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O diretor "hobbit"
Peter Jackson
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Quando assumiu a direção da adaptação para os cinemas de
O Senhor
dos Anéis por volta de 1997, o neozelandês Peter Jackson certamente sabia que a missão
que enfrentaria seria das mais difíceis já assumidas por um diretor no cinema.
Transpor para as telas um livro rico em detalhes e que, pior, é idolatrado por
milhares de fãs ao redor do planeta, é trabalho para pessoas que realmente
sabem o que estão fazendo. Alguns anos acertando os detalhes da produção e 15 meses de filmagens depois,
"A Sociedade do Anel" chegou aos cinemas rodeado de expectativas
(muitas elevadíssimas), que acabaram se transformando em aplausos e bilheterias
impressionantes em diversos países. No Brasil (que tem poucos - mas exaltados - fãs dos livros), muitas pessoas que
assistiram à "A Sociedade do Anel" repudiaram a produção pelo fato
dela ser somente um episódio de um grande filme de 9 horas e, por isso, não
ter um final fechado (que, obviamente, só ocorrerá no terceiro exemplar,
"O Retorno do Rei"). Certamente, essas pessoas poupariam tempo e
dinheiro se passassem longe de "As Duas Torres", já que a segunda
parte da trilogia não tem um começo definido (iniciando-se exatamente onde a
primeira terminou) muito menos um final definitivo, tornando-se, portanto, a
adaptação mais difícil dos três livros.
Também vale ressaltar que somente aqueles que viram "A Sociedade do
Anel" poderão compreender a intrincada trama deste novo capítulo. Tal
fato, que poderia ser visto como um grave defeito, na verdade é uma das coisas
que fazem "As Duas Torres" funcionar tão bem (ou melhor) do que seu
antecessor: por se assumir como uma continuação no significado mais exato da
palavra, o filme não gasta tempo com apresentações e vai direto à ação e
ao miolo da trama, abrindo novas linhas narrativas, utilizando flashbacks e
dando ao espectador toneladas de cenas de ação e batalhas que facilmente já
entraram para a história do cinema.
O próprio Peter Jackson, num momento de honestidade tremenda, disse que fez
"As Duas Torres" para o público que já tinha visto "A Sociedade
do Anel". Com isso ele pôde, além de aumentar bastante a quantidade de
informações que o filme traz, conseguir mais espaço para a ação, elemento
que também estava presente em abundância no segundo livro. Peter Jackson se sentiu livre para fazer as modificações que queria na
história, sempre pensando em dar mais fluidez e dinamismo à trama, ressaltando
o papel de alguns personagens, modificando o comportamento de outros, cortando
passagens e acrescentando outras. E são essas modificações que poderão
desagradar fãs dos livros que não souberem diferenciar uma obra filmada de uma
obra escrita.
O filme começa exatamente onde "A Sociedade do Anel" terminou, sem
retrospectivas (na verdade, começa com uma visão mais detalhada - e
espetacular - da luta de Gandalf contra o Balrog). A diferença principal é que
agora a comitiva está dividida em três ramos. O primeiro deles é o de Aragorn
(Viggo Mortensen), Gimli (John Rhys-Davies) e Legolas (Orlando Bloom) procurando
pelos hobbits Merry e Pippin , que foram levados por orcs no final do primeiro
filme. Na busca, eles acabam no reino dos cavaleiros de Rohan, onde o Rei do
local, Théoden (Bernard Hill) está sob o encantamento de seu conselheiro Grima (Brad
Douriff), a serviço de Saruman (Christopher Lee). É em Rohan também que
Aragorn conhece a bela e corajosa Éowyn (Miranda Otto), filha do Rei e sua única
herdeira. O segundo ramo da narrativa é o dos próprios Merry e Pippin, que
depois de conseguirem escapar dos orcs, entram na floresta de Fangorn e se
deparam com os ents, árvores que andam, pensam e falam e que possuem papel
decisivo na história.
O terceiro ramo, e o mais interessante, é o de Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean
Austin), que partiram sozinhos depois do incidente envolvendo Boromir. Seguidos
de perto por Gollum, a criatura que já foi dona do anel, Frodo e Sam acabam
aceitando a presença deste trágico ser com a condição dele servir de guia até
Mordor. É claro que nem tudo será tão simples. Frodo e Sam acabam encontrando
uma tropa de homens de Gondor liderada por Faramir, que na tentativa de salvar a
cidade de Osgiliath, carrega o anel e os dois hobbits até o local, deixando-se
levar pela ilusão de que a jóia forjada por Sauron pode ser usada para o bem.
O que torna esse último ramo narrativo o mais interessante é, sem dúvida
alguma, a presença do torturado Gollum (voz e movimentação de Andy Serkis), o
personagem criado em computador mais realista e perfeito já visto até agora. Sua
personalidade dúbia, que ora chama Frodo de Mestre, ora de ladrão, é
explorada maravilhosamente por Peter Jackson. Além de ser o exemplo vivo dos
efeitos devastadores causados pelo uso do Um Anel, Gollum traz um drama
compreensível e tocante à trama. Somente quando vê o sofrimento da criatura,
Frodo consegue entender quão perigosa e arriscada sua missão é. O personagem,
além de inspirar pena, é espantosamente sinistro e assustador. Os incríveis
efeitos da Weta Digital que deram vida à Gollum não seriam muito úteis se sua
complexa personalidade não fosse tão bem desenvolvida. Provavelmente ele
é a melhor coisa de "As Duas Torres".
