Yo-Yo Ma plays the music of John Williams
Concerto for Cello and Orchestra (1994), Elegy for Cello and Orchestra (1997/2001), Three Pieces for Solo Cello (2000), Heartwood (2001) - Yo-Yo Ma, violoncelo/Recording Arts Orchestra of  Los Angeles/John Williams

Selo:
Sony Classical
Catálogo:
SK8967
9 Faixas

Duração: 66:46
Cotação:


Comentário de
Miguel Andrade

 
Onde o compositor de música para cinema mais conhecido do mundo vai encontrar a sua inspiração, quando não tem nenhum projeto cinematográfico em mãos? John Williams é conhecido por ser um ávido leitor de tudo que encontra, e diz freqüentemente que se encontra mais inspiração na literatura do que na própria música... também é conhecida a sua paixão por árvores, que já o inspiraram diversas vezes. Mas parece ser aqui, com a voz artística do grande violoncelista Yo-Yo Ma, que Williams encontrou a inspiração para o seu melhor trabalho para sala de concerto. Ou mesmo, os melhores... Das quatro obras que aqui recebem a sua estreia em CD, apenas o delicado "Elegy for Cello and Orchestra" (originalmente para violoncelo e piano), não foi escrito pensando em Ma.

É também a única peça com alguma relação ao mundo do cinema. Composta em 1997 para o serviço fúnebre de duas crianças, filhas de uma violinista de Los Angeles amiga do compositor, é baseado num curto fragmento melódico de Seven Years in Tibet (cujos solos foram interpretados por Ma), que surgia na faixa "Regaining A Son". Williams e o violoncelista de Los Angeles, John Morgan, interpretaram esta maravilhosa miniatura no referido serviço fúnebre, e agora Williams resolveu a orquestrar. Embora use uma orquestra completa, tem uma qualidade com se tratasse de música de câmara. Mesmo quando cordas e trompas se juntam, fazendo muito mais barulho, a peça nunca perde o intimismo característico de uma obra de música de câmara. É de realçar uma breve passagem em que a flauta, tocada com tal leveza, soa mais como o shakuachi, a flauta de bambu japonesa. E embora derive de um fragmento melódico tão breve, tem a mesma profundidade emocional que a galardoada partitura de Williams, Schindler's List. É acima de tudo, uma amostra da maior das capacidades de Williams, a de orquestrar de forma única. Uma pérola.

Mas se "Elegy for Cello and Orchestra" é uma pequena preciosidade, o Concerto para Violoncelo é um diamante bruto. Williams disse na época da estréia do concerto, que tinha sido inspirado pelas qualidades humanas de Ma, e uma pessoa só pode começar a imaginar a real dimensão dessas qualidades. Isso porque nesta obra (composta entre o final de 1993, logo após Schindler's List, e a primavera de 1994) Williams deixa provavelmente o seu melhor trabalho fora do cinema. A música está cheia de vitalidade e mistério, com momentos de grande agitação e outros de pacifica contemplação. Começa com uma fulgurante afirmação da orquestra, depressa seguida pelo solista e a partir daí seguem-se os 30 melhores minutos de música que ouvi ultimamente. O tema apresentado pela orquestra vai sendo desenvolvido em diálogo com o violoncelo até que este chega à sua cadenza não acompanhada. O segundo movimento, Blues, usa um tipo de escrita sincopada típico do gênero onde foi buscar o nome. O scherzo é um parente do espectral scherzo "Craeb Uisnig" do Concerto para Fagote "The Five Sacred Trees" (estreado em 1995, mas composto em 1993, entre Jurassic Park e Schindler's List).

O concerto conclui com o belíssimo "Song", onde Williams vai procurar as qualidades líricas do instrumento, desenvolvendo uma longa linha melódica, que claramente é o antecessor dos movimentos exteriores de TreeSong (2001). A presente gravação apresenta uma versão revista e aumentada (no movimento final), datada de 1997. Uma obra de grande poder emocional e técnico, claramente obra de um artista excepcional, para outro de igual gabarito, é o grande concerto de Williams. As "Three Pieces for Solo Cello", foram compostas no Verão de 2000, com a pretensão de refletir a história afro-americana. Curiosamente é a música, de toda a apresentada neste álbum que, na minha cabeça, cria mais imagens. A música tem um sabor claramente africano, negro. O primeiro movimento, "Rosewood", cria uma atmosfera turbulenta, que a mim sugere a dor e dificuldades dos primeiros negros nos Estados Unidos. O segundo, "Pickin'", é o mais alegre, e soa como uma daquelas músicas que esperamos ouvir nos filmes, cantadas pelos escravos do sul norte-americano. O movimento final, "The Long Road North", vai buscar o nome em um poema de Rita Dove, e no seu tom elegíaco, sugere absolutamente a penosa caminhada que estes homens e mulheres tiveram que percorrer apenas por terem outra cor de pele. Williams usa a totalidade dos recursos do instrumento e do seu talentoso solista, criando efeitos sonoros, que poucos imaginariam vir de um violoncelo. Mais uma vez, uma obra intensa e de clara profundidade.

O álbum termina com o algo misterioso, e eventualmente a peça menos conseguida, "Heartwood: Lyric Sketches for Violoncello and Orchestra". Williams regressa à sua paixão, as árvores, misturando-a com as harmonias jazz da Claude Thornhill Orchestra (embora para o ouvinte desatento, possa parecer não haver jazz nenhum aqui) e com a arte de Yo-Yo Ma. Composto entre o final de 2000 e o início do ano seguinte, sentimos que entramos num local de calma e meditação, em que os troncos das árvores desta floresta são o suporte para uma grande catedral imaginária. E a música faz-nos sentir esses magníficos arcos. E ao terminar a audição, numa nota suspensa pelo violoncelo, fica na minha mente a idéia de uma jornada. Como em quase toda a música para salas de concerto de Williams, o compositor tenta nos levar até algum lugar. Faz-nos passar por locais inóspitos, mas no final há sempre um lugar reconfortante para descansar. É assim com o Concerto para Violoncelo, e com a Three Pieces.

E o álbum cumpre o circulo com Heartwood, mais serena e meditativa. Música da mais alta qualidade, para espíritos abertos, que procuram outros sons que aqueles que surgem de Hollywood. Williams percorreu a sua jornada e chegou a este mundo sonoro. Agora é a nossa vez de a percorrer, e de finalmente encontrar o compositor de Star Wars, não entre fogos de artifício orquestral, mas no seu mais intimo recanto. Imperdoável não ouvir... e depois, simplesmente inesquecível!

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