COLEÇÃO HITCHCOCK: PARTE 3 - FASE AMERICANA (A CONSAGRAÇÃO DE UM GRANDE DIRETOR)
Direção: Alfred Hitchcock
Distribuidora: Universal / Warner / Paramount
Região: 4
 

Comentários de
Luiz Felipe do Vale Tavares

A partir de Festim Diabólico, em 1948, Hitchcock passa a ser o produtor de seus próprios filmes, obtendo total liberdade criativa. Foi a melhor fase de Hitchcock, com a criação de sucessivos grandes clássicos do cinema.


Festim Diabólico (Rope, 1948) - Sem dúvida um dos filmes mais interessantes de Hitchcock, apresentado como se tivesse somente um plano-seqüência - para dar a impressão de que o espectador está assistindo a uma peça de teatro. Na história, dois amigos matam um colega pelo simples prazer de praticar um homicídio. Para trazer maior empolgação à experiência, colocam o cadáver dentro de um baú e oferecem uma festa aos familiares e amigos do falecido, onde o baú servirá de mesa para a refeição. Mas um professor da dupla, interpretado por James Stewart, desconfia do comportamento dos dois. Lançado pela Universal, o filme é apresentado no formato original em tela cheia na proporção de 1.33:1. A imagem é boa, embora um tanto desgastada pelo tempo. O som é apresentado no original em mono. Possui excelentes extras, como um documentário completo sobre o filme, fotos da produção e o trailer original de cinema (que é um interessante prequel em relação ao filme).

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Pacto Sinistro (Strangers on a Train, 1951) - Mais um grande clássico de Hitchcock. Dois desconhecidos se encontram em trem: um jogador de tênis, Guy, e um playboy psicopata, Bruno. Em conversa descontraída, o último levanta uma tese de assassinato perfeito. Guy se encarregaria de matar o desagradável pai de Bruno, enquanto este se encarregaria de matar a tormentosa esposa de Guy, que recusa a conceder o divórcio. Guy leva a trama na brincadeira, porém para Bruno o assunto é bem sério e pretende levá-lo às últimas conseqüências. O destaque fica por conta de duas cenas antológicas: a do assassinato visto através das lentes de um óculos e a cena final do carrossel desgovernado. Hitchcock confessou que a cena do velhinho se arrastando por debaixo do carrossel para puxar a alavanca para freá-lo foi real e se arrepende profundamente de ter filmado desse modo, pois se o homem levantasse a cabeça alguns centímetros a mais, poderia ter sido decapitado. Lançado pela Warner, o filme é apresentado no formato original em branco-e-preto e em tela cheia na proporção de 1.33:1. A imagem é boa, embora um pouco granulada. O som é apresentado no original em mono, com boa qualidade. O disco possui duas versões do filme, um em cada lado do disco. O lado “A” possui a edição inglesa, com cerca de 1 minuto adicional com duas curtas cenas que mostram um lado homossexual do personagem de Bruno e um final estendido. O lado “B” possui a edição americana, sem essas duas cenas. As duas edições são praticamente idênticas e as cenas adicionais não alteram em quase nada o produto final. Não há extras e os menus são bem simples, pois estamos diante de um dos primeiros DVDs lançados pela Warner. Já é tempo dessa distribuidora relançar esse clássico em uma edição especial cheia de extras e com melhor qualidade de imagem, assim como fez com Casablanca e outros clássicos.


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Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) - James Stewart interpreta um fotógrafo que quebrou a perna em um acidente e, enquanto se recupera em seu quarto, se diverte bisbilhotando a vida dos seus vizinhos através da janela. Um dia, passa a suspeitar que um dos vizinhos assassinou a própria esposa. É um dos grandes filmes de Hitchcock. Todas as filmagens foram feitas em estúdio, onde foi construída toda a vizinhança que James Stewart vê de sua janela. De todos os DVDs da Coleção Hitchcock lançados pela Universal, Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai foram os únicos verdadeiramente restaurados. O filme é apresentando em widescreen anamórfico na proporção aproximada de 1.85:1. A imagem é rica em detalhes e cores, com excelente definição. Devido à restauração também não há sinais de degradação, sujeiras e outras imperfeições na película. O áudio também foi restaurado, mas mantido no original em mono. Quando da restauração de Um Corpo que Cai, houve muitas críticas ao fato do som ter sido remixado em Dolby Digital 5.1, com a  adição de novos efeitos sonoros para criar uma melhor ambientação sonora. Para agradar aos cinéfilos mais puristas, a Universal optou desta vez em não modificar o som. Os extras são excelentes, como em todos os DVDs da Coleção Hitchcock da Universal. Há um ótimo documentário sobre o filme, fotos da produção e o trailer original do cinema. Esse DVD é mais do que recomendado.
 
