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Quando vejo nomes de
compositores extraordinários como
John Williams,
James Horner
e Alan
Silvestri associados a qualquer projeto, já sei o que
esperar. O mesmo se aplica a
Danny Elfman
- sempre espero algo interessante, só não sei exatamente o
que. Uma sonoridade comercial cheia de batidas eletrônicas e
cordas pesadas? Uma overture heróica e
cheia de metais? A verdade é que ele anda imprevisível.
Elfman, ao longo dos anos de sua carreira como compositor de
trilhas sonoras, se consagrou como “o cara dos
super-heróis”. Não apenas heróis bonzinhos, até o anti-herói
Beetlejuice, interpretado por Michael
Keaton no filme homônimo, teve direito a uma partitura
composta por Elfman, que desde essa época já estava firmando
sua parceria com Tim Burton. Sempre com tendências sombrias
e góticas em seus motivos e temas,
Batman
foi a oportunidade perfeita para Elfman mostrar seu
estilo orquestral forte, cheio de mistério e muitas nuances;
ora movimentado e heróico, ora calmo e sinistro. No ano
seguinte Darkman, Dick Tracy
e o tema principal da série televisiva The
Flash estabeleceram a marca registrada do compositor.
Com toda essa demanda no intervalo de apenas dois anos,
Elfman não só estabeleceu bem seus próprios clichês
musicais, como também acabou soando repetitivo. É quase como
se Dick Tracy fosse uma continuação de
Batman, e o mesmo para o tema de
The Flash. Mesmo assim isso não é negativo,
pois o estilo de Elfman é tão cativante que mesmo tendo
trilhas repetitivas você aprecia cada uma delas. Foi uma
cópia que todos os fãs gostaram. Esssa similaridade quase
plagistica, não creio ter sido falta de criatividade, mas
sim erro de um compositor iniciante. Ele fez algo que deu
certo, e todos gostaram. Então foi repetindo a dose,
provavelmente a pedido dos próprios diretores. Mais do
mesmo.
Desde sua briga com Sam Raimi,
por divergências de idéias, durante a produção de
Spider-Man 2 em 2004, o músico não trilhava
nenhum filme de super-herói. Esse ano Elfman volta com com
dois blockbusters: este
Wanted (O Procurado) e
Hellboy 2. O pequeno espaço de tempo entre uma trilha e
outra é preocupante, pois sob pressão muitas vezes os
compositores acabam entregando uma trilha enganadora, cheia
de manobras orquestrais para impressionar o publico mais
leigo, mas nada de consistência temática.Elfman
tem tido alguns altos e baixos já há alguns anos. As trilhas
mais fracas são justamente aquelas onde ele se distancia de
seu estilo, tendendo para algo dramático ou então
essencialmente eletrônico.
Planeta dos Macacos, apesar de servir bem ao filme,
é uma trilha que não atrai muito. O mesmo se aplica a
Wanted. Elfman busca uma sonoridade
diferente aqui, que tem até um tom requintado e melodioso. O
grande problema é que isso se contrapõe à linguagem do
filme, com muita adrenalina e efeitos especiais. Talvez isso
decorra do fato de que, de certa forma, houve uma tentativa
do diretor em dar um ar requintado para a Fraternidade.
Wanted tem seus momentos interessantes, embora não se
equipare à trilha que Elfman fez para o documentário
Standard Operation Procedure, também de
2008 - que aliás é uma obra prima musical, daquelas que o
compositor não fazia há tempos.O
filme tem uma linguagem bem contemporânea, cheia de
adrenalina, manobras radicais e violência, aos moldes de
Triplo X e Velozes e Furiosos.
Elfman foi bem ousado usando uma abordagem mais orquestral,
e nesse ponto ele já ganha pontos. Compositores têm apelado
para uma abordagem menos musical e mais barulhenta e
eletrônica em filmes desse tipo, com clichês de ação e nada
de tema principal.
