X-MEN 2
Música composta e regida por John Ottman. Regência adicional de Damon Intrabartolo.

Selo:
Superb /Trauma Records
Catálogo:
TRM-74073-2
Ano: 2003
16 Faixas

Duração: 60:14
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 
Quando da estréia de X-Men em 2000, houve a opinião quase generalizada de que um dos pontos fracos do filme era a sua trilha sonora. Quando realizou o filme original, o diretor Bryan Singer não pôde contar com seu colaborador habitual desde Os Suspeitos, o compositor/montador John Ottman, que estava envolvido com sua estréia diretorial, Lenda Urbana 2. Singer então teve de valer-se de outro profissional para a montagem do filme, e a música ficou a cargo de Michael Kamen (Máquina Mortífera, Brazil). Este acabou produzindo uma partitura considerada apenas mediana, com temas discretos e acompanhamento eletrônico para as cenas de ação - dizem que seguindo estritas orientações do próprio Singer. E de fato, como você pode ler no comentário disponível em nosso site, a partitura de Kamen possui méritos, mas não está à altura das demandas da produção.

O fato é que, quando partiu para realizar X-Men 2, Singer teve à sua disposição Ottman, que parece ter se inteirado de todas as críticas que o trabalho anterior recebeu e, meticulosamente, fez de tudo para seguir direções opostas às que Kamen havia tomado. Para começar, arregimentou uma grande orquestra que não inclui qualquer instrumento eletrônico. Em seguida, tratou de compor um tema empolgante para simbolizar o heroísmo e a luta dos mutantes do bem, que se não é assobiado pelos espectadores na saída do cinema, pelo menos dá uma dinâmica vibrante ao ser incorporado no score. O CD de X-Men 2, com seus 60 minutos de duração, é uma mais do que satisfatória representação desta obra de Ottman, e que como é comum em lançamentos comerciais, não apresenta as músicas na ordem em que são ouvidas no filme, já que o compositor as ordenou de modo a privilegiar uma maior fluência musical na sua audição.

O álbum inicia com força, onde na "Suite From X2" são apresentados os motivos e bases da partitura: o tema principal, o coral, um tema majestoso que simboliza a Fé em um mundo com menos preconceito contra os mutantes (desenvolvido em "Finding Faith") e o sofisticado material dedicado ao vilão Magneto (plenamente caracterizado em "Magneto's Old Tricks"). No desenrolar das faixas que se seguem, podemos usufruir de todos os méritos desta ambiciosa partitura de Ottman, bem como constatar aquela que me parece ser a sua maior falha. Porque se há um quesito no qual ela perde para a partitura de Kamen para X-Men, é no de originalidade. Parte da exuberância da música de Ottman para X2 vem de diversas origens, e o ouvinte fica com a nítida impressão de que não há exatamente uma "voz própria" em boa parte deste trabalho. Pode ser que esta tenha sido uma opção consciente de Ottman - adotar influências ou referências de outros compositores que já deixaram sua marca no gênero.

Mas o certo é que este tratamento facilitou bastante sua tarefa  em X2, já que, apesar de ele ter anteriormente musicado produções com boas doses de suspense e ação (Malditas Aranhas e Pânico no Lago), este é o score onde o compositor mais avança no estilo. É aí que encontramos perceptíveis sombras de Elliot Goldenthal ("Mansion Attack" e "Magneto's Old Tricks"), Danny Elfman ("Goodbye") e até mesmo Christopher Young (o estilo do compositor pode ser percebido em "Sneaky Mystique", "Rogue Earns Her Wings", "I'm In"). Poderíamos incluir entre as presenças perceptíveis até mesmo o "pai" de alguns destes compositores, Jerry Goldsmith, e a percussão de "Mansion Attack" nos lembra Lalo Schifrin... Homenagens ou não, para Ottman deve ter sido bem fácil acessar esse manancial de referências, já que como montador ele possui grande familiaridade com as temp-tracks utilizadas nas primeiras montagens de um filme. Mas seria injusto dizer que inexistem aqui marcas do estilo de Ottman, tanto que a ênfase no drama humano, que caracterizou boa parte de seu trabalho anterior, também é facilmente perceptível em faixas como "Goodbye", "We're Here To Stay" e até mesmo no tema principal.

Em outro nível, algo que poderá decepcionar a muitos é a ausência, no CD, da representação musical de um dos momentos mais fortes do filme, que é o ataque do mutante Noturno à Casa Branca, bem no início da projeção. Para esta cena Ottman adaptou a cantata de Mozart "Dies Irae", mas infelizmente a gravação não foi incluída no álbum provavelmente devido a problemas com direitos autorais. De qualquer modo, temos aqui um CD no qual sua hora de música passa rapidamente graças a faixas eletrizantes e a recursos criativos de orquestração, como os efeitos de metais e vocais em "If You Really Knew", que se conclui com um estrondoso órgão. E, acima de tudo, Ottman criou um score que possui suficientes méritos para sobressair-se entre os efeitos sonoros que abundam no filme, deixando-nos a sua marca.

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