NOSFERATU
Direção: F. W. Murnau
Elenco:
Max Schreck
Distribuidora: Kino / Image / Continental
Região: 1 / 1 / 4
 

Comentários de
Luiz Felipe do Vale Tavares

Nosferatu é o filme definitivo sobre vampiros. Insuperável, único e assombrador. Lançado em 1922, nenhum outro filme sobre o mesmo tema atingiu o êxito do diretor F. W. Murnau. Certamente é um filme que não causa medo atualmente, mas assombra nosso subconsciente pelo resto de nossas vidas, pois Murnau criou cenas antológicas que ficam gravadas em nossas mentes. A história é uma ligeira variação do livro Drácula, de Bram Stoker, modificado propositalmente para contornar o pagamento dos direitos autorais, o que quase resultou na destruição desse filme, como veremos mais abaixo. Em Nosferatu, o jovem Hutter (personagem de Jonathan Harker no livro original) é encarregado de ir até os Cárpatos para negociar a venda de um imóvel ao sinistro Conde Orlock (Drácula no original). Orlock o faz prisioneiro e vai até Bremen (Londres no original) em busca de sangue. Mas em Nosferatu há um elemento novo na história, que consiste na contaminação da cidade pela peste negra, transmitida por ratos que viajam junto com Orlock. A cidade de Bremen encontra o verdadeiro pesadelo na figura da doença, que se espalha e mata rapidamente, e na figura do vampiro que aumenta cada vez mais seu número de vítimas.

A verdadeira alma desse filme é o ator Max Schreck, que interpreta o Conde Orlock. Ao contrário dos vampiros mais comumente encontrados nos filmes, que são figuras belas e românticas, Orlock é um cadáver ambulante. Com feições animalescas, dentes de rato, orelhas pontudas e unhas gigantes, Orlock representa a figura de um predador. É certamente o vampiro mais ameaçador e assustador já visto em um filme. Só por curiosidade, o sobrenome “Schreck” do ator significa “Medo” em alemão. Recentemente foi feito um filme, A Sombra do Vampiro, que conta uma história fictícia sobre as filmagens de Nosferatu, onde Max Schreck seria um vampiro de verdade, contratado para dar o máximo de realismo ao filme em troca do pescoço da atriz que interpreta Ellen, a esposa de Hutter. É um bom filme, que poderia ser muito melhor se explorasse todo o potencial da história, e que se sustenta na magnífica atuação de Williem Dafoe no papel de Max Schreck. Mas voltando a este Nosferatu, o filme faz parte do movimento do Expressionismo Alemão, que consistia no uso de sombras, cenários distorcidos, representações sinistras e exageradas. Outros filmes que fizeram parte desse movimento foram O Golem, O Gabinete do Dr. Caligari, A Última Gargalhada, Fausto (esses dois últimos também dirigidos por Murnau) e M (também comentado nesta seção). O uso de sombras é espetacular em Nosferatu, representando a presença do vampiro sem que o vejamos. Francis Ford Coppola homenageou Nosferatu usando os mesmos efeitos e outros elementos em seu Drácula de 1991.

Outro efeito magnífico usado em Nosferatu e posteriormente copiado em dezenas de filmes de vampiros é a cena do Orlock levantando-se ereto de seu caixão. Há uma certa conotação erótica nessa cena, que parte do próprio mito do vampiro, que é um ser que viola suas vítimas através de um contato íntimo. Sobre os direitos autorais, a viúva de Bram Stoker tomou conhecimento da existência do filme Nosferatu e processou os produtores. Estes perderam na Justiça, que sentenciou que todas as cópias deveriam ser queimadas. Felizmente, algumas poucas cópias já haviam sido distribuídas para outros países e sobreviveram. Por pouco esse clássico não chegou aos dias de hoje para conquistar novos fãs. Nos anos 70, o renomado diretor alemão Werner Herzog realizou uma refilmagem de Nosferatu com Klaus Kinski no papel do vampiro. Não tão bom e importante como o original, mas ainda assim é um excelente filme, que explora a solidão do vampiro e a tormento de viver eternamente como um morto-vivo. Esse filme está disponível em DVD nos EUA pela Anchor Bay.

