NO VALE DAS SOMBRAS
Direção: Paul Haggis
Elenco:
Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Jason Patric, Susan Sarandon, James Franco, Frances Fisher, Jonathan Tucker
Distribuidora: Paris Filmes
Duração: 114 min.

Região: 0

Lançamento: 19/03/2008

Nº de discos: 1
Cotações:
Filme
DVD

Comentários de
Carlos Dunham

SINOPSE
Ao voltar para casa depois de servir na Guerra do Iraque, o jovem Mike desaparece e é considerado foragido do exército. Seu pai, o ex-militar Hank Deerfield, recebe o telefonema com as notícias perturbadoras e parte em busca do filho, deixando sua mulher Joan em tensa expectativa. Emily Sanders, uma investigadora de polícia da jurisdição em que Mike foi visto pela última vez, ajuda-o na busca, inicialmente relutante. Conforme as provas começam a surgir, o que era um caso de desaparecimento configura-se como suspeita de assassinato. Emily e Hank têm então de enfrentar o alto escalão militar para manter a investigação em processo. Mas quando a verdade sobre o serviço de Mike no Iraque finalmente é descoberta, Hank é forçado a reavaliar suas crenças para desvendar o mistério por trás do sumiço do filho.

COMENTÁRIOS
É de conhecimento público que, no histórico confronto entre David e Golias, um menino simples e pobre derrotou um gigante que todos temiam, armado apenas de uma funda e algumas pedras. O confronto, todos sabem, ocorreu no Vale do Elah, situado em uma região hoje localizada no Estado de Israel. David é, também, o nome de dois personagens do filme. Um, o filho mais velho dos personagens de Tommy Lee Jones e Susan Sarandon, que não aparece no filme - o rapaz desencarnara 10 anos antes da ação da trama. O outro, o filho pequeno da personagem de Charlize Theron, uma oficial da polícia que auxilia o militar interpretado por Jones a desvendar o misterioso desaparecimento de seu outro filho - que sumira da base militar na qual estava dias após haver retornado do Oriente Médio.

A cena em que o militar conta para o menino a clássica história, ocorrida há milhares de anos atrás, mas presente de forma perene nos corações e almas da humanidade, é interessante - mas o único momento do filme digno dessa definição. Em seu novo filme, este No Vale das Sombras (In The Valley of Elah, 2007), o diretor do supervalorizado Crash - No Limite realiza um filme que, se não é tão ruim quanto o anterior, revela-se hermético, desinteressante, fraco como drama policial e, pior, tão racista, machista e preconceituoso quanto a obra que o consagrou.

Na busca do Hank Deerfield de Tommy Lee Jones para esclarecer o brutal desaparecimento do filho, quem revela muitos prismas de sua faceta não é o personagem, nem mesmo algum coadjuvante (embora haja algumas alterações e revelações quanto às condutas de alguns personagens, o filme é bastante retilíneo nesse sentido): é Haggis, que ao conduzir sua trama, trata com constrangedora naturalidade o envolvimento de soldados com prostitutas, bebidas e drogas - como se tal hábito não fosse motivo de condenação, e embriagar-se fosse algo válido em dias de folga. Mais adiante, o protagonista (jamais herói) agride com socos e palavras racistas um personagem mexicano, como se revolta e ódio justificassem agressão física e moral. Como já fizera no hediondo Crash, Haggis parece sugerir que o fato de Deerfield estar nervoso justifica tais práticas.

E, em se tratando de um filme indicado ao Oscar de melhor de ator (Jones), a realização é bastante fraca do ponto de vista interpretativo: Jones e Theron estão apenas bem (a atriz, por sinal, está excessivamente desglamourizada, como se o cineasta sentisse algum prazer em pegar uma jovem lindíssima e torná-la feia), e a magnífica Susan Sarandon é cruelmente desperdiçada em um papel que só lhe permite poucas cenas - e, em uma delas, a atriz quase salva o filme, quando comparece a um hospital situado a dias de sua casa para ver o estado em que se encontra o filho. Com o olhar, a atriz emociona muito mais e diz muito mais coisas do que Jones e Theron com sua carga de textos e cenas no decorrer da realização. Não é suficiente para salvar o filme, mas basta para colocar no coração do espectador um sentimento de ternura e doçura que a estória de um pai procurando localizar o filho deveria ter não em apenas alguns segundos, mas durante toda a metragem.

DVD
Infelizmente, numa época em que já são lançados filmes em Blu-ray de alta definição até aqui no Brasil, as distribuidoras nacionais continuam lançando DVDs arcaicos como este. O filme, bem recente, está em formato de tela letterbox, que apesar de respeitar seu aspect ratio original, é não anamórfico - ao mesmo tempo que nos televisores 4:3 deixa tarjas pretas acima e abaixo da imagem, não se adapta direito aos televisores 16:9. Portanto, uma apresentação ultrapassada. Pelo menos o áudio original é Dolby Digital 5.1, em contraponto à dublagem em português, que é apenas 2.0. As legendas estão disponíveis em português e inglês.


EXTRAS
Quando ao material adicional oferecido pelo DVD, o mesmo é bastante limitado; há dois documentários, corretos mas bastante burocráticos - DEPOIS DO IRAQUE e VOLTANDO PARA CASA -, nitidamente realizados com o objetivo de não deixar passar em branco a seção de extras. Sinopse e ficha técnica, itens quase obrigatórios, também constam do material oferecido, mas trazem apenas as informações básicas que, geralmente, já são do conhecimento geral do espectador ao escolher o filme para assistir. Estando o diretor Paul Haggis com o prestígio tão em alta (imerecidamente ou não), NO VALE DAS SOMBRAS poderia trazer, em seu DVD, informações bastante ricas sobre seu diretor e o processo criativo deste - mas isto não ocorre, e mesmo a oportunidade de falar sobre si mesmo (característica que, afinal, é boa parte da razão de ser da seção de extras de um DVD) é desperdiçada por esse maçante e equivocado filme.

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