KUNG FU - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA
Diretor: Vários
Elenco: David Carradine, Keye Luke, Philip Ahn
Distribuidora: Warner

Duração:  833 min.

Região: 4
Lançamento: 19/10/2004
Nº de discos: 6

Cotações:
Filme:
DVD:

Comentários de
Jorge Saldanha

A SÉRIE
Há décadas não assistia a um episódio de Kung Fu, e rever agora a primeira temporada da série, em DVD, é uma experiência ambígua. No início dos anos 70 (o piloto e os primeiros episódios foram produzidos em 1972) a explosão das artes marciais no cinema ocidental ainda estava para começar – Operação Dragão, com Bruce Lee, estreou nos EUA somente durante a exibição da série por lá – mas Kung Fu, desde o seu início, teve uma espécie de poder hipnótico sobre os espectadores. Talvez fosse a então incomum mistura de artes marciais com western, ou então as mensagens pacifistas que, por vezes, pareciam saídas diretamente dos tempos do “Paz e Amor” quando recitadas pelo bicho-grilo Carradine; mas o fato é que a série foi um grande sucesso, inclusive no Brasil, quando exibida pela Rede Globo. Sua trama, ambientada no Velho Oeste, tem como protagonista Kwai Chang Caine (David Carradine), um jovem monge shaolin sino-americano. Enquanto ainda estava na China, Caine, num acesso de fúria, matou o assassino de seu antigo mestre Po. Fugindo para a América, ele vaga de cidade em cidade em busca de um irmão que não conhece pessoalmente, enquanto foge de caçadores de recompensa. Em suas andanças Caine prega os ensinamentos dos seus mestres, utilizando as habilidades no kung fu sempre como último recurso e apenas para defender os mais fracos e a sua própria vida. Revendo Kung Fu em DVD, os seus méritos e defeitos ficam ressaltados. Para começar, a escolha de David Carradine (que na época recém estrelara um dos primeiros filmes de Scorcese, Boxcar Bertha) para o papel do mestiço Caine mostra-se pelo menos bizarra. Nos episódios, todo mundo que o vê reconhece imediatamente sua origem chinesa – já o espectador tem que usar muita imaginação para isso. E sua perícia no kung fu é, para dizer o mínimo, canhestra. O ritmo dos episódios é lentíssimo, sempre entremeado por flahsbacks onde o jovem Caine (Radames Pera), apelidado de Gafanhoto, lembra alguma lição aprendida com os mestres Po (Keye Luke) e Kan (Philip Ahn). A coreografia das cenas de luta, em tempos de Jackie Chan e Jet Li, é tosca, e os ensinamentos da filosofia chinesa parecem saídos daqueles e-mails edificantes que inundam nossos computadores. De qualquer modo, como às vezes acontece com certos programas de TV, há uma combinação imponderável de fatores, ou qualidades, que fazem com que eles entrem para a cultura pop como verdadeiros cults. No caso de Kung Fu elegeria como tais fatores o carisma pessoal de Carradine (que apesar de não se encaixar fisicamente no papel ganha a simpatia do espectador, com uma interpretação que consegue transmitir a nobreza de caráter e a simplicidade de Caine), alguns roteiros muito bem escritos e até mesmo a idílica trilha sonora de Jim Helms. O fato é que a série marcou época e conquistou muitos fãs, entre eles o diretor Quentin Tarantino, que a homenageou em Pulp Fiction e, para interpretar o Bill nos dois volumes de Kill Bill, convidou Caine em pessoa - David Carradine.

