M, O VAMPIRO DE DUSSELDORF
Direção: Fritz Lang
Elenco:
Peter Lorre, Ellen Widmann, Inge Landgut
Distribuidora: Criterion / Continental
Região: 1 / 4

Comentários de
Luiz Felipe do Vale Tavares

M, produzido em 1931, foi o primeiro filme falado do genial Fritz Lang, mais conhecido como o diretor do clássico de ficção-científica Metropolis. Ao contrário desse último, M é um filme policial sombrio com elementos de suspense, sendo que foi um dos primeiros filmes a tratar sobre serial killers. No Brasil foi inserido nesse filme o subtítulo “O Vampiro de Dusseldorf”. É totalmente inadequado, pois não se trata de um filme sobre vampiros e nem se passa na cidade de Dusseldorf, e sim em Berlim. A razão foi o fato da história se assemelhar a um caso verídico em Dusseldorf, onde o homicida era conhecido por esse título de “Vampiro de Dusseldorf”. O roteiro de M é no mínimo fascinante. Um assassino de crianças gera pânico na cidade de Berlim e a polícia, na tentativa de prendê-lo, aumenta seu contingente, espalhando policiais por todos os cantos da cidade. Isto gera um problema para os bandidos comuns (arrombadores de cofres, assaltantes, ladrões de banco, etc.), pois o excesso de policiais na rua torna praticamente impossível a prática de seus “pequenos” delitos. Para contornar esse problema, devido à ineficácia da polícia, os próprios bandidos empreendem uma caçada ao assassino, pois uma vez capturado e a polícia relaxando seu serviço, poderão continuar praticando seus crimes sem interferência. Temos nesse filme, portanto, o curioso cenário onde bandidos procuram praticar a justiça para fugir da justiça. Fritz Lang se mostra influenciado pelo expressionismo alemão e M segue essas características com seus personagens bizarros, cenários escuros e enigmáticos. Há, também, o uso muito efetivo de sombras. O diretor Lang também usou esse filme como instrumento de seu repúdio pelas mudanças sociais e políticas que estavam ocorrendo na Alemanha com o advento do Nazismo. Os personagens do filme possuem faces cruéis, se escondem nas sombras, nas fumaças de seus cigarros e charutos, em becos escuros, sempre conspirando. É mostrada uma sociedade doente, paranóica e decadente. De acordo com Lang, trata-se de um retrato do Nazismo e da passividade do povo alemão ao aceitá-lo. A fala final do filme, proferida por uma mãe cuja filha fora morta, é um aviso a toda a comunidade alemã: “Todos nós devemos tomar conta melhor de nossos filhos”. M se compõe basicamente de três atos. No primeiro temos a introdução, onde ficamos sabendo sobre a atuação do assassino e o medo que gera nos habitantes da cidade. No segundo ato é traçado um paralelo entre as investigações da polícia e a busca empreendida pelos bandidos. No terceiro ato temos o julgamento do assassino pelos bandidos.

A introdução do filme é perturbadora. Vemos uma mãe em casa esperando a filha chegar da escola para o almoço. A mesa está posta e a mãe espera a filha com apreensão. Essas cenas são intercaladas com as cenas da filha saindo da escola e caminhando até sua casa enquanto brinca com uma bola. No caminho há cartazes oferecendo recompensa pela captura do assassino. Como é de se esperar, o assassino se aproxima da menina e a oferece um balão de presente. A menina aceita e os dois passam a caminhar juntos. Enquanto isso, a mãe percebe o atraso da filha e começa a chamá-la pelo nome na janela. Não há resposta. Embora o filme não mostre nenhuma cena de homicídio, é claro o destino da menina. Temos apenas cenas que mostram a ausência da criança: um balão preso em fios de alta tensão de um poste, a bola rodando no chão sem dono e a cadeira da mesa do almoço vazia. É o poder da sugestão, coisa que o cinema desaprendeu há muitos anos preferindo o uso do explícito. O ator Peter Lorre, que interpreta o assassino Franz Becker, tem aqui o papel de sua vida. Muito expressivo, sua atuação é fenomenal, demonstrando toda a angústia do personagem através de gestos faciais. Ele não aparece muito no filme, possuindo maiores diálogos apenas no final, e também não há suspense sobre a sua identidade. Logos após alguns minutos de filme vemos o seu personagem pela primeira vez enquanto se olha no espelho. Seu rosto é de uma pessoa inofensiva, mas ele faz algumas caretas, talvez para tentar mostrar para si mesmo o monstro que os demais vêem nele.