Imagem:

Edição da Kino Video: Apresenta a melhor e mais completa edição de Nosferatu. O filme tem agora uns 7 minutos adicionais que complementam algumas cenas, ou seja, representam uma extensão de cenas que eram terminadas abruptamente em outras edições. Como resultado, o filme flui muito melhor e tem acentuada a sensação de suspense. A única verdadeira cena que não se trata de uma extensão é um jogo de cricket entre alguns familiares de Ellen. Esse DVD é também o que apresenta Nosferatu com a melhor imagem dentre todas as edições existentes. Restaurado pela Cineteca del Comune di Bologna, é hoje a edição oficial reconhecida pelo espólio de Murnau. Utilizando os melhores elementos de todas as cópias sobreviventes, a imagem é mais nítida e melhor detalhada. Fios de cabelos, letras em papéis, detalhes nas roupas etc, tudo pode ser visto de forma mais nítida. Essa edição é tingida em cores, porém não tão saturada como na edição da Image, que inclusive utilizou cores erradas em algumas cenas; isso foi corrigido na edição da Kino.

Edição da Image: Até o lançamento do DVD da Kino Video, essa edição da Image era considerada a melhor apresentação do Nosferatu existente no mercado. Agora que temos uma imagem com qualidade muito superior na edição da Kino, podemos constatar algumas imperfeições na edição da Image. Comparada com a edição da Kino, a da Image apresenta imagem mais borrada, sem muita definição e com foco irregular. Como essa edição passou por uma restauração digital, a única vantagem que leva sobre a edição da Kino é a estabilidade da imagem, ou seja, a imagem não treme tanto como nessa última edição.

Esse DVD da Image é o segundo de Nosferatu lançado por essa distribuidora. A edição antiga, hoje descontinuada, possuía imagem de qualidade inferior, apenas uma trilha de áudio e poucos extras. As embalagens são muito parecidas e pode confundir o consumidor desavisado. A diferença reside na cor das embalagens. Na edição antiga a foto do rosto do Conde Orlock é cinza; na edição especial restaurada a foto é vermelha. 
 

Edição da Continental: A distribuidora nacional usou a mesma cópia da edição da Image e quase tudo que foi escrito acima se aplica a essa edição. Entretanto, a Continental usou um master analógico e, como conseqüência, a imagem final do DVD apresenta noise excessivo e maior entrelaçamento; a definição é também mais baixa. Além disso, enquanto a Imagem usou um DVD-9 (de camada dupla e maior capacidade), a Continental usou um DVD-5 (de menor capacidade); em decorrência, foi utilizada uma compressão maior para a autoração desse DVD, resultando em artefatos digitais bem visíveis na imagem.

Som:
Edição da Kino Video: Possui opção entre duas trilhas sonoras para acompanhar o filme. Uma composta por Donald Sosin, em estéreo, que é a melhor trilha sonora que já ouvi para Nosferatu; não é repetitiva como as demais de outras edições e colabora para o clima opressor do filme. A única ressalva é a má utilização de um gemido feminino sempre que a personagem de Ellen grita de pavor, mas como é pouco utilizado, não compromete tanto o resultado final. A segunda trilha, também em estéreo, foi composta por um grupo chamado Art Zoyd e é tão ruim que chega ao insuportável; trata-se apenas de sons eletrônicos que não passam de um clone medíocre do genial  Nine Inch Nails. Se estes últimos tivessem sido contratados, teríamos uma trilha de qualidade, sem dúvida.

