BLADE RUNNER (EDIÇÃO ESPECIAL)
Direção: Ridley Scott
Elenco: Harrison Ford, Sean Young, Rutger Hauer, Edward James Olmos, William Sanderson, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Brion James

Distribuidora: Warner
Duração: 117 min.

Região: 4

Lançamento: 06/12/2007

Nº de discos: 3
Cotações:
Filme
DVD

Comentários de
Jorge Saldanha

O FILME
Em 2019, formas de vida criadas através de engenharia genética, os Replicantes, são utilizadas fora da Terra em tarefas pesadas, perigosas ou degradantes. Fabricados pela Tyrell Corporation, os modelos Nexus-6 são fisicamente idênticos aos humanos, porém mais fortes e ágeis. Devido a problemas de instabilidade emocional, grande agressividade e reduzida empatia, eles têm um período de vida limitado a quatro anos. A presença de Replicantes na Terra é declarada ilegal após uma revolta, e é criada uma força policial especial, os Blade Runners, para caçá-los e matá-los. Um pequeno grupo rebelde de Nexus-6 formado por Roy Batty (Rutger Hauer), Zhora (Joanna Cassidy), Leon (Brion James) e Pris (Daryl Hannah), chega em uma Los Angeles perpetuamente escura e chuvosa para tentar descobrir uma forma de aumentar seu ciclo de vida. Rick Deckard (Harrison Ford), um Blade Runner recém aposentado, é chamado de volta à ativa para persegui-los. Deckard conhece e se apaixona por Rachael, uma bela moça que desconhece ser Replicante, e ele começa a questionar o que significa, na verdade, ser “humano”.

Quando foi lançado nos cinemas em 1982, Blade Runner foi recebido com frieza tanto pelo publico como pela crítica. Lembro que saí do cinema pensando na coragem do diretor Ridley Scott, que após ter feito a aclamada sci fi de horror Alien, O Oitavo Passageiro, aceitou a tarefa de realizar outra ficção-científica, uma espécie de filme noir futurista baseado num livro de Philip K. Dick – portanto com ambientação e temáticas completamente diferentes de seu sucesso anterior. Os anos passaram, e após o filme ser lançado em vídeo ele começou a ser reavaliado e foi objeto de muitas discussões, alimentadas pelos muitas interpretações das imagens e eventos mostrados por Scott. Como resultado, Blade Runner, hoje, é considerado com justiça um clássico da ficção-científica, a obra cinematográfica definitiva sobre criaturas artificiais que buscam sua humanidade - tema recorrente em muitos filmes e séries do gênero. Mas o diretor nunca escondeu sua insatisfação com a versão original lançada nos cinemas americanos, já que por imposição do estúdio, que considerou a trama complicada, ele teve que adicionar uma narração explicativa de Harrison Ford em alguns momentos. Além disso, quiseram dar à produção um tom mais otimista e menos sombrio, eliminando alguns takes mais violentos, uma cena de sonho de Deckard e adicionando um equivocado final feliz, emoldurado por tomadas aéreas originalmente filmadas para O Iluminado. Anos mais tarde, com a consagração do filme, foi lançada em DVD uma “versão do diretor” (ainda que sem o envolvimento de Scott) sem a narração de Ford, sem o final feliz e, o mais importante, com a cena em que Deckard sonha com um unicórnio, que dá uma nova interpretação para a natureza do personagem. Esta versão era a única até então lançada em DVD, até que em 2007 o filme foi novamente exibido nos cinemas dos EUA em uma “versão final”, agora supervisionada por Ridley Scott e que representa, segundo ele, a sua visão definitiva de Blade Runner. Basicamente esta versão é a mesma “versão do diretor”, porém cuidadosamente restaurada, com ajustes nos efeitos visuais de Douglas Trumbull e a correção de alguns problemas pré-existentes. Suas principais características são:

  • A cena de Deckard esperando para comer no White Dragon foi encurtada, uma vez que a narração foi eliminada;

  • As cenas de violência eliminadas (que no entanto constaram na versão de cinema internacional) foram reinseridas;

  • Quando Bryant e Deckard estão examinando os perfis dos Nexus-6, Bryant descreve o trabalho de Leon;

  • Desde seu lançamento o filme tinha um grande furo no enredo – a introdução falava em seis Replicantes fugitivos, mas depois só víamos quatro. Para resolver isso uma fala de Bryant foi redublada, informando que dois deles já haviam morrido em um campo elétrico;

