METROPOLIS - EDIÇÃO RESTAURADA
Kino DVD Região 1/Continental DVD Região 4

O filme e sua história:
Metropolis
, lançado em 1926, é um marco da ficção-científica no cinema e um clássico absoluto. Dirigido pelo genial Fritz Lang, o filme trata de uma sociedade futurista onde a classe média e alta habitam a superfície da cidade e a classe dos trabalhadores habita o subterrâneo em condições sub-humanas. Esses últimos são liderados por Maria, que prega a união entre as classes. O representante da classe dominante desaprova as idéias de Maria, que poderiam dar início a uma revolta dos trabalhadores, e usa um robô feito na forma dela para desprestigiá-la e lançar por terra qualquer tentativa de insubordinação. É difícil imaginar que todas as edições que vimos até hoje desse filme, seja em VHS, seja em DVD, não correspondem ao filme original e sim apenas a uma junção quase sem sentido de fragmentos do original. Para melhor explicar essa afirmativa, é necessário que façamos um breve histórico do filme: Metropolis foi lançado em Berlim no dia 10 de janeiro de 1927. Projetado a 24q/s (quadros por segundo), o filme tinha 4.189 metros de filme, o que corresponde a 153 minutos de duração. Foi composta especialmente para o filme uma trilha por Gottfried Huppertz que deveria ser tocada ao vivo durante a projeção. Infelizmente a bilheteria não foi satisfatória e o filme foi retirado de cartaz. Hoje indaga-se se o público da década de vinte nas estaria preparado para um filme avançado como Metropolis.
No mesmo ano a Paramount dos EUA tinha encomendado uma cópia para exibição, e quando a recebeu não ficou satisfeito com o filme. Para a Paramount Metropolis era muito longo e precisava ser cortado para que tivesse a duração de um filme convencional, aproximadamente 100 minutos. Para que a redução não afetasse a continuidade do filme, o estúdio contratou um escritor de peças teatrais, Channing Pollock, para ajudar na reedição do filme. Pollock considerou que muitos temas do filme não fossem agradar ao público americano e, além de reeditar o filme, modificou inúmeros textos dos intertítulos alterando completamente diversas tramas do filme. Como melhor exemplo, podemos citar a importantíssimo papel da personagem falecida Hel, que foi totalmente cortada por Pollock e afetou todas as versões posteriores do filme. Nas edições antigas disponíveis em VHS e DVD, resultantes da edição modificada por Pollock, o robô foi criado pelo personagem Rotwang como protótipo para uma série de robôs que iriam substituir os trabalhadores humanos e tornar a produção mais eficaz. Joh Fredersen, criador e controlador da cidade Metropolis, ordena que Rotwang, o inventor, dê a forma de Maria para o robô para que este induza discórdia e raiva entre os trabalhadores, destruindo-os e dando lugar aos futuros trabalhadores robôs. Mas o robô perde o controle e incita os trabalhadores a destruírem as máquinas que sustentam a cidade, causando inundações e destruições. Essa é a história básica de Metropolis que estamos acostumados a ver e não representa em nada a visão original do diretor Fritz Lang. Esse é o Metropolis destruído pelas mãos de Pollock. No original concebido por Lang, ambos Fredersen e Rotwang eram apaixonados por uma mulher chamada Hel. Ela abandonou Rotwang preferindo se casar com Frederson e morreu ao dar à luz ao seu filho Freder, o herói do filme. Rotwang nunca perdoou Fredersen e ficou obcecado em trazer Hel de volta à vida, inclusive criando um monumento em homenagem a ela em seu laboratório e um robô à semelhança de sua amada falecida. Fredersen ordena que Rotwang dê a forma de Maria para o robô para gerar discórdia entre os trabalhadores, mas Rotwang tem planos diferentes. Julgando Fredersen o culpado pela morte de Hel, Rotwang programa o robô para incitar os trabalhadores a destruírem a cidade de Metropolis, se vingando assim de Fredersen. Pollock não gostou da idéia de Rotwang criar um robô para substituir sua amada falecida e foi até irônico nos comentários do porquê da modificação do filme, dizendo que “um robô seria um substituto infeliz para um homem nos dias frios do ano”. Pollock, portanto, modificou Metropolis dando ao robô um ar do monstro de Frankenstein, que também perde o controle e se rebela contra o seu criador. A trama mais importante do filme, que tratava sobre amor e obsessão, foi assim substituída por uma história de monstro fora de controle. Pollock é hoje considerado o destruidor do filme Metropolis. Todas as cenas do memorial de Hel foram consideradas destruídas durante a Segunda Grande Guerra e apenas sobreviveram algumas poucas fotos da produção.

