que
também conta com a partitura de Elfman. Aliás, é até curioso isso, por que esses dois filmes acabaram quase que sendo concorrentes de bilheteria, já que foram lançados praticamente juntos no exterior. Podem esperar uma trilha de peso e extremamente sombria, como nos velhos tempos!

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