  • Quando Gaff e Deckard chegam no apartamento de Leon, o síndico diz 'Kowalski';

  • Quando vemos Roy Batty pela primeira vez, o fundo da imagem foi alterado para combinar com o resto da cena;

  • O diálogo entre Deckard e o comerciante de cobras artificiais Abdul Ben Hassan, que estava fora de sincronia, foi corrigido;

  • Várias tomadas com figurantes foram restauradas, como a de duas strippers vestindo máscaras de hóckey e a de Deckard falando com outro policial;

  • A versão integral da cena do unicórnio foi inserida;

  • Na seqüência em que Deckard persegue Zhora, o rosto da atriz Joanna Cassidy foi digitalmente sobreposto ao da dublê;

  • Uma cicatriz no rosto de Deckard após a 'retirada' de Zhora foi removida, por razões de continuidade;

  • Quando Batty confronta seu criador, Tyrell, ele diz em inglês 'I want more life, father' (ao invés de 'I want more life, fucker');

  • Após matar Tyrell, Batty diz para a sua próxima vítima 'Me desculpe Sebastian. Venha. Venha', o que serve para realçar a crise de consciência do personagem;

  • Quando Batty solta o pombo, os prédios de fundo agora são os da Los Angeles de 2019.

Não tenho dúvidas de que a nova “versão final” é a melhor de todas. Mas para aqueles que por acaso pensarem diferente, não há problema: esta nova Edição Especial, além dela, traz mais três versões do filme para contentar a gregos e troianos, todas com a duração aproximada de 117 minutos.

O DVD
Nos EUA, esta “versão final” de Blade Runner, produzida por Charles de Lauzirika, foi lançada em edições com dois, quatro e cinco DVDs, sendo a última embalada numa maleta que traz vários itens de colecionador, como miniaturas e cards. Os DVDs adicionais trazem mais um conjunto de extras (como as cenas deletadas e os segmentos de produção reunidos sob o título "Enhancement Archive") e a primeira montagem do filme, vista apenas em exibições-teste. Ela possui uma abertura diferente, tem a narração de Deckard apenas no final, não traz a cena do unicórnio e nem o final feliz e contém diálogos diferentes entre Batty e Tyrell, entre outras coisas. É uma versão claramente não finalizada, com música temporária na trilha sonora e que deve interessar apenas aos mais radicais fãs do filme. Aqui no Brasil recebemos uma versão intermediária com três DVDs, disponível em duas versões – uma com embalagem Amaray envolta numa luva de papelão, e outra que também vem numa maleta com itens de colecionador. Em ambas o conteúdo dos discos é idêntico – os mesmos extras e nada menos que quatro versões do filme: a versão final, as duas versões de cinema de 1982 (uma para o mercado norte-americano e a outra para o mercado internacional) e a versão do diretor. Todas tiveram vídeo (no formato widescreen anamórfico 2.35:1) e áudio (Dolby Digital 5.1) remasterizados, mas foi a “versão final” que recebeu os maiores cuidados, restaurada digitalmente a partir dos elementos originais de forma a eliminar imperfeições, danos ou sujeiras. A imagem apresenta um nível de detalhe que ultrapassa qualquer lançamento anterior do filme, e isso em DVD standard – quando escrevi esta resenha, a versão em alta definição (Blu-ray e HD-DVD) ainda não havia sido lançada aqui. Os níveis de brilho, contraste e nitidez impressionam, as cores são firmes e vivas e inexistem artefatos de compressão. O áudio em inglês Dolby Digital 5.1 da versão final é estupendo, propiciando ao espectador uma profunda imersão no ambiente sonoro do filme, onde percebem-se em detalhes até mesmo ruídos discretos como vozes, o barulho da chuva, trovões e sons de uma caótica cidade futurista. Ele possui toda a potência que faltava no áudio 2.0 e mesmo nas faixas multicanais das outras versões do filme incluídas. Um dos melhores exemplos disso é na cena em que Deckard dispara sua arma em Zhora, onde ouvimos um grave forte e profundo. Mas o que mais se destaca no áudio é, sem dúvida, a antológica trilha musical de Vangelis, responsável por boa parte da atmosfera do filme. Ela envolve o ouvinte com toda a sua excelência sonora, algumas vezes eclipsando (intencionalmente) o diálogo e os efeitos sonoros. Aliás, se algum reparo há de ser feito ao novo áudio do filme é quanto aos diálogos, que em alguns poucos trechos soam baixos ou abafados. Problemas sem dúvida com as masters originais, mas é algo que passará despercebido para muitos e que não chega a comprometer a avaliação final. As versões de cinema agora também contam com a dublagem original em português (mono). Em todas as versões incluídas, o filme possui as opções de legendas em português, inglês e espanhol.

