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O resumo da decadência do cinema atual
encontra seu elo condutor na ditadura do remake. Parece que, na hora de arriscar
em um ou outro projeto, os grandes magnatas da
indústria preferem optar pelo que eles acreditam ser uma “aposta
segura”. Nada mais longe da realidade. Nem artística, nem economicamente,
as refilmagens são rentáveis. As cifras, as críticas e a opinião
generalizada do público falam por si. O cinema sempre foi imaginação, um meio para explorar novos horizontes, para
experimentar, para expressar-se artisticamente sem limites. Com esta
moda condenável, tudo isso se desvanece. O castelo de cartas desmorona e
o público, apesar do que muitos pensam, não é tolo e acaba por esquecer
a tela grande, concentrando-se na
pequena (hoje, nem tão pequena assim). Ali temos várias ótimas opções,
como Lost, House
ou ainda Grey's Anatomy
ou mesmo Desperate Housewives.
Bem, dito isto temos O Sacrifício (The Wicker Man),
refilmagem sem gosto do clássico inglês de 1973 O Homem de Palha, dirigido por Robin Hardy.
Tomando como base o livro de Anthony Shaffer, o filme conta a
história de um policial que chega a uma misteriosa ilha para
investigar o desaparecimento de uma menina, no meio de uma perturbadora
trama que envolve todo o povoado. O supervalorizado Neil La Butte dirige
a nova versão, protagonizada por Nicholas Cage e Ellen Burstyn. Uma perda
de tempo, para variar, que destaca uma “chocante” trama
feminista.
À frente da música temos
Angelo Badalamenti. Um
compositor excessivamente enaltecido por suas colaborações
com David Lynch e com um estilo que não é dado a grandes alardes, quase
sempre mais interessado na experimentação, criando agoniantes
corpos atmosféricos com grande participação da eletrônica.
Pontualmente nos surpreende com scores intimistas, apoteóticas
peças românticas ou meras diversões. Para The
Wicker Man, compôs uma partitura que por vezes prescinde de qualquer
argumentação orquestral, como atesta "Overture for the Wicker Man",
apresentação temática com inserção de solo de voz feminina associado à
menina perdida. Aqui poderemos apreciar a diversidade melódica
representada pelo tema do policial, o tema de amor ou o tema da
ilha como objeto referencial.
Há o uso de elementos eletrônicos em algumas passagens,
especialmente nas que se referem a cenas de flashback (“Flashback
Memories”), mas isto é compensado com a vivacidade orquestral de intensas
peças que intensificam a tensão que busca (e não consegue) o diretor,
como “The Barn”. Muito mais inspirado se mostra o compositor em "Kiss of Bees”,
recuperando o Badalamenti “terrorífico” em "Trapped in Water", com
interessante jogo das dissonâncias e coros, e por certo no
clímax de "The Confrontation" e "The Burning".
Que ninguém espere uma revelação vital neste novo score de
Badalamenti, e muito menos uma reinvenção de um gênero que já se esgotou.
Mas ao menos é um trabalho que podemos escutar, que em
absoluto molesta e cuja missão final (ajudar o filme) é cumprida com
louvor. Certamente, é um score que nada tem em comum com o folk
rústico de Paul Giovanni para a primeira versão da história. Ainda
que atendendo à necessidade final das imagens,
pouco ou nada mais Angelo poderia ter feito.
Agora resta-nos esperar o próximo projeto do nova-iorquino, que tudo
indica será o esperado reencontro com Jean Pierre Jeunet (após
Ladrão de Sonhos, de 1995) em The Life of PI.
Jeunet é um
diretor cuja particular imaginação visual casa à perfeição com o
som bizarro e perturbador das notas de Badalamenti - The
Wicker Man? Quem sabe... |