ZARDOZ
Direção: John Boorman
Elenco:
Sean Connery, Charlotte Rampling, Sara Kestelman
Distribuidora: Fox

Região: 4

Lançamento: 13/01/2003

Nº de discos: 1
Cotações:
Filme:
DVD:

Comentários de
Guilherme De Martino

Fantasia futurista clássica do provocativo diretor inglês John Boorman, então em sua fase "delirante". Boorman vinha da consagração com o marcante Deliverance (Amargo Pesadelo, 1972) e havia deixado seu nome associado a filmes quase experimentais como o notável policial Point Blank (À Queima Roupa, 1967) ou o drama de guerra Hell in the Pacific (Inferno no Pacífico, 1968). Depois de Zardoz, Boorman colocaria a carreira em sério risco com o desastroso Exorcista II (1977) e só voltaria à boa forma com Excalibur (1981), para posteriormente "sossegar" como um realizador seguro em Emerald Forest (A Floresta das Esmeraldas, 1985) e Hope and Glory (Esperança e Glória, 1987). Como de hábito no cinema de ficção da época, Zardoz também explora a vertente da ruptura social, sugerindo o futuro da sociedade dividida em dois blocos distintos: os muito evoluídos e os regredidos. Os evoluídos desenvolveram alta capacidade telepática, detém um saber vastíssimo e alcançaram a imortalidade. Vivem no paradisíaco Vortex (isolados por paredes invisíveis) em uma cidadela à beira de um lago (o mesmo lago mais tarde utilizado em Excalibur). Do lado de fora, a ordem é mantida pelos exterminadores de homens, adoradores do deus Zardoz (personificado por uma gigantesca e flutuante cabeça de pedra), que evitam o crescimento da população externa através da matança desenfreada.

Ambientado em 2963, Zardoz conta a aventura de Zed (Connery), um dos exterminadores que circundam o Vortex (alguma alusão ao córtex cerebral?) e que consegue se infiltrar na sociedade dos telepatas desencadeando uma revolução. E a aventura segue em uma cativante profusão cênica que beira o surreal em inúmeras passagens. Curiosamente o filme não faz uso de efeitos óticos e grande parte do que se vê foi encenado diretamente diante da câmera, utilizando técnicas bastante simples como jogos de espelhos, projeções sobre superfícies, e até mesmo sobre os atores, para seqüências "sensoriais", bastante em voga depois da "viagem" de 2001. O máximo de efeitos que Boorman utiliza são sobreposições e filme retrocedido (de trás para frente), o que reforça a característica "teatro ao vivo" sugerida na narração de abertura. Não é por acaso que Boorman opta pela prestidigitação cênica e não um pretenso engodo high-tech. Também não é por acaso que um dos personagens principais é um mágico. Zardoz é um produto típico de sua época. Cria direta da lisergia-pop dos anos 60. Em nenhum outro momento da história cinematográfica se viu a mesma liberdade "psicodélica", o futurismo kitsch, a experimentação narrativa ou a excentricidade desmedida que transborda em cada cena de Zardoz. É verdade que muita coisa envelheceu na fita. A mise em cene é sofisticada em seu conceito mas ao mesmo tempo, inegavelmente B em seu despojamento. A idéia de se fundir em uma sociedade futura, o passado (carroças, moinhos de pedra) a artefatos tecnológicos culminou em uma produção visual bastante curiosa. Algo entre o filme de arte e o cinema B.

O filme nunca pretendeu se vender como uma super-produção e para os olhos de hoje, saturados de CGI high tech de ponta, talvez seja difícil aceitar a plasticidade literalmente "de plástico" em diversos  momentos (as estufas e os corpos embalados, por exemplo). Mas o pior talvez seja o look de Sean Connery de sunga vermelha, cabelo preso em rabo de cavalo, costeletas gigantes e "bigodão Burt Reynolds" (aliás, o próprio Burt Reynolds foi cotado para o papel antes de Connery, e por motivo de doença não participou da produção). Mas o aspecto visual do personagem é um detalhe mínimo: a força "animalesca" do ator é perfeita para o personagem e Connery é insubstituível, seja em que figurino for (Boorman não poupa elogios a ele nos comentários de áudio). Zardoz é um filme fantasioso e provocante, e representa um tipo de cinema que precisa ser reaprendido com urgência. Como Barbarella, Rock Horror Show ou Fuga do Século 23, as características datadas do filme são justamente sua maior virtude. Para as platéias com menos de 30 anos, no entanto, pode ser um filme culturalmente tão distante quanto o cinema expressionista. Diferentemente do cinema presunçoso dos dias atuais, o filme tem o desprendimento suficiente tanto para trilhar a intrincada narrativa a que se propõe e assumir seus excessos, quanto em não se levar totalmente a sério. A "cabeça" de Arthur Frayn (o mágico que tem função determinante nos acontecimentos) apresenta o prólogo de forma irônica, situando o filme diretamente ao expectador como um mestre de cerimônias circense. Também fica na lembrança a frase "foi tudo uma grande piada", dita por um dos personagens à beira da morte. A trilha sonora utiliza variações da 7ª Sinfonia de Beethoven em um primoroso trabalho do compositor David Munrow. Naturalmente, a trilha segue o modelo do período (pós-2001), quando muitos filmes de ficção optaram por música clássica para adicionar um certo toque de erudição, ou sofisticação, ou excentricidade. Ou os três juntos. Foi assim com Laranja Mecânica (novamente Beethoven), com Soylent Green (as projeções na clínica do suicídio tinham música de Grieg, Tchaikovsky e Beethoven) e Rollerball (que ficou bastante associado à Tocata e Fuga de Bach).

A cópia em DVD da Fox felizmente está editada no widescreen anamórfico original (que deveria ser regra para todo DVD), 2.35:1, áudio em inglês Dolby Digital 3.0 (!) e tem a dublagem em português original das exibições da TV (alguém se lembra da saudosa "Sessão de Gala" nos sábados à noite? Aliás é uma prática bastante saudável a alternativa de dublagem nos DVDs. O próprio Zardoz é um filme que se beneficia da dublagem por sua trama intrincada e difícil). Infelizmente os extras deixam um pouco a desejar: o trailer de cinema é praxe (mas sempre bem vindo) nas edições em DVD, e além dele constam uma galeria de fotos (promocionais) e alguns concepts artísticos de figurinos e cenários, além de quatro spots (chamadas publicitárias) de rádio. O maior interesse são os comentários de áudio do próprio diretor John Boorman (em inglês) com momentos bastante divertidos. Boorman conta sobre a dificuldade de convencer Connery a se disfarçar de noiva para uma seqüência e que para atuar como os miseráveis, que representam a parcela humana degenerada vivendo fora do Vortex, foram recrutadas pessoas realmente das ruas. "Foram os melhores atores com quem já trabalhei" diz ironicamente o diretor, "não reclamavam de nada, estavam sempre dispostos e achavam ótima qualquer comida que lhes fosse servida". Destaque também deve ser dado ao discreto e agradável acabamento das interfaces, algo que parece ser tratado de forma equivocada pela maioria dos lançamentos em DVD.

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