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Quando soube que
Steven Spielberg dirigiria a refilmagem de Guerra dos Mundos,
cuja primeira versão é de 1953, confesso que fiquei a imaginar como
John Williams
trabalharia o tema principal do filme. Alguma melodia que com certeza
ficaria na cabeça de quem saísse do cinema ou, na melhor das hipóteses,
no assovio dos admiradores e colecionadores de
trilhas. Ledo engano! Tive a oportunidade de ouvir este novo trabalho de
Williams antes de ver o filme, e para minha surpresa não consegui
encontrar um tema ou melodia que se repetisse ao longo da audição. No
entanto, nada que o transformasse numa decepção. Talvez para os fãs mais
ardorosos do estilo empregado em
Star Wars
ou Indiana
Jones, este seja um trabalho decepcionante. Os que ainda gostam
de Williams em filmes como Nixon,
Sleepers, no
tom descritivo de
Minority Report ou em grande parte da trilha atonal de
Contatos
Imediatos do 3° Grau, acharão muita coisa interessante. E é
nestes dois últimos filmes que podemos encontrar mais semelhanças com a
partitura de Guerra dos Mundos.
E, após ter assistido o filme pude entender porque o habitual
colaborador de Steven Spielberg optou por compor uma música bastante
atonal, dissonante e pesada. Adjetivos que podemos empregar com
propriedade em praticamente todos os 60 minutos do álbum e que na
película reforçam o tom frio, amedrontador e caótico valorizado pelo
diretor. Duas faixas, particularmente, me chamaram a atenção por sua
proximidade com a veia experimental que Williams aplicou 28 anos atrás
em Contatos Imediatos: “Probing the Basement” e “The
Confrontation with Ogilvy”. Nos dois casos, as cordas dissonantes, os
momentos de silêncio intercalados pelo som nas alturas e a intromissão
ameaçadora e atonal da sessão de metais relembram o estilo empregado em
“Barry´s Kidnapping”. Na verdade, a segunda faixa em questão bem poderia
se chamar “Rachel´s Kidnapping”. Mais apropriado para a cena que
representa.
Outros pontos que merecem destaque incluem a música minimalista de
“Prologue” e “The Reunion”, acertadamente incluídas
no álbum com a narração de Morgan Freeman; os ostinatos e ritmo
ameaçador presentes em “The Ferry Scene”, “The Intersection Scene”,
“Escape from the City” (reutilizada nos créditos finais) e “The
Attack on the Car”; a ótima utilização da percussão (com destaque para
os tímpanos), o discreto coral, os solos de piano, e o registro grave
dos metais representando a ameaça alienígena em momentos-chave. Sobram
ainda reminiscências de
A Vingança dos
Sith e
As Cinzas de
Ângela na melodia de “Refugee Status”, o tom
militarista de “The Return to Boston” e o fechamento
atonal dos trompetes e cordas em “Epilogue”, bem ao estilo
“Cybertronics” de
A.I.
Em suma, um trabalho que não guarda muitas semelhanças com o John
Williams das fanfarras, temas marcantes ou motivos wagnerianos. Mas que
se centra na experimentação, atonalidade e dissonância muito bem
apresentados pelo habitual apuro orquestral do compositor. O que, apesar
de garantir uma audição tecnicamente perfeita, exige mais do ouvinte
acostumado a melodias fáceis e por isso mesmo pode afastar com sua
frieza, digamos assim, a maior parte dos colecionadores de trilhas
sonoras.
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