|
|
|
Onde o compositor de música para cinema
mais conhecido do mundo vai encontrar a sua inspiração, quando não tem
nenhum projeto cinematográfico em mãos?
John Williams é
conhecido por ser um ávido leitor de tudo que encontra, e diz
freqüentemente que se encontra mais inspiração na literatura do que na
própria música... também é conhecida a sua paixão por árvores, que já o
inspiraram diversas vezes. Mas parece ser aqui, com a voz artística do
grande violoncelista Yo-Yo Ma, que Williams encontrou a inspiração para
o seu melhor trabalho para sala de concerto. Ou mesmo, os melhores...
Das quatro obras que aqui recebem a sua estreia em CD, apenas o delicado
"Elegy for Cello and Orchestra" (originalmente para violoncelo e piano),
não foi escrito pensando em Ma.
É também a única peça com alguma relação ao mundo do cinema. Composta em
1997 para o serviço fúnebre de duas crianças, filhas de uma violinista
de Los Angeles amiga do compositor, é baseado num curto fragmento
melódico de Seven Years in Tibet (cujos solos foram interpretados
por Ma), que surgia na faixa "Regaining A Son". Williams e o
violoncelista de Los Angeles, John Morgan, interpretaram esta
maravilhosa miniatura no referido serviço fúnebre, e agora Williams
resolveu a orquestrar. Embora use uma orquestra completa, tem uma
qualidade com se tratasse de música de câmara. Mesmo quando cordas e
trompas se juntam, fazendo muito mais barulho, a peça nunca perde o
intimismo característico de uma obra de música de câmara. É de realçar
uma breve passagem em que a flauta, tocada com tal leveza, soa mais como
o shakuachi, a flauta de bambu japonesa. E embora derive de um
fragmento melódico tão breve, tem a mesma profundidade emocional que a
galardoada partitura de Williams,
Schindler's List.
É acima de tudo, uma amostra da maior das capacidades de Williams, a de
orquestrar de forma única. Uma pérola.
Mas se "Elegy for Cello and Orchestra" é uma pequena preciosidade, o
Concerto para Violoncelo é um diamante bruto. Williams disse na época da
estréia do concerto, que tinha sido inspirado pelas qualidades humanas
de Ma, e uma pessoa só pode começar a imaginar a real dimensão dessas
qualidades. Isso porque nesta obra (composta entre o final de 1993, logo
após Schindler's List, e a primavera de 1994) Williams deixa
provavelmente o seu melhor trabalho fora do cinema. A música está cheia
de vitalidade e mistério, com momentos de grande agitação e outros de
pacifica contemplação. Começa com uma fulgurante afirmação da orquestra,
depressa seguida pelo solista e a partir daí seguem-se os 30 melhores
minutos de música que ouvi ultimamente. O tema apresentado pela
orquestra vai sendo desenvolvido em diálogo com o violoncelo até que
este chega à sua cadenza não acompanhada. O segundo movimento,
Blues, usa um tipo de escrita sincopada típico do gênero onde foi
buscar o nome. O scherzo é um parente do espectral scherzo
"Craeb Uisnig" do Concerto para Fagote "The Five Sacred Trees" (estreado
em 1995, mas composto em 1993, entre Jurassic Park e
Schindler's List).
O concerto conclui com o belíssimo "Song", onde Williams vai procurar as
qualidades líricas do instrumento, desenvolvendo uma longa linha
melódica, que claramente é o antecessor dos movimentos exteriores de
TreeSong (2001). A presente gravação apresenta uma versão revista e
aumentada (no movimento final), datada de 1997. Uma obra de grande poder
emocional e técnico, claramente obra de um artista excepcional, para
outro de igual gabarito, é o grande concerto de Williams. As "Three
Pieces for Solo Cello", foram compostas no Verão de 2000, com a
pretensão de refletir a história afro-americana. Curiosamente é a
música, de toda a apresentada neste álbum que, na minha cabeça, cria
mais imagens. A música tem um sabor claramente africano, negro. O
primeiro movimento, "Rosewood", cria uma atmosfera turbulenta, que a mim
sugere a dor e dificuldades dos primeiros negros nos Estados Unidos. O
segundo, "Pickin'", é o mais alegre, e soa como uma daquelas músicas que
esperamos ouvir nos filmes, cantadas pelos escravos do sul
norte-americano. O movimento final, "The Long Road North", vai buscar o
nome em um poema de Rita Dove, e no seu tom elegíaco, sugere
absolutamente a penosa caminhada que estes homens e mulheres tiveram que
percorrer apenas por terem outra cor de pele. Williams usa a totalidade
dos recursos do instrumento e do seu talentoso solista, criando efeitos
sonoros, que poucos imaginariam vir de um violoncelo. Mais uma vez, uma
obra intensa e de clara profundidade.
O álbum termina com o algo misterioso, e eventualmente a peça menos
conseguida, "Heartwood: Lyric Sketches for Violoncello and Orchestra".
Williams regressa à sua paixão, as árvores, misturando-a com as
harmonias jazz da Claude Thornhill Orchestra (embora para o
ouvinte desatento, possa parecer não haver jazz nenhum aqui) e
com a arte de Yo-Yo Ma. Composto entre o final de 2000 e o início do ano
seguinte, sentimos que entramos num local de calma e meditação, em que
os troncos das árvores desta floresta são o suporte para uma grande
catedral imaginária. E a música faz-nos sentir esses magníficos arcos. E
ao terminar a audição, numa nota suspensa pelo violoncelo, fica na minha
mente a idéia de uma jornada. Como em quase toda a música para salas de
concerto de Williams, o compositor tenta nos levar até algum lugar.
Faz-nos passar por locais inóspitos, mas no final há sempre um lugar
reconfortante para descansar. É assim com o Concerto para Violoncelo, e
com a Three Pieces.
E o álbum cumpre o circulo com Heartwood, mais serena e meditativa.
Música da mais alta qualidade, para espíritos abertos, que procuram
outros sons que aqueles que surgem de Hollywood. Williams percorreu a
sua jornada e chegou a este mundo sonoro. Agora é a nossa vez de a
percorrer, e de finalmente encontrar o compositor de
Star Wars,
não entre fogos de artifício orquestral, mas no seu mais intimo recanto.
Imperdoável não ouvir... e depois, simplesmente inesquecível! |
|
CDs COMENTADOS |
|