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AMORES PARISIENSES (On
Connaît la Chanson, Inglaterra, França, Suiça, 1997)
Gênero: Comédia
Duração: 120 min.
Elenco: Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Pierre Bacri, André
Dussollier, Agnès Jaoui, Lambert Wilson, Jane Birkin, Jean-Paul Roussillon
Compositor: Bruno Fontaine
Roteiristas: Jean-Pierre Bacri, Agnès Jaoui
Diretor: Alain Resnais
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Vida cantada
Diretor de
Hiroshima Mon Amour filma com
estilo obra de gênero um tanto indigesto.
Paris é uma cidade inexplicável; guarda em suas
ruelas, avenidas, paisagens e em seu interminável patrimônio
histórico-cultural um romantismo peculiar. É calcado nisso que o filme concebido
por Resnais (o realizador estava com 75 anos aqui), desenvolve-se, passando
pelos gêneros musical e da comédia pura e abordando as questões do amor, da
incompreensão e da solidão entre seus personagens.
Amores Parisienses baseia-se em
um roteiro que envolve os personagens como em uma rede do acaso. Em síntese, a
fita é irregular pois apresenta alguns personagens interessantes e outros
realmente muito chatos. Temos uma afetada e confusa empresária, esposa de um
sujeito que não está lá muito feliz em ser seu marido mas que ainda assim é
dócil. A empresária também é irmã de uma historiadora que trabalha como guia em
passeios culturais, uma menina de personalidade profunda e não menos confusa que
acaba se apaixonando por um desprezível empresário de imóveis que está vendendo
um apartamento para Odile (a empresária), e que é patrão de um homem de 50 anos,
sensível e melancólico... que se apaixona pela guia. Platônico. Há ainda um
amigo de infância de Odile, um homem cuja figura é curiosa; um cara infiel, de
caráter duvidoso, cheio de culpa e, por esse motivo, hipocondríaco.
A proposta narrativa é simples e original. As histórias vão se encontrando e
desencontrando em um script que se utiliza da música popular francesa do
século XX para expressar os sentimentos e as ações (veladas ou explícitas) dos
personagens em cada cena. A premissa é a de que em cada diálogo, no meio do
nada, um personagem comece a cantar uma daquelas músicas intrínsecas à
consciência do parisiense. Na verdade, a música aparece em sua versão original e
os personagens apenas dublam, o que é realmente cômico. A fórmula é boa, mas
cansa. No começo é bem engraçado, contudo torna-se insuportável e constrangedor
depois da vigésima repetição.
O filme seria muito interessante se fosse centrado apenas nos personagens bons
(mas é claro, piada minha, pois isso seria inviável; o filme é, portanto,
cronicamente não muito interessante): Simon, empregado do desonesto dono da
agência de imóveis, rende várias das melhores cenas do filme. Extremamente
culto, escreve peças para o rádio mas tem que sobreviver em infernal convívio
com seu patrão, naquele emprego que o envergonha; ele torna-se muito amigo desse
conhecido de infância de Odile, Nicolas, que, além de pedir emprego para ela em
nome de seu irmão mais novo, também está procurando apartamento. Por volta dos
quarenta e poucos anos, ele trai a mulher, está inseguro e acha que Deus vai
castigá-lo. Por isso acha que vai morrer. As cenas de consultas, com inúmeros
médicos (ele não pára, procura sempre um médico novo), e a música que descreve
sua hipocondria, são impagáveis.
O marido de Odile, Claude, também é um ótimo personagem. Infeliz com a esposa,
acusado de não ter muita vibração nem viver com loucura, também nem quer se
esforçar por aquele casamento e acaba revelando-se. Já Odile e o jovem
empresário, patrão de Simon, são seres, como já citado, afetados e nauseantes. A
irmã de Odile tem lá suas linhas e momentos bons. Sua caracterização como
historiadora especializada em não sei o quê (o próprio script faz piada e
alegoria em torno disto), incompreendida, sensível todavia manipulável, é ótima
em certos momentos. Mas suas crises, em meio à angústia pela complexidade de
seus sentimentos, tornam-se enfadonhas. Odile deve ser engraçada para as várias
pessoas que riam dela perto de mim no cinema... mas, sinceramente, não há nada
naquela personagem. A seqüência de seu encontro, e os breves desdobramentos do
mesmo, com um senhor que se acidenta a caminho da maternidade, pois a esposa de
seu neto daria à luz, conclui de maneira engraçada e é uma tentativa de dar
toque sublime e inteligente à loucura daquela personagem.
Há algo nesta fita que também passa sutilmente pelo estado, aqui bem-humorado,
da solidão. E, em contrapartida, por um eterno intuito de procura por algo. Os
simbolismos são notáveis: a questão da procura, propriamente dita, por
apartamentos (novas moradas, ir embora de um lugar que talvez não nos tenha mais
- o casamento de Odile, por exemplo, está falido), Simon, que passa suas tardes
participando de passeios culturais-turísticos, expondo o que é e o que gostaria
de ser. A própria Camille (irmã de Odile) evoca tal estado em cada olhar, em
cada busca, em cada gesto melancólico (aqui observados por uma lente da
comicidade).
O cultuado Resnais filma bem na maior parte da obra, realmente envolvendo-se com
a cidade. Além disso sustenta-se por meio de diálogos firmes e de uma boa e
sutil linguagem de câmera, principalmente quando ocorrem os "embates" entre os
personagens. Mas o ritmo muitas vezes incomoda, não por lentidão, mas por falta
de algum "insight" mais criativo (algo além da questão do desenvolvimento em
forma de musical) dentro daquela forçada elegância que por vezes caracteriza a
película e sua evolução. A seqüência da festa, por exemplo, é infeliz na maior
parte do tempo (com efeitos musicais de suspense que aparecem em intervalos e
fazem as cenas soarem mal de verdade); desproporcional, talvez nem fosse
necessário que ela tivesse sido escrita.
Nota-se também uma certa acomodação, ou conformismo, no sentido de se explorar
as situações e os ambientes de uma maneira meio superficial, algo que passa
desapercebido exatamente pelo fato da história, ainda que em sua despretensão de
"comédia de costumes&relacionamentos", parecer ser realizada com grande
maestria. Não o é; todavia, convenhamos, é um filme que não deixa de ser
inteligente sob alguns aspectos.
Concluindo, eu não compraria um novo ingresso. Mas o filme pode agradar bastante
a muitos que talvez consigam compreender e interagir melhor com a obra de
Resnais.
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