TRILOGIA DAS CORES DE Kieslowski
Direção: Krzysztof Kieslowski
Distribuidora: Versátil
Região: 4

Ano: 1999
Nº de discos: 3

Cotações:
Filme:
DVD:

Comentários de
Cristiano Leal

Há tempos disponíveis no mercado de vídeo brasileiro, os DVDs de A Trilogia das Cores apresentam os três últimos filmes dirigidos pelo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, tendo como tema as cores da bandeira francesa e os conceitos "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", da Revolução Francesa, vistos sobre a ótica dos dias de hoje. Trata-se de uma obra representante daquilo que se convencionou chamar da "cinema de arte" (o que eu descordo, afinal qualquer filme é arte, mesmo que arte extremamente medíocre) com grande sucesso de público e crítica em vários países, tendo sido indicada a três prêmios Oscar - direção, roteiro e fotografia (o terceiro filme, "A Fraternidade é Vermelha"). Sendo um grande admirador do trabalho deste visionário, vibrei quando soube de seu lançamento em terras brasileiras. Com todas as possibilidades apresentadas pelo formato DVD, como seria maravilhoso assistir a esta obra! Três filmes que fazem parte de um todo mas não são seqüências imediatas um do outro. Uma obra que só se compreende ao assistir aos três, na ordem das cores da bandeira da França, azul, branco e vermelho. Imediatamente adquiri os três títulos, "A Liberdade é Azul" (na verdade, recebi de presente), A Igualdade é Branca" e "A Fraternidade é Vermelha". Havia um porém: no site da DVD Versátil, empresa que lançou os títulos no Brasil, havia na ficha técnica dos mesmos, a seguinte informação: "Formato da Tela: Fullscreen". Como há alguns anos a Look Vídeo havia lançado a obra em VHS (que também possuo), suspeitei que talvez tivessem sido aproveitados os mesmos masters anteriormente utilizados pela distribuidora. Resolvi assim mesmo arriscar meus míseros e suados reais e ver o que teria em mãos. E infelizmente eu estava certo. E o pior é que não acaba aí. Há sérios problemas quanto ao planejamento desse lançamento no Brasil. Aqui vai uma lista dos defeitos encontrados nos DVDs:

1. A imagem está suave demais, nem parece um DVD mas sim as fitas lançadas pela Look, que tenho aqui para comparação. As cores estão desbotadas, sem a menor definição. A melhor imagem (porque não dizer, a menos ruim?) dos três foi a do primeiro, "A Liberdade é Azul", que ainda se mantém um pouco mais clara e definida, desde que não sejam cenas à noite. A partir do segundo, "A Igualdade é Branca", as coisas só tendem a piorar. Dos três, "A Fraternidade é Vermelha" foi o mais prejudicado, apresentando inclusive os lamentáveis dropouts e falhas de vídeo em determinadas cenas (como por exemplo, na cena do boliche). Parece até que estamos vendo uma velha e bem usada fita em VHS! É mais do que óbvio que eles devem ter usado os mesmos masters utilizados pela Look Vídeo.  Esse mesmo defeito pode ser encontrado logo no início de "A Igualdade é Branca", durante os letreiros de abertura;

2. O enquadramento, que no terceiro filme (o meu preferido) é muito mais essencial do que nos outros dois anteriores, está seriamente prejudicado pelo fato da imagem ser em fullscreen. Nas conversas entre Valentine e o Juiz, há vezes em que não conseguimos ver o rosto de Jean-Louis Trintignant e quase não dá para perceber o de Irene Jacob. Isso também ocorre na cena final, com o rosto de um dos personagens (não devo contar mais detalhes sobre essa cena, pois fecha com chave de ouro a trilogia). Também ocorre quando Valentine e o seu vizinho quase se encontram num cruzamento (ele derruba o livro de direito no chão), pois a luz de freio, em vermelho, enquadrada em primeiro plano quase que desaparece, acabando com as intenções do diretor de banhar quase todas as cenas em um tom de vermelho;

3. Há um pequeno descuido na seção Notas de Produção de "A Liberdade é Azul": quando se lê "as negociações começaram há cerca de 2 anos". 2 anos com relação a que? Ao lançamento do filme, à sua produção, às filmagens? Não seria melhor algo como "começaram em 1992, cerca de 2 anos antes do início da produção"? Tudo bem, é um errinho mas que acaba por tirar a credibilidade quanto à precisão das informações, mostrando que não houve um cuidado maior na revisão final dos extras;

4. E mais: acho inconcebível que não tenham legendado o trecho da carta de Paulo aos Coríntios, durante a cena final de "A Liberdade é Azul", quando a sinfonia pela unificação da Europa é executada na trilha sonora. A letra é importantíssima para compreensão do final do filme. Mas se você for ler a sinopse, lá está ela, em toda a sua glória, na última tela! Se a letra está lá, se eles sabem qual é a fonte do texto (Coríntios, 13 - Versículos 1 a 13), porque não colocá-la onde realmente deveria estar, durante a exibição do filme?

