Depois da fascinação
provocada pela música de
Tomorrow
Never Dies, o "clamor popular" pedia que
David Arnold
continuasse a cargo da música da série 007, e assim como os produtores
deram ouvidos ao descontentamento com a música de GoldenEye e
mudaram de rumo, neste caso tomaram a decisão correta em manter o
compositor no filme seguinte. Musicalmente, The World is not Enough
marca alguns acontecimentos que me parecem dignos de nota:
pela primeira vez um músico que não
John Barry compôs
mais de uma trilha sonora para a série; estes trabalhos ocorreram de
forma consecutiva e foi restabelecida a antiga tradição de que toda a
música do filme é de responsabilidade do compositor da partitura
principal. Assim, tendo Arnold como dono absoluto da música desta
película, temos uma trilha com as seguintes características:
1.
Existe uma canção principal, “The World Is Not Enough”, composta
por David Arnold e Don Black e interpretada pelo grupo Garbage, que
acompanha a seqüência de créditos iniciais. A seqüência de créditos
finais utiliza, depois de muito tempo, uma versão instrumental do “Tema
de James Bond”;
2.
A canção principal serve como padrão para ser utilizada
instrumentalmente dentro da trilha sonora,
especialmente em cenas de ação;
3.
Durante o filme se escuta o “Tema de James Bond”.
A canção principal, “The
World Is Not Enough”, é um tema atípico, já que é difícil classificá-la
claramente em alguma categoria. De fato, é uma balada interpretada por
um grupo mais identificado à musica pop/rock. A
interpretação da vocalista do grupo, Shirley
Manson, é bastante sensual e dá um toque especial ao tema. Esta canção é
bem superior à sua antecessora “Tomorrow Never Dies”, ainda que seja
inferior a “Surrender”, também de Tomorrow
Never Dies.
Seguindo com a tendência, novamente esta canção não
possui qualquer conexão com o argumento do filme. Além da canção
principal composta por Arnold e Black, a dupla também compôs outra
canção que serviu de padrão para inspirar a música incidental para as
cenas românticas. Esta canção tem por título “Only Myself To Blame”, e a
escutamos somente ao final do CD, já que nunca foi utilizada durante o
filme. Segundo a lógica ou de acordo com experiências anteriores, esta
canção deveria ter constado na seqüência dos créditos finais, onde
finalmente se optou por uma versão instrumental do “Tema de James Bond”,
que resultou igualmente satisfatória. Esta
canção tem uma particularidade nunca antes vista na série, já que foi a
única canção incluída em uma trilha sonora somente utilizada para
inspirar temas instrumentais, e que jamais foi ouvida no filme. Alguns
poderão mencionar outros casos similares, como temas instrumentais nunca
utilizados ou substituídos por outros, porém nenhum deles está na mesma
situação que esta. Se alguém está pensando na canção de
Thunderball
“Mister Kiss Kiss Bang Bang”, também ela não se encontra nesta
condição, já que nunca foi incluída na edição original da trilha sonora
e permaneceu desconhecida até ser incluída em um CD comemorativo ao
trigésimo aniversário da série. Confesso que, depois da experiência
musical de Tomorrow Never Dies,
minhas expectativas para esta trilha sonora eram bastante altas. No
entanto, o resultado mostrou ser um tanto diferente.
Neste trabalho, Arnold continuou com sua tendência de manter uma
equilibrada combinação de arranjos instrumentais e eletrônicos. Em
alguns casos inclusive combinou ambos em um mesmo tema, o que nem sempre
funcionou bem. A utilização do “Tema de James Bond” se restringiu a um
par de seqüências bem evidenciadas. Especialmente destacado é o arranjo
musical da seqüência de pré-títulos. No caso do combate na fábrica de
caviar, a música não tem a grandiosidade da composição anterior. Neste
trabalho Arnold definitivamente trata de mostrar seu estilo de
composição, utilizando recursos mais pessoais e não amparando-se tanto
no “Tema de James Bond” ou nas canções. Neste este sentido se destacam
“Ice Bandits”, “Pipeline”, “I Never Miss” e “Submarine”. O arranjo para
o tema romântico de Elektra King (baseado en “Only My Self To Blame”) é
realmente belíssimo e emotivo, ainda que a cena correspondente não o
seja (recomendo ouvir este tema em um sistema de áudio, sem nenhuma
imagem associada). Outros arranjos baseados nesta mesma canção não
resultam tão satisfatórios (“Casino”, “Remember Pleasure”). Devo
assinalar que sob o meu ponto de vista, o momento musical mais
emocionante do filme não foi incluído no disco, se trata da seqüência de
esqui quando Bond e Elektra se lançam do helicóptero. É um arranjo
instrumental muito breve baseado na canção principal, e que constitui
uma verdadeira homenagem ao estilo de orquestração que caracterizou John
Barry. Se não soubéssemos que Arnold está por trás deste tema,
facilmente poderíamos atribuí-lo a Barry. Talvez sua brevidade tenha
sido a causa de sua não inclusão na edição final do disco.
Retomando uma afirmação feita em outros comentários a respeito da
influência que possui a música para elevar ou diminuir um filme, quando
me perguntam qual é o melhor filme entre
GoldenEye
ou Tomorrow Never Dies,
respondo prontamente a favor deste último, mas reconheço que esta
preferência se deve basicamente à música, já que nos demais aspectos
ambos são bem semelhantes. Em resumo, sem a
grandiosidade da trilha sonora de Tomorrow
Never Dies, este trabalho ainda se
mantém satisfatoriamente, mostrando os primeiras sinais do estilo mais
pessoal de David Arnold na série - situação absolutamente previsível e
legítima.
|