Em uma das melhores cenas do filme ficamos sabendo que o personagem não tem controle sobre suas ações - apenas com os gestos de Lorre - sem nenhum diálogo. Nessa cena o assassino se encontra na frente de uma vitrine de uma loja, olhando os talheres que estão à venda. Há um conjunto de facas em exposição dispostas em formato de quadrilátero sendo que ao centro há um espelho. Uma menina se aproxima da vitrine e observa também o mostruário. Do ponto de visão do assassino, a imagem da menina é refletida no espelho bem ao centro da disposição das facas. O assassino a vê como uma espécie de presa, encurralada pelas facas. A câmera muda de posição, se posicionando dentro da vitrine e agora temos a imagem inversa, com o assassino cercado pelas facas. Nesse momento ele passa por uma espécie de distúrbio, onde seu rosto, antes pacífico, agora se mostra ensandecido, com um misto de maldade e desejo homicida. Por um breve segundo ele tenta se controlar, respira fundo e fecha seus olhos; mas ao abri-los a menina ainda se encontra no reflexo do espelho. Nesse momento a intenção homicida o domina e ele passa a seguir a menina na rua. É uma cena assustadora, porém brilhante. Uma das características que marca esse personagem é a música, “Peer Gynt”, que ele constantemente assobia ao ser dominado pelo impulso homicida. É uma peça chave para o filme, pois quem afinal descobre a identidade do assassino é um cego, que o reconhece pela música assobiada. No final do filme, quando do julgamento de Becker pelos bandidos, ficamos sabendo ainda mais sobre sua personalidade e tal gera um sentimento de compreensão, mas não de benevolência ou perdão. Becker, confrontado pelos rostos cruéis e implacáveis de seus julgadores grita em sua defesa: “Eu não tenho controle sobre meus atos! Eu não tenho nenhum controle sobre esse mal que existe dentro de mim! O fogo, as vozes, o tormento! Será que alguém sabe o que significa ser eu?”. Nesse momento vemos que muitos dos bandidos compreenderam a “força” inconsciente que move as condutas de Becker e se identificam com ele, pois também se voltaram ao crime dominados, muitas vezes, por uma força além de seus controles.

O nome “M” do filme provém da letra inicial da palavra assassino em alemão, Mörder. Em certo momento do filme, durante as buscas pelo assassino empreendidas pelos bandidos, um deles o localiza e para que os demais possam seguí-lo na rua, escreve “M” em sua mão com giz e imprime a escrita nas costas do assassino sem que este o perceba. O título original do filme deveria ser “M: Assassinos entre Nós”, uma clara referência aos atos nazistas na Alemanha nos anos 30. Mas o partido nazista vetou o uso desse título e foi utilizado apenas M. Mesmo com toda a pressão exercida sobre Lang, ele conseguiu lançar seu filme, mas foi logo censurado e retirado de cartaz. Posteriormente Hitler se confessou fã do trabalho de Fritz Lang e procurou contratá-lo para dirigir filmes de propaganda nazista. Além de ser totalmente contra esse partido, Lang também era filho de uma judia e, por isso, corria risco na Alemanha. Ele fugiu do país o mais rápido possível, deixando para trás sua esposa (simpatizante do partido) e todos os seus bens. Se estabeleceu por uns tempos na Inglaterra, onde dirigiu alguns filmes, e depois foi para os Estados Unidos, onde viveu até seu falecimento em 1976. Peter Lorre, também de origem judaica, resolveu seguir o exemplo de Lang e fugiu para a Inglaterra. Lá, fez dois filmes sob a direção de Alfred Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais (o original dos anos 30 e não a refilmagem com James Stewart) e Agente Secreto. Alguns anos depois foi para os Estados Unidos onde apareceu em diversos filmes, como Casablanca. Posteriormente só conseguiu papéis secundários e caricatos de sua imagem.