No memorial de Hel na foto acima está escrito: “Nascida para minha felicidade e para a bênção da humanidade. Perdida para Joh Fredersen. Falecida ao dar a luz a Freder, filho de Joh Fredersen”. A produtora alemã do filme, a UFA, gostou da iniciativa da Paramount e também resolveu encurtar e reeditar o filme. Essa nova edição re-estreou em Berlim em 5 de agosto de 1927. Do original com 4.189 metros de filme, essa nova edição possuía apenas 3.241 metros. Fritz Lang abominou a destruição de seu filme, não mais considerando essa versão seu Metropolis original. Infelizmente essa versão reduzida da UFA e a da Paramount é que foram exportadas para outros países. Os negativos do filme original com 153 minutos foram considerados destruídos durante o bombardeamento de Berlim durante a Segunda Guerra Mundial. Portanto, desde 1927 até os dias de hoje, ninguém realmente assistiu o Metropolis original idealizado, filmado e editado por Fritz Lang. 

A reconstrução de um clássico considerado perdido:
Antes de falar sobre o trabalho de restauração do filme, iniciado em 1998, vamos abrir um parêntese sobre uma edição lançada em 1984 por Giorgio Moroder. Em 1981 estreou nos cinemas a restauração do clássico mudo Napoleon, de 1927, dirigido por Abel Gance. Essa restauração contou com uma nova trilha sonora composta por Carmine Coppola, pai do diretor Francis Ford Coppola. Giorgio Moroder, à época famoso compositor de trilhas sonoras de filmes, assistiu essa cópia do Napoleon e se entusiasmou com a idéia de restaurar filmes antigos com novas trilhas sonoras. Moroder escolheu Metropolis para compor uma nova trilha sonora e adquiriu os direitos para exibição do filme. As cópias às quais teve acesso estavam em estado precário de conservação, e para conseguir uma cópia melhor empreendeu uma verdadeira busca em diversos países, recolhendo cópias de todas as películas que sobreviveram. Ao juntar todas as cópias e comparando com o roteiro original, Moroder percebeu as modificações feitas por Pollock, ainda mais porque diversas cópias tinham fragmentos das cenas originais antes deste último colocar as mãos no filme. Moroder aproveitou a oportunidade para reconstruir o filme original da maneira como Lang desejava. Ao remontar o máximo que pôde do filme, Moroder achou que estava longo demais e optou por cortar algumas cenas de sua versão para não cansar o público dos anos 80. De novo Metropolis foi vítima da tesoura. Para tornar sua edição de Metropolis mais palatável ao gosto do público moderno, Moroder tingiu de cores o filme e colocou músicas cantadas por astros do rock dos anos 80. As seguintes músicas foram escritas e inseridas no filme: Love Kills (Freddie Mercury), Here's My Heart (Pat Benatar), Cage OF Freedom (Jon Anderson), Blood From A Stone (Cycle V), Here She Comes (Bonnie Tyler), Destruction (Loverboy), On Y our Own (Billy Squier) e What's Going On (Adam Ant). Moroder também retirou todos os textos em intertítulos do filme, substituindo-os por legendas que apareciam junto com as imagens. Projetado a 24q/s, esta versão de Metropolis ficou com apenas 81 minutos de duração, mas mesmo assim era a versão mais completa do filme desde 1927. Quando estreou em 1984, a edição de Moroder dividiu o público e a crítica. Alguns consideraram essa versão uma aberração, com cores e músicas modernas fora de contexto. Outros aplaudiram a iniciativa de Moroder, porque pela primeira vez em décadas Metropolis foi exibido na versão mais próxima possível do original. Além disso, essa versão do Moroder trouxe novos fãs ao filme e deu início a diversas iniciativas para a  restauração de clássicos. Voltando a 1998, a instituição alemã Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung iniciou um novo processo de restauração de Metropolis, desta vez com o objetivo de retornar o filme à sua edição original próxima de 153 minutos. Graças ao trabalho de Moroder nos anos 80, que catalogou todas as películas sobreviventes, foi possível localizar todos os elementos existentes para recriar o filme. Infelizmente constatou-se que 25% do filme estava perdido para sempre, como todas as cenas envolvendo o memorial de Hel, a perseguição que o espião “Tin Man” empreende contra Freder, e várias cenas da multidão dos trabalhadores no final. Como o intuito da restauração iniciada em 1998 era reconstruir o filme da maneira mais completa possível, optou-se em colocar fotos e textos explicativos no lugar das cenas ausentes. Após juntar todos os elementos necessários para a reconstrução do filme, foi preciso realizar uma intervenção digital para padronizar todas