Em geral podemos considerar este
filme como um pouco paradoxal. Ao mesmo tempo que ele
remonta a filmes clássicos de organizações secretas, com
todo aquele conservadorismo e preservação das tradições, ele
também pende para o lado da modernidade, com armamentos
ultra sofisticados, câmeras bullet time
(efeito consagrado pela trilogia
Matrix)
e cenas de pancadaria gratuita. A tradição versus a
modernidade. Outra marca do filme são as armas estilizadas
com desenhos entalhados no cabo, que segundo os próprios
responsáveis pelo design são uma forma de
mostrar um certo estilo sem perder a classe.
Elfman compôs uma
partitura que tende para o lado mais erudito da trama.
Estabelece um tema orquestral, que dá um tom requintado ao
filme. Em certos momentos o tema toca ao fundo de cenas
totalmente modernas de ação, e a música acaba não combinando
com a cena. É como se o tema estivesse em um filme ao qual
não pertence. Já em outros momentos o tema fecha
perfeitamente, então há um contraste bem grande. Creio que a
fonte de inspiração para Elman tenha sido o personagem Sloan,
chefe da fraternidade interpretado por Morgan Freeman, que é
um homem conservador, tanto na aparência como nos valores.
"The Little Things" abre o disco, com Danny relembrando os
velhos tempos de Oingo Bongo - ele assume as guitarras e
vocais em uma faixa que lembra um pouco o estilo psicodélico
de Hendrix, com um toque de Hard Rock anos 80. Já "Success
Montage" é o tema principal do filme, que é insinuado
algumas vezes mas vai aparecer de forma clara só da metade
da projeção em diante. A faixa inicia com um ritmo de cordas
bem marcado, uma das assinaturas de Elfman na trilha. O
cello expõe então a melodia principal. Em
seguida, o fagote canta a melodia novamente, clarinete e
madeiras ao fundo criando uma textura que é outra assinatura
clássica de Elfman. O tema vai se repetindo e se
desenvolvendo aos poucos, com variações na orquestração, mas
poucas no tema em si. Em 1:41 temas um momento bem barroco,
de polifonia nas cordas, e aqui já dá para sentir as
tendências eruditas pesando na trilha. Logo em seguida temas
algumas batidas eletrônicas, mostrando que o contraste
também está presente na trilha em alguns momentos.
"Fraternity Suíte". A
fraternidade de assassinos até me lembra um pouco
Hitman, com a questão de moldar o mundo
matando as pessoas necessárias, e também por toda a
ambientação. A sede da fraternidade é um castelo, e há essa
conexão muito forte
com o passado no filme, o que
acaba trazendo esse caráter mais erudito. O tema começa com
vozes masculinas expondo uma melodia de canto gregoriano, em
seguida metais vão criando uma textura, preparando a entrada
das cordas que tocarão um padrão em staccato
e assim vão criando o clima denso e dramático da faixa.
A maioria das outras
faixas consiste de variações dessas três primeiras - os
temas de "Success Montage", "Fraternity Suite" e até mesmo
de "The Little Things", em interpretações mais orquestrais.
Eu diria que a trilha tem
dois pontos altos. "Success Montage", que é a melhor faixa
do disco e também a única onde dá para se identificar mais
claramente o estilo de Elfman. Eu diria que no resto da
trilha ele se afasta um pouco de sua estética composicional,
em direção a algo mais comercial. O outro ponto alto da
trilha é "The Little Things", que poderia até ter sido mais
enfatizada no filme, pois realmente é um rock
muito gostoso de ouvir.
Wanted vai agradar alguns, principalmente
os que não conhecem ainda muito dos trabalhos mais antigos
do Elfman, e vai deixar muio fã um pouco desgostoso.
Entretanto, tudo que faltou em Wanted tem
de sobra na trilha do novo filme de Guillermo del Toro,
Hellboy 2, que
também
conta com a partitura de Elfman.
Aliás, é até curioso isso, por que esses dois filmes
acabaram quase que sendo concorrentes de bilheteria, já que
foram lançados praticamente juntos no exterior. Podem
esperar uma trilha de peso e extremamente sombria, como nos
velhos tempos! |