OS DVDs
Os seis discos do box-set contém o piloto e os 15 episódios da primeira temporada da série, onde se destacam as participações especiais do pai de David Carradine, o veterano astro de filmes de horror John Carradine, de seus irmãos Keith e Robert, da atriz e diretora Jodie Foster (então uma menina de 11 anos), de Michael Greene, Moses Gunn, Robert Urich, Richard Hatch e outros rostos conhecidos da época. Na Região 1, ao contrário daqui, a Warner utilizou apenas três discos com material gravado nas duas faces. Vantagem nossa, já que em cada disco ganhamos uma imagem de Caine em ação, e foram diminuídas as chances de o conteúdo dos discos ser prejudicado por sujeiras ou arranhões. Houve um fator que provocou uma certa controvérsia nos EUA: esta primeira temporada de Kung Fu é, toda ela, apresentada com imagem no formato widescreen anamórfico 1.85:1. É óbvio que nos anos 70 não eram produzidas séries de TV com esse formato de imagem, e Kung Fu não foi exceção, sendo originalmente filmada na proporção 1.37:1 (um pouco acima da proporção dos televisores convencionais). Contudo a Warner, para demonstrar seu comprometimento com o formato de cinema, produziu novas transferências em widescreen que, por vezes, apresentam pequenos problemas de enquadramento ao cortar elementos acima e abaixo da imagem. Isso não me incomodou muito, mas os puristas alegaram que, como era um produto criado para a televisão, deveria ser preservado o aspect ratio original. E que os recursos da Warner teriam sido melhor empregados na restauração da imagem do que nestas transferências widescreen, as quais, apesar de sua boa qualidade (levando em consideração a idade da série), por vezes apresentam riscos, sujeira e granulação. Estes protestos parecem ter surtido efeito, já que as especificações técnicas divulgadas dos DVDs da segunda temporada indicam que o formato de tela dos episódios será fullscreen. O áudio é somente inglês Dolby Digital 1.0 (mono), onde os diálogos estão claros e a música soa bem, apesar de em alguns momentos estar mixada alta demais, com pequena distorção. É uma pena que não tenha sido incluída a dublagem original em português, ela daria um toque especial de nostalgia ao lançamento. As legendas estão disponíveis em português, espanhol e inglês.

OS EXTRAS
O pacote apresenta dois extras de ótima qualidade: os documentários "Do Gafanhoto a Caine: Criando Kung Fu " e "O Tao de Caine: a Produção e muito mais", cada um com quase meia hora de duração e legendas em português. Ambos são muito interessantes de se assistir, abordando questões relativas à produção da série e certas polêmicas na época de sua criação, como o de usar um tema potencialmente violento para pregar a paz e a harmonia, e a escolha de Carradine para o papel principal. Carradine explica como suas habilidades de dançarino facilitaram seu desempenho nas cenas de luta, a inspiração em Bruce Lee na abordagem filosófica e pacifista dada a Caine, etc. Contudo, o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas envolvidas tentando atrair a paternidade da idéia para si. Hoje se sabe que a idéia de Kung Fu foi de Bruce Lee, no entanto o roteirista Ed Spielman apresenta-se (e é creditado) como criador da série, e o produtor Jerry Thorpe também tira a sua casquinha. O diretor John Badham, que colaborou no início da produção, foi o único que reconheceu o envolvimento de Lee na sua criação. Um outro sujeito, que se não me engano era o presidente da Warner à época, até cita Lee, mas como se ele tivesse apenas feito um teste para o papel de Caine, sendo no entanto dispensado porque “não conseguiu se fazer entender”. A triste verdade é que o envolvimento de Lee foi totalmente eliminado porque tanto a Warner como a rede ABC acreditavam que o público norte-americano não aceitaria uma série criada e estrelada por um asiático. Se eles pudessem adivinhar…

CONCLUSÃO
Apesar do público de hoje estar acostumado às acrobacias marciais mirabolantes de filmes como Matrix e O Tigre e o Dragão, aconselho, a quem não conhece, a assistir Kung Fu em DVD. Afinal foi uma série de TV original na sua época e, ainda hoje, é um produto único, onde a arte marcial é usada essencialmente não para agredir ou matar, ou ainda para criar seqüências de ação alucinantes, mas principalmente como um meio na busca da paz e harmonia espiritual do ser humano.

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