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O ANO EM QUE MEUS
PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS
(Brasil, 2006)
Gênero:
Drama
Duração:
110 min.
Elenco:
Michel Joelsas, Germano Haiut, Daniela Piepszyk, Caio Blat, Paulo
Autran, Simone Spoladore, Eduardo Moreira, Liliana Castro
Compositor:
Beto Villares
Roteiristas:
Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert, Cao Hamburger
Diretor:
Cao Hamburger |
Drama realista
Novo filme
do diretor Cao Hamburger, que se passa no auge da ditadura militar brasileira, é
sua obra mais pessoal e adulta, quase autobiográfica
O segundo longa-metragem de Cao Hamburger confirma o
talento do cineasta e a sua vocação para trabalhar com crianças. Excetuando
FRANKENSTEIN PUNK (1986), que é um curta de animação com massinha, e o episódio
de FILHOS DO CARNAVAL (2004), toda a filmografia de Hamburger é ligada ao
universo infantil. O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS (2006) estaria a
frente de todos, até por ser o trabalho mais pessoal, próximo do autobiográfico,
do diretor.
Interessante notar que geralmente os filmes que mostram o ponto de vista das
crianças têm uma leveza toda particular, independente do pano de fundo. Os
filmes que mostram crianças sobrevivendo na guerra, como IMPÉRIO DO SOL, de
Steven Spielberg, ou ESPERANÇA E GLÓRIA, de John Boorman, são mais leves que
filmes com adultos na guerra. Talvez porque as crianças ainda não têm
consciência do que está acontecendo ao redor. O filme que mais se aproxima de O
DIA EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS é o argentino KAMCHATKA, de Marcelo
Piñeyro, que também narra as memórias de um garoto durante o exílio de seus pais
na época da ditadura militar. Como tenho uma atração maior pelo sentimentalismo,
confesso ter gostado mais do argentino. Mas o filme brasileiro tem, é claro, o
seu valor.
Na trama, o menino Mauro (Michel Joelsas) é deixado pelos pais na casa do avô no
bairro Bom Retiro, em São Paulo. Os pais, acusados de "subversivos", estão sendo
procurados pelos militares, e por isso saem às pressas em seu fusca, sem ao
menos entregar o menino pessoalmente ao avô (Paulo Autran, em participação
breve). Chegando no apartamento do avô é que o garoto descobre que ele acabou de
falecer. Deu até tempo de o garoto ir ao funeral do velho. Assim, o menino fica
sob os cuidados de um senhor judeu, entrando em contato com os costumes
judaicos (interessante que no mesmo dia que eu fui ver esse filme, eu fiz
sessão dupla com A PEQUENA JERUSALÉM, de Karim Albou, que também nos apresenta
detalhes da cultura judaica).
Como o filme se passa durante a Copa do Mundo de 1970, podemos notar o quanto o
clima de euforia pela excelente campanha da seleção brasileira contrasta com o
clima de repressão causado pela ditadura. Da mesma forma, o garoto ora está
angustiado pela estranha ausência dos pais, ora se diverte e faz amizade com os
meninos do bairro, principalmente sua vizinha, a malandrinha Hanna. A cena dos
garotos espiando as mulheres tirando a roupa no buraco que dá acesso aos
provadores de uma loja de roupas é inspirada em ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de
Sergio Leone.
Já as cenas que mostram a vibração no país com as vitórias do Brasil são vistas
com um misto de alegria e vazio, tristeza. Aliás, eu sempre sinto esse vazio
quando o Brasil ganha nos jogos da Copa. Como se aquela alegria não significasse
muito para a nossa vida. Hamburger soube trabalhar muito bem esse sentimento, até
porque em 1970 o país estava vivendo um de seus momentos mais tristes. Por isso,
por mais que o menino gostasse de futebol e colecionasse as figurinhas dos
jogadores, havia algo mais importante na vida.
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