as imagens, a fim de não ficar a impressão de haver remendos por toda parte. O filme passou por uma limpeza manual de sujeiras e detritos na película e, posteriormente, foi escaneado para resolução 2K (2000 linhas de resolução) para finalização da limpeza por software no computador. O filme também foi copiado para novas películas de 35mm e está por enquanto a salvo do envelhecimento e deterioração. Finalizada, essa edição restaurada é a mais completa edição de Metropolis existente e com excelente qualidade de imagem. Estreou em Berlim em 2001 com duração de 146 minutos, exibido a 20q/s. Essa edição foi exibida no Brasil em 2002, no Teatro Municipal de São Paulo, com música orquestrada ao vivo. Foi uma belíssima apresentação e uma verdadeira descoberta assistir ao filme com excelente imagem e  da maneira como Lang queria. Em 2003, finalmente essa edição restaurada chegou em DVD nos EUA e na Europa, mas com algumas modificações em relação às cópias exibidas nos cinemas em 2001 e 2002. A edição da restauração exibida nos cinemas no exterior e no Teatro Municipal de São Paulo contava com uma trilha sonora composta especialmente para a restauração, mas que não agradou ao público em geral. O lançamento em DVD era uma boa oportunidade para colocar outra trilha sonora e optou-se em resgatar a trilha original do filme composta por Huppertz em 1927 para exibição ao vivo durante a projeção. Mas havia obstáculos. A trilha sonora foi composta para o filme original de 153 minutos projetado a 24q/s e a restauração tinha 146 minutos projetada a 20q/s. A solução foi aumentar a velocidade de projeção da restauração para 24q/s e recompor algumas trilhas de cenas perdidas. Finalmente o DVD da restauração está disponível no mercado internacional, mas infelizmente ainda não há previsão para seu lançamento no Brasil. Apenas temos aqui uma edição em DVD lançada pela Continental que não poderia ser pior; além de ter péssima imagem e péssima trilha sonora, essa edição é oriunda das modificações feitas por Pollock em 1927, portanto, não corresponde em nada à edição original de Lang. Veremos abaixo uma análise do DVD da restauração e comparações com o DVD nacional da Continental: 

O DVD da Kino Video:
A edição restaurada de Metropolis foi lançada em DVD em diversos países no início de 2003. Na Europa é distribuído pela Eureka e nos EUA é distribuído pela Kino Vídeo. Neste texto será analisado o DVD da Kino, que é praticamente igual à edição européia. É a edição mais completa do filme e usa textos e fotos nos lugar das cenas perdidas, para manter intacta a narrativa original de acordo com o roteiro. O DVD da Kino apresenta Metropolis na proporção de imagem original a 1.37:1. Para evitar que as laterais da imagem ficassem ocultas nas TVs com excesso de overscan, optou-se em apresentar o filme no formato windowbox, com faixas pretas rodeando o campo de imagem. Se bem que nas maiorias das TVs as faixas pretas não vão aparecer, ficando a imagem perfeitamente enquadrada na tela da TV. O filme tem a duração de 118 minutos por ter sido transferido a 24q/s para acomodar a trilha sonora original. Ressalte-se que essa é a mesma edição de 145 minutos exibida nos cinemas em 2001, que tinha duração maior por ter sido projetado a 20q/s. O DVD da Kino é uma revelação para quem está acostumado com as péssimas cópias que circularam nos últimos anos. A imagem está praticamente limpa, a nitidez está fantástica e a resolução perfeita. Metropolis nunca teve imagem tão boa desde 1927. Comparando com as edições anteriores, é incrível o quanto da imagem estava prejudicada. Vários cenários e efeitos especiais ópticos estavam ocultos nas edições anteriores. É maravilhoso verificar na restauração que os excelentes efeitos especiais impressionam até nos dias atuais. O áudio é composto por duas faixas com a excelente trilha sonora original composta em 1927. Na primeira faixa temos a trilha em 6 canais de áudio no formato Dolby Digital 5.1. Na segunda faixa temos a mesma trilha em 2 canais em estéreo, para quem não tem um sistema Dolby Digital ligado no DVD. Como extras temos:
- uma trilha de áudio com comentários do arquivista do filme, Enno Patalas. Infelizmente seus comentários se restringem a comentar o que se passa nas imagens do filme;
- Documentário de 43 minutos sobre Fritz Lang e Metropolis. Excelente e completo.
- Amostra de 8 minutos do trabalho de restauração. Excelente também e mostra o dificílimo processo de trazer Metropolis de volta a vida. Vejam na foto abaixo um exemplo da condição mais do que precária de uma película original do filme.