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O Terceiro Tiro (The Trouble with Harry, 1955) - Tentativa frustrada de Hitchcock em levar o humor inglês aos Estados Unidos, onde o filme fracassou, embora tenha feito sucesso nos países europeus. A história é sobre o defunto Harry, que sofreu uma morte misteriosa e todos os envolvidos no filme acreditam ter colaborado para esse resultado. Entre discussões e novas revelações, o corpo é enterrado e desenterrado diversas vezes. O humor reside na calma dos personagens, como se a morte fosse engraçada, um acontecimento mais do que corriqueiro. O filme possui a primeira partitura composta pelo célebre maestro Bernard Herrmann para uma obra de Hitchcock, que marcou o início de uma das mais bem sucedidas colaborações entre compositor e diretor da história do cinema. Lançado pela Universal, o filme é apresentado no formato original em tela cheia na proporção de 1.33:1. A imagem é boa, embora um tanto desgastada pelo tempo. As filmagens nas locações externas são belíssimas, porém contrastam com a artificialidade das cenas filmadas em estúdio, onde percebe-se mais do que claramente que as árvores, grama e demais vegetações são todas de mentira. O som é apresentado no original em mono. Possui excelentes extras, como um documentário completo sobre o filme, fotos da produção e o trailer original de cinema.

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Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955) - Um dos mais divertidos filmes de Hitchcock. Vale nem tanto pela história, mas sim pela química e carisma dos dois astros, Cary Grant e Grace Kelly. Grant interpreta John Robie, um aposentando ladrão de jóias que passa a ser perseguido pela polícia quando alguém passar a realizar furtos da mesma maneira como ele fazia, incriminando-o. Robie pretende descobrir a identidade do bandido, para tanto se aproximando de uma milionária e sua filha mimada (Kelly), que podem ser as próximas vítimas. O filme é apresentado em widescreen anamórfico na proporção aproximada de 1.85:1. A Paramount poderia ter caprichado mais na qualidade da imagem, se beneficiando da película original de alta resolução filmada no formato VistaVision. Entretanto, embora a nitidez seja boa e as cores bem representadas, há muita granulação e falta de estabilidade entre os objetos e suas cores em cena, resultando em uma leve aura que cerca todos os objetos em cena. O som é apresentando no original em mono. Temos excelentes extras nesse DVD. Um documentário curto sobre o filme, porém bem completo; um documentário sobre Hitchcock com amostras raras de vídeos caseiros do Mestre do Suspense e sua família; documentário sobre Edith Head, responsável pelos figurinos; galeria de fotos e um trailer original de cinema.

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O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1956) - Refilmagem do original de 1936. A história é a mesma, porém com algumas modificações. James Stewart e Doris Day formam o casal em férias na Índia, acompanhados pelo filho pequeno, que testemunha um assassinato de um provável espião. Os comparsas do falecido, acreditando que Stewart recebeu informações do espião moribundo, seqüestram seu filho para fins de extorsão. Os fãs de Hitchcock de dividem sobre qual das versões é superior. A primeira, de 1936, se beneficiava da presença de Peter Lorre no papel de vilão e de um melhor clima de suspense. Já a versão de 1956 é melhor lembrada pela cena de Doris Day cantando “Que Sera, Será” (ganhador do Oscar de melhor canção), das cenas iniciais em Marrocos e pela aparição do maestro Bernard Herrmann regendo a orquestra, na cena do concerto. Hitchcock disse que preferia a versão de 1956, pois “enquanto a primeira de 1936 era o trabalho de um talentoso amador, a refilmagem é o trabalho de um profissional”. Esse trecho foi extraído do livro de entrevistas Hitchcock/Truffault. O filme é apresentado em widescreen anamórfico na proporção de 1.85:1. A imagem está um pouco envelhecida, mas nada que comprometa o produto final, seguindo a mesma qualidade da maior parte dos DVDs da Universal que compõe essa coleção. O som é apresentado no original em mono. Possui excelentes extras, como um documentário completo sobre o filme, fotos da produção e o trailer original de cinema.
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Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) - James Stewart interpreta o detetive aposentado que sofre de medo de alturas. Ele é contratado por um antigo colega do colégio para vigiar sua esposa (Kim Novak), que pode ou não estar possuída pelo espírito de uma antepassada que cometeu suicídio. Stewart se apaixona por ela e isso é apenas o começo de uma trama com reviravoltas e onde nada é o parece ser. O filme é apresentado em widescreen na proporção de 1.85:1. A imagem não é anamórfica, permanecendo em letterbox; entretanto, a qualidade da imagem é fantástica, com excelente definição, cores precisas e ótimo contraste. A película original de Um Corpo que Cai estava em péssimo estado de conservação, onde o resultado final com o passar dos anos seria a perda total do filme. A Universal contratou os renomados restauradores Robert A. Harris e James C. Katz para salvar o filme. Com orçamento de 1 milhão de dólares, a equipe realizou um demorada restauração totalmente manual da película, removendo sujeiras e recompondo as cores originais. O resultado foi estupendo, sendo o filme relançado nos cinemas e, posteriormente, em LaserDisc e DVD. Os elementos da áudio também estavam muito deteriorados e precisatam de uma restauração; porém, para horror dos puristas, optou-se por criar novos efeitos sonoros para substituir os originais. Foram até mesmo incluídos efeitos sonoros que não estavam na trilha original, como o canto dos pássaros na cena em que Stewart e Novak caminham juntos em uma floresta. Alguns fãs, em contrapartida, alegaram que a restauração do áudio foi feita metodicamente de acordo com instruções feitas por Hitchcock quando elaborou a trilha original. Não obstante essas alegações dos defensores e detratores, a trilha sonora presente nesse DVD é de alta qualidade. Apresentada em Dolby Digital 5.0, o som é nítido e claro, com ótima distribuição entre os 5 canais de áudio, realçando a maravilhosa trilha musical composta por Bernard Herrmann. Os extras são excelentes. Temos um glorioso documentário de mais de 1 hora de duração sobre a produção do filme e a recente restauração, trailer original e notas da produção. Infelizmente os extras possuem legendas apenas em japonês (?!), assim como todos os primeiros DVDs da Universal que eram masterizados nos EUA pensando no Brasil como um mercado de segundo plano. Hoje em dia, felizmente, praticamente todos os extras são legendados em português.