O DVD:
Nos EUA, M foi lançado em 1998 pela Criterion Collection, empresa especializada em filmes clássicos. Aqui no Brasil, a Continental lançou uma edição em DVD no final de outubro de 2002.

Imagem:
M é apresentado no seu formato original em tela cheia, aproximadamente 1.33:1. A Criterion conseguiu uma película de boa qualidade para a produção desse DVD. A imagem tem boa definição e contraste. Mas há problemas na imagem que decorrem não da deterioração da película e sim do manuseio inadequado. Há inúmeros arranhões e marcas na imagem, provavelmente quando da exibição dessa cópia em um projetor defeituoso. Em muitas cenas do filme há uma linha horizontal que atravessa a imagem em sua parte superior. Há algumas cópias que não possuem essa linha, mas a qualidade de imagem estava muito pior e mais deteriorada. Foi optado então por uma imagem melhor, porém com essa linha. Ela não chega a atrapalhar muito a exibição e logo acostuma-se com ela. Para a edição nacional, a Continental usou a mesma cópia da Criterion Collection, porém proveniente de um master analógico. Como resultado, a imagem e o som são um pouco inferiores em relação à edição da Criterion.

Som:
 O áudio é apresentado no original mono em alemão. Como M foi um dos primeiros filmes falados, as técnicas de gravação ainda eram extremamente rudimentares e o resultado é um áudio agudo demais. Quando os atores falam alto o som distorce e se torna desagradável. Esse filme não apresenta trilha sonora, fazendo uso, em compensação, de barulhos de ambiente como buzinas de carros, pedestres andando etc. A única música que ouvimos é o assassino assobiando “Peer Gynt”, indício de que está para matar. A edição nacional da Continental possui áudio ligeiramente mais baixo do que a edição da Criterion. Também é perceptível maior distorção do áudio em algumas cenas. A edição da Criterion possui legendas apenas em inglês. A edição nacional da Continental possui legendas em português, inglês e espanhol.

Extras:
 Vindo da Criterion Collection - que é uma empresa especializada em edições especiais recheadas de extras – é uma verdadeira decepção constatar que não há absolutamente nenhum extra nesse DVD. O único material adicional é um panfleto de duas folhas com um artigo sobre o filme. É interessante de ler, mas ficamos com vontade de saber mais sobre esse filme. Temos que levar em conta a impossibilidade de obter extras de um filme de 1931, mas a Criterion poderia ter incluído pelo menos biografias de Peter Lorre e Fritz Lang, galeria de fotos com posters, etc. Já seria alguma coisa. Nesse aspecto a adição da Continental supera um pouco a importada, pois apresenta biografias de Fritz Lang e Peter Lorre.

Conclusão:
 M é um excelente filme, na frente de sua própria época e atual principalmente nos dias de hoje. É obrigatório para os cinéfilos e por quem se interesse por criminologia. Quanto ao DVD, a recomendação aqui é pela edição nacional da Continental. Embora a edição da Criterion tenha imagem e som melhores, não há nenhum extra e a alta do dólar torna inviável a aquisição desse DVD, que não pode ser encontrado por menos de R$100,00. A edição da Continental possui imagem e som ligeiramente inferiores, porém contém biografias e o preço é bem mais convidativo, podendo ser encontrado por R$33,00 em média.

Cotações:
Filme:
DVD da Criterion: Imagem: ; Som: ; Extras:
DVD da Continental: Imagem: ; Som: ; Extras:

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