Edição da Image: Também possui opção entre duas trilhas sonoras. Uma mais moderna pela Silent Orchestra e outra composta de apenas de um órgão executado por Timothy Howard. A trilha da Silent Orchestra é um misto de rock, jazz e música clássica. É bem executada, mas não funciona perfeitamente com o filme. Em algumas cenas acertaram com a música correta, em outras erraram feio. É apresentada em Dolby Digital 5.0 e tira bom proveito de todos os canais. Os instrumentos se restringem basicamente nas três caixas frontais, sendo que as caixas traseiras são usadas para realçar a ambientação. A trilha de órgão por Timothy Howard é a melhor opção para acompanhar o filme nesse DVD, porque representa melhor o clima das cenas e se parece mais com uma trilha executada ao vivo para um filme mudo nos anos 20. É bela e ao mesmo tempo sinistra. É apresentada em simples estéreo, mais do que suficiente para fornecer uma boa apresentação.
Edição da Continental: Apresenta as mesmas trilhas da edição da Image, porém a trilha da Silent Orchestra é apresentada apenas em Dolby 2.0 Stereo.

Extras:
Edição da Kino: Possui poucos extras, mas todos interessantes. Temos amostras de outros filmes dirigidos por Murnau (Fausto, A Última Gargalhada, etc.), com aproximadamente 6 minutos cada segmento; a cena da primeira aparição do Orlock em 4 versões: texto literal do livro "Drácula", texto do roteiro de Nosferatu, uma gravação narrada por Orson Wells para o rádio no fim dos anos 30, e a própria cena do filme em sí; e uma galeria de fotos raras do filme e alguns pôsteres.

Edição da Image: No setor de extras a vencedora é a Image. Há vários suplementos que irão agradar aos fãs mais vorazes desse filme. Há uma trilha de comentários por Lokke Heiss. Ele dá uma verdadeira aula sobre diversos aspectos do filme e algumas informações sobre os bastidores das filmagens. Não é exatamente uma trilha com comentários bem animada, pois Heiss é bem sério durante toda a apresentação, mas a riqueza de informações é bem vinda. "Nosferatu Tour" é um suplemento muito interessante que mostra fotos atuais de diversas locações onde Nosferatu foi filmado, como no exemplo abaixo.

"A Cena da Carruagem" é outro extra bem interessante que mostra como o diretor Murnau filmou a cena em que a carruagem leva Hutter até o castelo de Orlock. Para obter um efeito fantasmagórico, Murnau usou os negativos da película durante essa cena. O suplemento mostra a cena original e como teria sido se fosse usado o positivo. Abaixo seguem duas imagens para fins de ilustração. A imagem da esquerda é o negativo utilizado, onde podemos verificar a sinistra paisagem alcançada com esse simples efeito. A imagem da esquerda é o positivo, onde podemos ver que Murnau vestiu os cavalos e o cocheiro com cores branco e preto invertidas para que ambos ficassem com as cores corretas no negativo.

"Fotos da produção e de pôsteres": há poucas fotos, mas são verdadeiras preciosidades, principalmente as do ator Max Schreck sem maquiagem durante uma apresentação teatral.
Edição da Continental: contém apenas breves biografias e uma galeria de pôsteres e fotos da produção, que também estão presentes na edição da Image com melhor qualidade.

Conclusão: Nosferatu é um clássico obrigatório e um dos melhores, senão o melhor, filme de vampiros já realizado. É um item indispensável para qualquer coleção de clássicos do cinema. A recomendação é pelos DVDs da Kino ou da Image, que são os DVDs de qualidade superior e que apresentam extras bem interessantes. Opte pela Kino se quiser a melhor e mais completa versão do filme. Opte pela Image se quiser os melhores extras. Se for um colecionador com recursos suficientes, compre os dois, pois uma edição completa a outra. Se for pelo preço baixo, a indicação é pelo DVD da Continental, de qualidade um tanto inferior ao DVD da Image, mas de qualquer forma muito melhor do que as cópias VHS existentes no mercado nacional.

Cotações
Filme:
DVD da Kino: imagem:
(dadas as limitações de um material de 80 anos de idade); som: ; extras:
DVD da Image: 
imagem: ; som: extras:
DVD da Continental: 
imagem: som: extras:

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