|
“A Música do
Cinema como Tema”
No
final de cada ano diversos filmes sobre as festas de fim de ano, como Natal e
Ano Novo, são lançados. A grande maioria destes filmes, por tratarem do mesmo
tema, acaba por contar a história quase do mesmo jeito. Mudam-se enfoques,
personagens, mas na essência são a mesma coisa.
Não seria diferente com o filme O Amor não tira Férias (The Holiday
– 2006). Duas mulheres trocam de casas, sem ter a noção de que a mudança de
endereço poderia mudar suas vidas. Iris (Kate Winslet) está apaixonada
por um homem que irá se casar com outra mulher. Do outro lado do globo, Amanda (Cameron
Diaz), percebe que vive com um homem que a está traindo. Duas mulheres que
nunca tinham se encontrado e moram a pouco mais de 6.000 quilômetros de
distância, encontram-se no mesmo exato lugar. Elas se encontram pela internet em
um site de troca de “casas” e impulsivamente trocam de casas nas férias.
Iris muda-se para a casa de Amanda na ensolarada Los Angeles, e Amanda chega à
casa inglesa coberta de neve de Iris.
Rapidamente após a chegada em seus destinos, as duas encontram a última coisa
que elas queriam: um novo romance. Amanda está apaixonada pelo encantador irmão
de Iris, Graham (Jude Law) e Iris, com uma inspiração vinda do legendário
roteirista de cinema Arthur (Eli Wallach), recupera seu coração quando
ela encontra o compositor de trilhas sonoras Miles (Jack Black).
Até esse momento, através dessa pequena descrição da história do filme, nada
diferente do que é abordado nos filmes de final de ano. Porém de uma forma
magistral, estamos diante de mais uma obra de arte da diretora e escritora Nancy
Meyers. Tendo no currículo filmes como Do que as Mulheres Gostam (What
Women Want) e Alguém tem que Ceder (Something´s Gotta Give).
Sempre tendo um elenco glamouroso como o que temos à nossa frente, a história é
contada de uma forma leve. Um roteiro muito bem escrito, que não nos deixa
perdido frente a duas histórias paralelas que ao mesmo tempo estão conectadas.
Outra habilidade da diretora Nancy Meyers, além da escolha brilhante do
casting, está na parceria de sucesso com o compositor
Hans Zimmer. Compositor de
diversos sucessos como Thelma & Louise, Rain Man, Gladiador,
O Último Samurai, Código Da Vinci, Melhor é Impossível e
Alguém tem que ceder, Zimmer faz a diferença no filme. A
trilha sonora conduz a história. As relações da trilha sonora estão desde o
sub-tema do filme até a relação de um dos protagonistas. O personagem Miles,
compositor de trilhas sonoras, traz-nos diversas referências do gênero, que o
compositor Hans Zimmer trabalha de forma brilhante junto à diretora.
Alguns
momentos devem ser citados. Miles faz referência a
Ennio Morricone duas
vezes, tanto em uma cena onde um dos seus temas consagrados, executado por
flautas, é colocado em primeiro plano na cena, e em momento, onde Miles fala da
trilha sonora do filme A Missão como sendo um dos marcos da música no
cinema. Outra seqüência espetacular é quando Miles e Iris entram na loja
Blockbuster, e Miles começa a apontar diversos filmes consagrados como
Tubarão, Conduzindo Miss Daisy, A Missão e A Primeira Noite
de um Homem. Quando aponta cada filme, Miles canta os temas principais de
cada um deles, ou seja, a trilha sonora volta a estar em primeiro plano, como
elemento semântico da narrativa.
Dentre os temas apresentados no filme, alguns merecem destaque. A abertura do
filme com a música “Maestro” mostra o personagem Miles fazendo a trilha de uma
seqüência em seu computador (diegeticamente), que em seguida torna-se não-
diegética seguindo para outra cena. O tema orquestrado dá continuidade em outros
momentos. Apesar de ter a orquestra como centro da execução da música, podemos
perceber um tom “jazz” para o que veria a seguir. Outro grupo de músicas está a
cargo de um compositor brasileiro, Heitor Pereira, parceiro de Hans
Zimmer em vários filmes. Pereira apresenta nesse filme diversas músicas de sua
autoria, como “Verso e Prosa”, “Anything Can Happen”, “Kiss Goodbye”, “Cry”,
dando um tom de “bossa nova” e “cool jazz” ao filme, e com sua marca registrada
que são as guitarras.
A música “Three Musketeers” merece um destaque dado ao seu caráter lúdico e
principalmente pela marca na narrativa que ela tem. Esse termo “três
mosqueteiros” faz a ligação entre o passado da personagem Amanda e o seu futuro
frente à nova família com Graham, e essa música pontua o seu destino. As músicas
“Kayak for One”, “Zero”, “Dream Kitchen” e “Separate Vacations” marcam o desejo
de mudança de Iris e Amanda e a música “Anything Can Happen” marca exatamente o
momento em que as duas encontram o que não queriam encontrar: o novo romance -
Miles e Graham, respectivamente.
Hans Zimmer faz um mistura entre o jazz e a música erudita nessa trilha sonora.
Músicas como “Definitely Unexpected”, “Busy Guy”, “For Nancy” e “Cry” marcam bem
essa mistura e através da instrumentação utilizada - guitarra, vibrafone,
bateria – em consonância com a melodia colocada nos violinos, violões e piano.
Deve-se citar também a presença de uma canção – “Meu Passado” – composta por
Henry Jackman, Lorne Balfe e Hans Zimmer. Outro momento diegético importante do
filme aparece na música “Gumption”, que é a música composta por Miles para a
personagem Iris e para a entrega do prêmio do roteirista Arthur. É um momento
metalingüístico onde a música volta a ser o primeiro plano da seqüência e dá o
ritmo da imagem.
Voltando ao início
quando falei dos filmes de final de ano, passo a repensar cada filme que vejo
nessa época e principalmente a valorizar trabalhos tão importantes para a área
de trilha sonora. Nunca foi tão bem tratado o tema, quanto nesse filme. Crédito
para Nancy Meyers e Hans Zimmer. Mais ainda para a história da “Música no
Cinema”.
Márcio Brant
Mestrando em Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG |