X-MEN: THE LAST STAND
Música composta por John Powell


Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 732 2
Ano: 2006
Faixas

1. 20 Years Ago
2. Bathroom Titles
3. The Church of Magneto/Raven Is My Slave Name”
4. Meet Leech, Then Off To The Lake
5. Whirlpool of Love
6. Examining Jean
7. Dark Phoenix
8. Angel´s Cure
9. Jean and Logan
10. Dark Phoenix Awakes
11. Rejection Is Never Easy
12. Magneto Plots
13. Entering The House
14. Dark Phoenix´s Tragedy
15. Farewell To X
16. The Funeral
17. Skating On The Pond
18. Cure Wars
19. Fight In The Woods
20. St. Lupus Day
21. Building Bridges
22. Shock And No Oars
23. Attack On Alcatraz
24. Massacre
25. The Battle of The Cure
26. Phoenix Rises
27. The Last Stand
Duração: 61:53
Cotação:


Comentário de
José-Vidal Rodriguez

 

No que se refere à música, a saga dos X-Men corria o risco de converter-se numa das franquias mais descafeinadas do cinema moderno. Nem o falecido Michael Kamen, com uma partitura monótona e previsível, nem o jovem John Ottman, que obteve melhores, mas igualmente triviais resultados, conseguiram dotar seus trabalhos com a força musical que seria necessária à conhecida marca da Marvel. Da contribuição de Kamen pouco ou nada podemos resgatar; Ottman, por sua vez, compôs um tema central muito atraente (“Suite from X2”), mas que se perdia entre uma sucessão de artifícios orquestrais absolutamente planos e rotineiros.

Agora John Powell, o compositor de X-Men: The Last Stand, assim como em seu recente Ice Age 2, assume a tarefa de compor a música de uma seqüência sem utilizar material usado pelos músicos anteriores (menos mal). Se no filme animado ele cumpre com louvor seu compromisso, igualando – se não até superando - os resultados de David Newman para o longa-metragem original, aqui ele escreve sem dúvida a melhor partitura da série mutante, e que também é o trabalho mais atraente do gênero em 2006, até o momento. Mas o que oferece o autor que mereça ser qualificado como uma de suas partituras mais complexas e que quase nos faz esquecer suas antecessoras na saga? Acima de tudo, ele apresenta uma obra completa, com um vestuário sinfônico atraente e um grau de coesão entre os temas que a coloca longe do “enganador” artifício sonoro no qual caíram os exemplares anteriores.

Se há algo para destacar nesta partitura, é o fato de que Powell acerta ao finalmente capturar o espírito musical necessário, tendo em vista as personalidades singulares dos X-Men. É óbvio que não estamos frente aos super-heróis de sempre, mas sim ante um grupo de mutantes que lutam para defender os valores de uma sociedade que os rejeita e os obriga a sofrer no ostracismo de suas peculiaridades anatômicas. Tendo isto em mente, John aprofunda esta idéia e acerta em cheio com esta aproximação contundente (com maior presença do tema central que nas partituras anteriores), mas sempre órfã de pretensões puramente heróicas que pudessem desviar as intenções moralistas louvadas pelos quadrinhos e transpostas para a tela pelo diretor Brett Ratner.

Adicionalmente, o argumento deste X-Men 3: O Confronto Final introduz um elemento que Powell capta com destreza: há uma cura recém descoberta para as anomalias dos mutantes, elemento que o compositor traduz na preciosa melodia de “Angel’s Cure”, que terá grande peso no álbum, como segundo tema em importância. Powell acabará associando-a, com seu ar vivaz e triunfalista, ao “bem” representado pelos mutantes do Professor Xavier, e a certos instantes de recolhimento, como na terna interpretação de sopros e cordas de “Skating On The Pond”.

Simplificando, poderíamos definir o álbum como uma mistura do Elfman vigoroso de ontem e do Beltrami anti-heróico ouvido, por exemplo, em Hellboy. Do primeiro toma as repetições tão características dos metais, bem como certos devaneios nas cordas (ambos recursos muito claros, por exemplo, nos segundos finais de “The Battle of The Cure“), lembrando em algumas passagens os tempos do mítico Batman; enquanto que de Beltrami assume o tom decadente e obscuro, cuja representação na tela vem em afortunadas dissonâncias e orquestrações sombrias (particularmente reconhecível é o uso incessante, por exemplo, de percussões metálicas). Esta combinação, com a qual poderemos estar mais ou menos de acordo, não obstante dá origem a um equilíbrio harmônico perfeito, convertendo o CD em uma audição sumamente agradável - em que pesem os mais de 60 minutos de música que a Varèse nos disponibiliza.

Mas o melhor de tudo é que Powell não fica só nisso, e igualmente imprime uma marca própria ao conjunto, que vai além daqueles leves (mas acertados) clichês ou referências. Sobretudo no que se refere aos fragmentos introspectivos, que frente às outras partituras, se apresentam mais numerosos e abertamente melódicos: tanto “Whirlpool of Love” como a elegíaca e quase barryniana “The Funeral”, oferecem bem-vindas pausas líricas em meio à agressividade da maior parte do score.

Um dos principais equívocos de Michael Kamen foi perder-se na incidentalidade sem desenvolver um tema central reconhecível, o que se fazia absolutamente necessário. Algo que Ottman conseguiu em parte com aquele motivo nervoso de seis notas, mas que definitivamente Powell atinge com o main theme mais elaborado e coerente com o espírito do comic (“Bathroom Titles”). Este sim poderia ser criticado, ainda que erroneamente, por ser ritmicamente parecido com certo trecho do célebre Superman de John Williams; ou também por seu caráter menos retentivo frente a outros do cinema moderno. A este respeito, ele não é nem o melhor de Powell nem o mais imediatamente reconhecível de sua filmografia, e curiosamente tampouco o mais virtuoso da partitura; mas o certo é que se trata de uma composição acertadíssima no que se refere à sua adequação com a trama.

E tendo em mente que estamos diante de uma obra muito distante da sonoridade simpática e leve de scores como Chicken Run ou Robots, não surpreende em absoluto que este trabalho seja totalmente entregue à sonoridade sinfônica. O músico inglês tradicionalmente se destacava pela tremenda habilidade para juntar a eletrônica com o classicismo, sem que nenhum dos recursos “devorasse” em excesso ao outro. Aqui, no entanto, ele opta por formas abertamente orquestrais (salvo leves sonoridades sintetizadas aplicadas unicamente ao ritmo), onde conta com a inestimável ajuda de um coral feminino que fornece o exato grau de grandiosidade - algo que tem em comum com o X2 de Ottman.

As faixas eminentemente ambientais (“Examining Jean”, “Entering The House”) são escassas, sendo suplantados na edição em disco pela ação cheia de adrenalina (“Cure Wars”, “Attack On Alcatraz”), onde Powell descarrega o que tem à mão para estremecer e agredir o espectador, tudo com um exemplar manejo das transições rítmicas. E o que é importante: com orquestrações perfeitas, graças às quais a partitura traz um som cristalino que sustenta a sobrecarga orquestral oferecida durante muitos minutos.

Por sua qualidade e importância no filme, não poderia encerrar o comentário sem fazer menção especial às últimas três faixas do CD. Um quarto de hora de autêntica explosão sinfônica, que arranca com o tremendo tour-de-force de “The Battle of The Cure”, prossegue com a espetacular progressão do coral feminino em “Phoenix Rises”, e finalmente culmina no deslumbrante medley de leitmotivs de “The Last Stand”. Um brilhante epílogo, que no seu tom emotivo esconde a mais que provável conclusão definitiva da saga em sua versão cinematográfica.

Em resumo, creio que este trabalho comprova que estamos frente a um dos três ou quatro compositores mais originais e inspirados do panorama hollywoodiano atual. Não o percam este score, sob pena de ficarem para sempre marcados pelas garras de Wolverine.

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