5. Há também uma falha grave nas legendas de "A Fraternidade", aproximadamente aos 57:38, quando o juiz diz que por causa de suas denúncias, "ela conheceu um outro rapaz", esta frase simplesmente não aparece, tendo eu que mudar o áudio para português para descobrir o que foi dito. Não sei se tem a ver com o meu aparelho. Teste no seu para ver se o defeito aparece;

6. Mas o que eu achei triste de ver é o chamado "trailer" que eles colocaram nos extras em todos os três discos: amador, sem lógica, uma colagem de cenas parece que feita às pressas, apenas para tapar buraco. Puxa, vocês estão em São Paulo! Será que não existem bons editores de imagens por aí? Ora, se não foi possível para a Versátil encontrar o trailer dos filmes, melhor seria não ter inventado coisa alguma, ao invés daquilo, concorda? Só para ter uma idéia, a imagem do trailer mais parece a cópia da cópia da cópia de um vídeo em VHS, com as legendas das fitas da Look Vídeo: simplesmente tétrica;

7. Outra coisa: para que incluir a sinopse do filme no próprio DVD? Por acaso quem comprou ou alugou vai preferir ler a estória na tela da TV, página após página, ao invés de simplesmente assistir ao filme?

8. Pelo que me parece, as entrevistas nos extras foram originalmente exibidas no Euro Channel, e o entrevistador parece ser o crítico de cinema Rubens Ewald Filho. Porque então este não foi identificado? Serviria no mínimo de marketing para o disco. Porque a entrevista com Kieslowski é a mesma nos três discos? Mistérios... mistérios...;

9. E, last but not least, faltou mencionar nos extras o excelente trabalho de Andréa França, o livro "Cinema em Azul, Branco e Vermelho - A Trilogia de Kieslowski", onde ela analisa esta obra, sendo portanto leitura indispensável para quem desejar compreender um pouco mais sobre o processo de pensamento deste grande diretor. Encontra-se listado no site da Livraria Cultura, mas não sei se ainda está disponível para compra ou encontra-se esgotado.

Para não dizerem que estou sendo duro, injusto ou irresponsável com a minha resenha deste lançamento, tenho a dizer que pelo menos a Versátil parece ser uma empresa ousada. Eles tiveram o cuidado de ao menos colocar belos labels nos discos e escolher títulos a dedo, além de colocar belos e elegantes menus e de inserir textos com informações interessantes sobre a produção dos três filmes. Infelizmente parece não ter havido o devido cuidado na concepção e finalização destes três títulos tão importantes para o catálogo de uma empresa de vídeo. Tudo bem, não é uma empresa grande e cheia de recursos, como as majors americanas. Nem sempre é possível ter em mãos masters de qualidade. Mas os erros existem, são um fato consumado. É só colocar os discos para tocar e você poderá testemunhá-los também. Faltou cuidado quanto à Trilogia das Cores em DVD. São deslizes graves que estragam o prazer de  assistir a tão importante obra-prima do cinema, principalmente que, considerando-se os quase R$ 100,00 gastos em sua aquisição, é de se esperar um excelente resultado, o que não se deu neste caso. O que parece ter faltado foi a consciência de que neste mercado específico não basta apenas ter um título de peso para oferecer ao consumidor. É preciso mais do que isso. É preciso ter uma idéia de conjunto, de harmonia entre as partes de um todo. Não adianta nada uma embalagem bonita, com um label maravilhoso sobre o disco, se o conteúdo deixa a desejar. Se você quiser algo de melhor qualidade, é melhor controlar seu impulso de comprar os discos. Se possível, alugue-os e  tire suas próprias conclusões. É um lançamento que talvez (repito: talvez) valha a pena comprar se você for realmente um adorador da Trilogia, como eu. Afinal, apesar de tudo, a mensagem de Kieslowski ainda é poderosa, mesmo que suas cores estejam desbotadas pelo descuido. Agora, se tiver recursos, o ideal é importar as versões disponíveis na Região 1, lançados depois dos DVDs brasileiros e com imagem e som muito superiores.

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