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Intriga Internacional (North by Northwest, 1959) - Hitchcock volta à velha e consagrada fórmula do “homem errado”, acusado injustamente de um crime e que tem que desvendar o mistério por sua própria conta. Cary Grant interpreta um homem comum que é perseguido por todos os cantos dos EUA por espiões e pela polícia, que acreditam ser ele um agente duplo. Entre as cenas memoráveis, podemos citar a perseguição pelo avião em um fazenda e a fuga no Monte Rushmore. Diversão garantida. A excelente trilha sonora foi novamente composta por Bernard Herrmann. Lançado pela Warner, no tocante à imagem e som, esse é o melhor DVD de Hitchcock. O filme foi restaurado recentemente e a imagem é nada menos do que espetacular. O filme é apresentado em widescreen anamórfico na proporção de 1.85:1. A nitidez é excelente e as cores, fantásticas. A imagem está completamente limpa e cristalina, como se o filme tivesse sido feito ontem. O som foi remixado em Dolby Digital 5.1 e o resultado é estrondoso. Notável como a Warner conseguiu extrair um áudio tão poderoso de um filme de mais de 40 anos. Não há muitos extras, mas são todos de qualidade. Temos um pequeno documentário, a trilha sonora isolada durante o filme (sem dúvida um must para os scoretrackers!) e trailer de cinema.

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Psicose (Psycho, 1960) - Um dos mais populares filmes de Hitchcock, conta a história de Marion (interpretada por Janet Leigh), uma secretária que furta o dinheiro do cofre de seu chefe para pagar as dívidas do namorado. Durante sua fuga, ela chega no Bates Motel, onde vive o administrador Norman Bates (Antony Perkins no papel de sua vida) e sua mãe possessiva. Contar mais seria um sacrilégio. O filme em preto-e-branco é apresentado em widescreen na proporção de 1.85:1. Mesmo não sendo anamórfica, a imagem é muito boa, com excelente nitidez e contraste. O som é apresentado no original em mono e é mais do que suficiente para esse filme. Psicose é certamente o melhor DVD de Hitchcock no tocante aos extras. Há material de sobra para deixar qualquer cinéfilo mais do que feliz. O DVD inclui um excelente documentário sobre o filme, que aborda todos os aspectos da produção; storyboards; comparação da cena do chuveiro com e sem a antológica música de Bernard Herrmann; filmagens do dia do lançamento nos cinemas em 1960; biografias do elenco; dezenas de fotos da produção; pôsteres; e um fantástico trailer onde Hitchcock nos apresenta o Bates Motel. Altamente recomendado.

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No final dos anos 50 e início dos anos 60, Hitchcock estava no auge de sua força criativa, lançando verdadeiros clássicos de sucesso um após o outro. Mas essa alegria não duraria muito, pois os anos 60 seriam marcados por sucessivas frustrações. A fase final de Hitchcock será examinada na quarta parte desta análise.

COLEÇÃO HITCHCOCK: PARTE 1 - FASE INGLESA
COLEÇÃO HITCHCOCK: PARTE 2 - FASE AMERICANA (O INÍCIO)
COLEÇÃO HITCHCOCK: PARTE 4 - UM BREVE DECLÍNIO E A VOLTA TRIUNFANTE

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