OS EXTRAS
Disponível anteriormente apenas em DVDs básicos, sem extras, finalmente Blade Runner recebe um tratamento à altura e, mesmo esta edição com “apenas” três DVDs traz um extenso material sobre o filme, sua produção e sua influência.

Disco 1

  • Introdução de Ridley Scott (37 seg.) – Em sua introdução à “versão final” de Blade Runner, o diretor explica porque esta é a sua versão preferida do filme, mas sem detalhar muito suas características. Com legendas em português;

  • Comentários em áudio – A versão final traz não uma, mas três faixas de comentários de áudio: a primeira com Ridley Scott, a segunda com os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples, o produtor Michael Deeley e a produtora executiva Katherine Haber, e a terceira com Syd Mead e Lawrence G. Paull (desenho de produção), Douglas Trumbull e Richard Yuricich (efeitos visuais), David Snyder (direção de arte) e David Dryer (efeitos especiais). O destaque sem dúvida são os comentários de Scott, que conhece como ninguém o filme e nos transmite seu exato significado. As demais faixas detalham mais os aspectos de produção, e no conjunto agradarão aos devotos fãs do filme. Infelizmente, como de hábito, a Warner não legendou os comentários.

 Disco 2

  • Introduções de Ridley Scott (98 seg.) - Cada uma das três “versões arquivadas” do filme, presentes no disco 2, tem uma breve introdução do diretor (por volta de 30 segundos cada), onde Scott explica suas principais características. Ao contrário da introdução da “versão final”, nenhuma delas recebeu legendas em português;

Disco 3

  • Dias Perigosos: Realizando Blade Runner (213 min.) – Este documentário de mais de três horas e meia, em wide anamórfico, com áudio em inglês 2.0 e legendas em português, é o principal extra do pacote e não tenho dúvidas de que, mesmo se fosse lançado separadamente, valeria a pena ser adquirido. Trata-se de um dos melhores e mais completos documentários já produzidos sobre um filme lançado no Brasil, e é impossível detalhar o que ele contém. Mas, resumidamente, dá para dizer que em seus oito capítulos ele cobre cada aspecto da produção, iniciando com a gênese do projeto (inspirações, roteiro, financiamento, etc.) e seguindo para a pré-produção, escolha do elenco, produção, desenho de produção, efeitos especiais, recepção da crítica e muito mais. Os capítulos, que podem ser vistos em seqüência (basta selecionar Iniciar), ou então acessados individualmente, são: “Data de Início - 1980: Acordos e Roteiros Refeitos” (30 min.), “Resposta Tímida: Reunindo o Elenco” (22 min.), “Um Bom Começo: Desenhando o Futuro (26 min.), “Auge da Tempestade: Produção I (28 min.), “Vivendo com Medo: Produção II” (29 min.), “Além da Janela: Efeitos Visuais” (28 min.), “Precisando de Magia: Edição e Narração (23 min.), e “Retorno do Inferno: Reação e Ressurreição” (24 min.). Todos os principais envolvidos no filme, incluindo Harrison Ford, Ridley Scott, Sean Young e membros das equipes envolvidas nos variados estágios da produção, dão seus depoimentos. Também participam pessoas para as quais Blade Runner foi uma importante fonte de inspiração, como os cineastas Guillermo Del Toro e Frank Darabont. A quantidade de informações fornecidas é espantosa - os fãs poderão ver pela primeira vez storyboards de cenas de abertura nunca filmadas (onde Deckard possui a aparência de Dustin Hoffman, que quase foi contratado para o papel), e ouvir uma narração nunca usada de Ford – e isto só para exemplificar. Um fascinante e altamente recomendado documentário.

MENUS
Os menus animados são caprichados, mas apresentam alguns erros de tradução (afinal, o que seria “versão impressa”?).

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