- Fotos de cenas perdidas, bastidores e desenhos de produção; verdadeiras relíquias.
- Biografia e filmografia do diretor e do elenco. 

Comparação entre o DVD importado da Kino e o DVD nacional da Continental:
O DVD lançado no Brasil pela Continental corresponde a uma edição da JEF Films, originada da cópia americana modificada e mutilada por Channing Pollock. Essa é a pior e mais incompleta edição existente de Metropolis. Não se iludam com a duração de 146 minutos do filme, pois essa edição foi transferida a 12q/s, quase em câmera lenta. Se transferido na velocidade correta de 24q/s (igual o original e a restauração) essa edição não chegaria a 70 minutos (contra 118 minutos da restauração). A imagem é péssima, sem definição, muito escura e com cortes nas laterais. A trilha sonora foi composta por um tal Peter Osborne e serve de remédio para insônia, de tão lenta e chata que é. Não há como recomendar essa edição de Metropolis. É certamente dinheiro jogado no lixo. A Continental inclusive colocou propaganda enganosa na embalagem dizendo que essa edição é a oficial do diretor (director’s cut), o que é um absurdo, ainda mais porque a edição do diretor foi destruída na Segunda Guerra. Abaixo seguem algumas imagens com comparações entre a imagem do DVD da Continental (à esquerda) e o DVD da Kino Video (à direita). Como podem conferir, a diferença é mais do que marcante.

Outros DVDs importados que devem ser evitados:
Como Metropolis pertence ao domínio público, várias distribuidoras lançaram edições diferentes desse filme no mercado. Todas de qualidade ruim, apresentando o filme incompleto e com péssima imagem. Exemplos:

Madacy: 120 minutos a 20q/s. É uma edição relativamente completa perto de outras piores, mas possui péssima imagem;
Navarre: praticamente é a mesma edição da Madacy, mas com imagem pior ainda. Faz parte de uma coleção de três filmes por DVD. Junto com Metropolis acompanha Nosferatu e o primeiro Fantasma da Ópera, todos com péssima imagem;
Chon Vídeo: Trata-se de uma variante da edição da JEF Films, incompleta e também com péssima imagem.

Conclusão:
O único DVD que vale a pena comprar é o importado da Kino Vídeo, que possui a melhor e mais completa edição existente de Metropolis, além da excelente qualidade de imagem e som.

Cotações:
Filme: *****

DVD da Continental: 
imagem: *½som: **extras: **
DVD da KinoVideo:
imagem: **** (dentro das limitações de um filme de 1927 considerado perdido até há alguns anos); som: *****; extras: ***** 

A realização desse texto contou com preciosas informações prestadas pelos amigos Alberto D’arce e Aitam Bar-Sagi, ambos grandes fãs de Metropolis.

Para saber mais sobre Metropolis e as diferenças entre as edições existentes vale a pena visitar o site http://www.persocom.com.br/brasilia/metrop_p.htm mantido por Augusto Cesar B. Areal, que inclusive possui uma galeria de fotos do filme colorizadas por Alberto D’arce.

Luiz Felipe do Vale Tavares

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