THE LORD OF THE RINGS: THE FELLOWSHIP OF THE RING
Direção: Peter Jackson. Elenco: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, John Rhys-Davies, Sean Bean, Liv Tyler, Cate Blanchett (New Line DVD 2002 - Versão Expandida em 4 discos, Região 1)/Cotação: Filme: *****/DVD: *****

A New Line e a Warner lançaram no exterior uma versão expandida de O SENHOR DOS ANÉIS: A SOCIEDADE DO ANEL, em luxuosos Boxes com 4 e 5 DVDs. Apesar destas edições estarem disponíveis na Austrália, que pertence à Região 4 como o Brasil, infelizmente nós, terceiro-mundistas, ficamos de fora dos planos dos estúdios. Vamos analisar aqui a edição com 4 discos, e quem tiver dinheiro sobrando para adquirir este produto importado terá motivos de sobra para comemorar. Apesar de o próprio Peter Jackson avisar que não considera esse corte do filme, que contém mais de 30 minutos de imagens inéditas, como a “Versão do Diretor”, a verdade é que as novas cenas melhoram muito o filme, que já era praticamente perfeito ao ser exibido nos cinemas. Houve preocupação imensa em transformar essa nova versão em uma experiência totalmente coerente e refinada. Isso fica evidente quando percebemos que a montagem inclui várias tomadas diferentes dos que as que foram usadas nos cinemas, para que a narrativa case melhor com as cenas inéditas, cujo exemplo mais nítido vem durante o “Conselho de Elrond”.

Além disso, o compositor Howard Shore compôs e gravou músicas adicionais e totalmente novas para as seqüências inéditas, sendo que em alguns momentos elas acabam até predominando sobre a trilha anterior, o que deixa ainda maior a sensação de fluidez da montagem. Normalmente, em casos de “Versões do Diretor”, muitas cenas ou seqüências novas são simplesmente jogadas no meio da narrativa, o que resulta em “pulos” na banda sonora ou na estrutura do filme. Nada disso acontece aqui. Conforme explica o diretor Jackson, essa versão estendida é, de fato, o primeiro corte do filme já refinado, mas antes de começar a sofrer as pressões para redução da metragem. É claro que um filme com 3 horas e 28 minutos de duração seria grande demais para os cinemas, nos quais foi apresentada a versão reduzida com “apenas” 2 horas e 40 minutos (contida no DVD lançado no Brasil oficialmente). Contudo, o mais interessante é que muitas das seqüências re-incorporadas ao filme mudam completamente o seu próprio conceito editorial. No início, por exemplo, após o prólogo explicativo sobre a história do Anel, temos a apresentação dos Hobbits, que é feita por Bilbo Bolseiro (Ian Holm) enquanto inicia os trabalhos de criação de seu livro. Essa seqüência toda é bastante diferente da que foi para os cinemas, tanto em relação ao clima quanto ao ritmo, especialmente nos diálogos travados entre Frodo (Elijah Wood) e Gandalf (Ian Mckellen).

Adicionalmente, as novas cenas são muito mais focadas no desenvolvimento dos personagens e suas relações, do que em cenas grandiosas ou com grandes efeitos. Quem mais se beneficia nessa nova versão é sem dúvida Aragorn (Viggo Mortensen), cujo drama interior ganha maior destaque e profundidade. Apenas quem leu os apêndices do livro de Tolkien sabe, por exemplo, que ele foi perseguido a vida toda pelos seguidores de Sauron até acabar sendo levado por sua genitora até Valfenda, para ser criado pelos elfos – daí vem o início de seu romance com Arwen (Liv Tyler). Há a inclusão de uma bela cena na qual ele visita o túmulo da mãe, quando é interpelado por Elrond (Hugo Weaving), que tenta despertá-lo para seu destino. A relutância de Aragorn em aceitar sua herança - e as conseqüências disso para a Sociedade do Anel - são muito mais exploradas e realçadas aqui. É claro que nem todas as cenas inéditas são relevantes e muitas acabam funcionando apenas a título de curiosidade ou registro de passagens do livro que pouco acrescentam à trama. Um exemplo disso é a discussão entre os membros da Sociedade e os elfos de Lothlorién, que se recusam a deixá-los prosseguir floresta adentro. Todavia, existem algumas preciosidades nessa nova versão que melhoram muito o filme, sendo que algumas até corrigem alguns “defeitos” que denegriram a versão cinematográfica. Entre eles, temos um pequeno trecho de diálogo entre Gandalf e Frodo, nas Minas de Moira, quando o mago revela que Gollum já foi conhecido como Sméagol (informação crucial que foi deixada de fora e prejudicou o segundo filme, AS DUAS TORRES). 

Outra diz respeito à preparação da queda de Boromir (Sean Bean), que ganhou várias cenas adicionais (como ele discutindo com Aragorn, enquanto ambos vêem Gollum no rio seguindo a comitiva) e cuja batalha contra os Uruk-hais ficou mais longa e aumentou em dramaticidade. Há a inclusão de um pequeno monólogo de Aragorn, logo após a morte de Boromir, o qual culmina com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, que corrige o que parecia ser um grave defeito de montagem da versão original. Antes, ela cortava do personagem ajoelhado no chão para o close dele em pé, chorando. Agora podemos entender perfeitamente o desenvolvimento da cena, que havia ficado extremamente truncada. Outra adição saborosa foi a da distribuição dos presentes aos membros da Sociedade, onde é mostrado um lado mais ameno de Galadriel (nos cinemas ela acabou ficando sombria demais), bem como a conseqüente paixão do anão Gimli pela elfa! Ou seja: se o filme que todos viram nos cinemas (ou em DVD) já possuía qualidades inegáveis, a nova versão deixa tudo ainda melhor, mais dramático, rico e profundo, mesmo tendo um ritmo mais lento e sendo, obviamente, bastante longo.

 OS EXTRAS
Além do filme com 30 minutos a mais e com a opção do som DTS, os dois primeiros DVDs trazem ainda nada menos do que 4 faixas de áudio com comentários da produção, divididos em “O Diretor e os Roteiristas”, “O Time de Design”, “O Time de Produção e Pós-Produção” e “O Elenco” (com participação de Elijah Wood, Ian McKellen, Liv Tyler, Sean Astin, John Rhys-Davies, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Orlando Bloom, Christopher Lee e Sean Bean!).
Mas é nos próximos dois discos que somos apresentados a uma quantidade inacreditável de extras e bônus. Só de documentários estilo making of temos mais de 12 horas de material, divididos em “Do Livro à Visão” (disco 3) e “Da Visão para a Realidade” (disco 4), ambos subdivididos em uma série de capítulos nos quais cada aspecto da realização do filme é dissecado de maneira excepcional. De particular interesse é o documentário sobre a criação dos efeitos sonoros (especialmente os ruídos do Balrog feitos a partir do deslocamento de um imenso bloco de concreto!) e as diferentes técnicas usadas para deixar os Hobbits do tamanho correto (fundo azul, perspectiva forçada, uso de bonecos gigantes e dublês anões). 

E se não bastasse tudo isso, os discos ainda trazem mais de 2 mil fotos de produção, mapas interativos da Terra-Média, storyboards, testes iniciais de filmagem, animatics comparativos, etc... É uma pena que um trabalho impressionante como esse, que resultou num dos DVD mais completos e interessantes já produzidos, jamais seja lançado no Brasil. Certamente quem gostou do filme e não pode arcar com o alto preço de um produto importado estará privado de poder ver A SOCIEDADE DO ANEL de uma forma que nunca sonhou ver antes.

André Lux

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