Ouvindo: O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

“Emoção, humor e sensibilidade na trajetória de um garoto que vive seu rito de passagem cercado pela magia do futebol, descobrindo o valor da amizade, solidariedade, o sexo e a maior das lições: não se pode controlar cada lance da vida, como em uma solitária partida de futebol de botão” – Cao Hamburguer

O sucesso de um filme dá-se por vários motivos. Uma interpretação de um ator específico, um roteiro super envolvente, uma fotografia de extrema sensibilidade, uma direção majestosa, são quesitos que transparecem não só na escolha do público em assistir, mas também na formatação de uma “obra de arte”.

O filme O Ano em que meus Pais saíram de Férias (2006), do diretor Cao Hamburguer, possui todos os quesitos acima, o que demonstra um momento de maturidade e profissionalismo do cinema nacional. Porém, um dos quesitos que mais me fascinou no filme foi sua música. Sensível, direta e consciente do seu papel dentro da obra audiovisual. A trilha sonora original possui um caráter envolvente que a posiciona não somente como acompanhamento da cena, mas preferencialmente com uma importância semântica na narrativa fílmica proposta.

Ao final do filme, não pude sair do cinema antes de ver grande parte dos créditos, a fim de saber quem era o compositor de tamanha obra arte: Beto Villares. Um compositor novo, atento às novas tecnologias e à música contemporânea. Em seu currículo, além do trabalho autoral Excelentes Lugares Bonitos, lançado pelo selo Tratore, produções de artistas de grande porte, como o disco Sortimento de Zélia Duncan, Ao vivo da banda Pato Fu, além do projeto Música do Brasil de Hermano Vianna.

No que diz respeito à trilha sonora, pensei ser de um compositor novato. Engano meu! Em seu currículo, há filmes como Abril Despedaçado de Walter Salles, Cidade Baixa de Sérgio Machado, Menino Maluquinho 2 – A Aventura de Fernando Meirelles e Fabrizia Pinto, e séries para TV como Antonia (2006), Filhos do Carnaval (2005) e Cidade dos Homens (2003).

O filme O Ano em que meus Pais saíram de Férias traduz um difícil período brasileiro, onde ativistas políticos tinham que se esconder (“tirar umas férias”) por um tempo, para não serem pegos pela polícia, durante a ditadura militar. Apesar do cenário político estampado no filme, a real temática era a Copa do Mundo de 1970. Esse é o mundo de Mauro, protagonista do filme. A ansiosa espera pela volta dos pais durante a Copa passava a ditar o novo percurso nesses dias. Durante essas férias, ficaria na casa do avô, que pontualmente, morria naquele momento em que o neto chegava à sua casa. A partir daí, Mauro passa a integrar o novo ambiente, sem família e acolhido pelos amigos do avô e sua vizinhança. Particularmente, uma nova amiga era feita, Hannah, parte essencial e brilhante dentre as interpretações. Outro pano de fundo do filme é o judaísmo, pontuado pelo amigo do avô, futebol entre judeus e italianos, música, gastronomia e orações.

Todo esse cenário foi suficiente para o compositor Beto Villares captar com sensibilidade essa temática e o mundo interno do personagem Mauro, frente a um desconhecimento camuflado daquele período da história brasileira. Canções como “Telefone” e “Atrás do Fusca” relatam esse mundo de Mauro, seja no clarinete solitário que remete à espera dele por uma ligação dos pais, ou na nota solitária do piano na segunda música. Dois temas realmente muito inspirados. Transparecendo outro lado da trilha estão as músicas “Provador” (um bolero bem destacado da década de 70), “Escondidos” (tema de suspense) e “Irene” (tema sobre a mulher inalcançável e admirável, logicamente bem mais velha que Mauro), que transportam ao universo dos amigos da mesma idade, tais como Hannah, a detentora do esconderijo que via dentro do provador.

Fazendo parte da pesquisa sobre os judeus, Beto cria as músicas “Chiribim Chiribom”, “Tzena Tzena” e “Sim Shalom”, temas que nos transportam ao mundo que o protagonista passaria a conhecer. Com destaque na trilha sonora, temos a música de Roberto Carlos “Eu sou Terrível”, utilizada somente em um Bar Mithzvah de um garoto. Logicamente, pontual dentro da narrativa.

Em resumo, estamos diante de uma grande obra de dois artistas: o diretor Cao Hamburguer e o compositor Beto Villares. Um novo conceito de cinema, uma nova sintonia entre imagem e som. Creio ser essa a grande mensagem direcionada a nós, profissionais e criadores na área cinematográfica.

Márcio Brant
Mestrando em Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG

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