DEPOIS DE HORAS (After Hours, EUA, 1985)
Gênero: Comédia
Duração: 94 min.
Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom, Tommy Chong, Linda Fiorentino, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Catherine O'Hara, Dick Miller
Estúdio: Warner
Compositor: Howard Shore
Roteirista: Joseph Minion
Diretor: Martin Scorcese

O Sonho nova-iorquino 

Martin Scorsese penetra novamente no pesadelo urbano, dessa vez filmando a orgânica e as improbabilidades de um pesadelo de fato

De ruas desertas, da agonia da insônia, do horror pulsante da impossibilidade - irreal - da simples volta para casa. Tragicômico. Dos percalços prenunciados. Articulando todos estes termos, Martin Scorsese vasculha mais uma vez os entulhos da Nova Iorque insana. Pedaços de verdade - ruas, bares - e pedaços humanos. Indivíduos que vivem um universo à parte, personagens de uma cidade perturbada e focada sob olhar cúmplice e, aqui, espirituoso do diretor. Scorsese parece amar realmente a loucura e a deterioração de seu viveiro. 

O autor volta ao seu habitat natural e torna a exercitar seu tema por excelência, o pesadelo urbano. Mas aqui temos uma leitura singular para este tema, pois Scorsese o realiza de maneira literal. Isto é, com traços que remetem mesmo aos códigos e à orgânica de um sonho, ruim e opressor.

O filme, de 1985, fala sobre algumas horas da vida de Paul Hackett, um rapaz que embarca em um pesadelo pela noite nova-iorquina da época. Conhece uma garota, após o melancólico e tedioso expediente de trabalho, e é tomado por desejo. Se encontra com ela mais tarde e, a partir deste acontecimento, passa a se confrontar com uma série de coincidências improváveis e situações persecutórias. O retrato desses eventos varia entre o atemorizante e o cômico - a própria questão da perseguição é envolvida por motivos cômicos (a musiquinha de um certo furgão de sorvetes - maluquice). Personagens aparecem aos montes, como enviados, transtornados portadores das "senhas" do infortúnio que vai acompanhando Paul. Parecem seres existentes apenas naquela noite, na trajetória de Paul. Talvez escolhidos por seu inconsciente (loiras, loiras e loiras).

Paul leva um cotidiano banal e sistemático. Em seu âmago reside um clamor pela aventura, em oposição à vidinha tola; vidinha de processamento e de dados. No decorrer da aventura, interessante é o ligeiro raio X que o filme aplica sobre a noite nova-iorquina dos anos 80. Gays em franca liberdade, esquisitices no âmbito cultural e festas punks são peças que decoram e intermediam as ações do filme.

Se em TAXI DRIVER Scorsese pesquisa o tormento e o florescer da alucinação e do ódio em uma certa criatura, solitária, que não consegue dormir à noite, vai trabalhar em um táxi e acaba, gradativamente, tornando-se íntimo do lixo social e urbano, em BRINGING OUT THE DEAD, 14 e 23 anos mais novo que DEPOIS DE HORAS e TAXI DRIVER respectivamente, o diretor vai buscar as traduções para o esgotamento, para o não suportar mais. DEPOIS DE HORAS está entre esses dois filmes e é a história de uma noite. Da aventura que leva o personagem a uma experiência noturna perturbadora. Nos três filmes, no entanto, o autor nova-iorquino da urbanidade suja conta a história do ser consumido e sugado pelos mecanismos selvagens de absorção, do cotidiano ou da cidade cronicamente adoecida. Também nos três filmes, o diretor constitui uma relação de amor com a repugnância e com as imperfeições que retrata. O limite humano, os fantasmas da cidade (ok, em DEPOIS DE HORAS tratados de maneira relativamente próxima do burlesco) e a sujeira, ao mesmo tempo que oprimem e, de certa maneira, enojam, viram poética anti-lirista das ruas, e fragmentos do inconsciente de Nova Iorque.

Em DEPOIS DE HORAS, a orgânica do pesadelo conhecemos através da sensação, que Scorsese tece via refinada narrativa-cinema, de aflição interminável e impiedosa. Um sentimento de fuga perpétua e de opressão. Com instrumentos kafkianos, do condenado que desconhece o crime cometido, e de flerte com uma espécie de realismo fantástico nova-iorquino, o realizador obtém uma dinâmica apurada para a execução fílmica do sonho pesado. E narra em ritmo incansável (o filme é curto e agilmente editado) e impressionante a fantasia do oprimido e as improbabilidades daquele sonho.

Perdido em um bairro desconhecido, uma espécie de domínio estrangeiro, com paisagens e esquinas agressoras, o personagem corre e sobe escadas repetitiva e recorrentemente. Escadarias e mais escadarias, subir e descer - mais um código de pesadelo encontrado. Ele foge, se esconde, até tornar-se uma escultura, figura pertencente à urbanidade non-sense daquele país assustador e inóspito, que é o que Scorsese parece querer pintar no Soho, em Nova Iorque. Não só a orgânica do pesadelo é explorada por Scorsese. O outro membro importante do filme é a mecânica do tempo. Relógios são procurados e contemplados pelos quadros do caminhar infindável de Paul. Relógios que parecem querer dizer que o tempo está passando, que o pesadelo está acontecendo, de fato, minuto a minuto. Paul Hackett não dorme. E não apenas as pessoas o perseguem. O tempo também.

Howard Shore, compositor que voltaria a trabalhar com Scorsese em GANGUES DE NOVA IORQUE, cria o principal artifício simbólico da interferência do tempo na narrativa de DEPOIS DE HORAS. Sua música, escrita à pena melancólica, tem uma espécie de fundo rítmico que pode ser confundido perfeitamente com o barulho de um relógio em pleno funcionamento, vivo. Além de Shore, o diretor também trabalhou com peças de Mozart e de Bach. Deste último, temos a belíssima "Air Overture" como ponto de partida da jornada. É possível crer que, através de uma manobra de Scorsese, Bach surja para santificar, estranha e lindamente, a viagem que vem a seguir.

Paul Hackett é produto asfixiado lentamente pelas frustrações e "sem-gracices" de uma nova época, flagrada - talvez involuntariamente - em sua gênese pelo filme. A sistematização das pessoas, a banalização, cada vez mais gritante, do cotidiano e a necessidade da fuga. Paul, querendo uma escapatória daquela normalidade estéril, agarra a perspectiva de fuga. Entretanto acaba tendo mesmo que fugir de uma curiosa fantasia, de um pesadelo submundano decorado por doidices da cidade. No final, assustado, ele deseja a volta à banalidade tradicional, ao lar, ao normal. Acordar para, finalmente, poder dormir. Em meio à escuridão, Scorsese corta e enquadra com categoria. Pelas afinidades incríveis que percebemos entre o ato de filmar e o que é filmado, não é complicado perceber que há em Scorsese um pouco de Paul Hackett, ou vice-versa (a mesma relação existia com Travis Bickle, em TAXI DRIVER). A impressão é de que este autor consegue viver, sim, o pesadelo nova-iorquino - para posteriormente sacramentá-lo, nas películas. Confeccionar as películas talvez seja uma forma de acordar, a salvo.


Cotação:
****

Claudio Szynkier
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