As três linhas narrativas se intercalam durante todo a filme , num trabalho de
edição e montagem magníficos. As três são bastante compreensíveis, apesar
de uma certa confusão dominar o início e o meio do filme, com alguns
flashbacks e visões mal inseridas de Elrond, Galadriel e Éowyn (a gigantesca
quantidade de informações a ser assimilada também tem culpa nessa história).
Das três linhas de narração, a que tem mais destaque é a subtrama liderada
por Aragorn, sendo inclusive a mais complexa em termos de quantidade de
personagens e reviravoltas.
Aragorn pode, inclusive, ser considerado o personagem principal do filme. Além
de aparecer mais, percebe-se que as subtramas que envolvem o humano são
desenvolvidas com mais cautela pelo diretor. Pudera: ele é o personagem
decisivo do próximo capítulo, "O Retorno do Rei".
Peter Jackson ainda tomou algumas liberdades e fez modificações bastante
perceptíveis em algumas passagens e personagens. Aragorn, por exemplo, se
separa de seu grupo após uma batalha contra orcs e cai desacordado num rio
para, então, ser despertado pelas palavras de sua amada Arwen (Liv Tyler, que só
aparece nessa cena e em alguns flashbacks). A mudança, percebe-se, foi feita
para aumentar o espaço do romance entre os dois personagens, já que pouco
seria dito sobre o amor de Arwen e Aragorn durante o filme.
Outra mudança considerável, e uma das mais polêmicas, é o fato de Merry e
Pippin enganarem o sábio ent Barbárvore, o que acaba diminuindo a aura de
"sapiência" que cercava este personagem. Tal alteração também pode
ser facilmente explicada: sem ela, Merry e Pippin não teriam uma participação
significativa na trama, resumindo-se a dois hobbits bobos pendurados num galho
de árvore. Apesar disso, provavelmente Peter Jackson teria feito um bom
trabalho se tivesse seguido a história original. Outra alteração que também
não foi bem vista é o fato de Frodo e Sam serem levados para a cidade de
Osgiliath, forçados por Faramir, que no filme ganha contornos mais vilanescos.
Francamente, a mudança não altera em nada a qualidade do filme.
A melhor modificação feita pelo diretor, no entanto, é a participação dos
elfos na batalha do Abismo de Helm. Depois de ser aconselhado por Galadriel
(Cate Blanchett), Elrond (Hugo Weaving) resolve enviar parte de suas tropas para
auxiliar os humanos na batalha. No livro, os elfos simplesmente se retiram para
Valinor, uma terra onde podem descansar eternamente, e deixam os humanos à mercê
do destino nessa batalha decisiva. A mudança acentua a nobreza dos elfos e
ainda ressalta a união dos povos da Terra-Média na tentativa de impedirem a
dispersão da sombra de Sauron pelo continente.
Queira ou não, goste ou não, esta é a visão de Peter Jackson tomando conta
do filme. É por isso que "As Duas Torres" pode ser considerado um
filme mais livre, e melhor, do que "A Sociedade do Anel": o diretor
faz um obra de cinema, e não somente uma adaptação de um livro para as telas.
Ainda assim, com tantas mudanças significativas, Peter Jackson é leal ao espírito
dos livros. Sua obra, assim como a de Tolkien, é um épico grandioso e trágico
sobre amizade, confiança, medo e superação. Por não trair aquilo que o livro
tem de melhor, Jackson não pode e não deve ser criticado pelas inúmeras
alterações feitas na trama (provavelmente só os fãs xiitas reclamarão muito
- o público que não leu os livros, por outro lado, poderá compreender melhor
alguns pontos do filme).
O terço final de "As Duas Torres" também já poderia entrar direto
na galeria de grandes momentos do cinema. A fantástica batalha no Abismo de
Helm tem a participação de 10 mil orcs digitais e mais de 300 humanos e elfos.
O diretor, sabiamente, deixa a batalha para o final, fazendo o restante do filme
funcionar como um prenúncio à tragédia eminente. Você sente o coração
bater mais forte quando o conflito se inicia. E certamente estará sem fôlego
quando ele terminar (a aparição de Gandalf é a cena mais emocionante).
Também merecem destaque as impressionantes cenas da luta contra os wargs,
espécie de lobos
montados por orcs, e a destruição de Isengard (a torre de Saruman) por um exército
de ents gigantescos e enfurecidos. Em matéria de ação e emoção, "As
Duas Torres" não consegue ser superado por nenhum filme lançado em 2002,
nem mesmo por "A Sociedade do Anel". Os magníficos efeitos da Weta,
ainda melhores do que os do primeiro filme, fazem a diferença em alguns
momentos. Gollum/Sméagol é apenas uma parte do grande trabalho que a equipe
teve. A criação de outras criaturas, como os wargs, os ents e os Nazgul, são
igualmente perfeitas.
A direção de arte e a fotografia também estão mais apuradas. Os Pântanos
Mortos, local que Frodo e Sam precisam atravessar para chegarem até Mordor, são
assustadores e belos ao mesmo tempo. As paisagens que dominam boa parte do filme
também são impressionantes. É incrível imaginar que tudo aquilo foi filmado
apenas na Nova Zelândia. Rohan e o Abismo de Helm são os melhores momentos da
fotografia de "As Duas Torres". Além disso, o filme é auxiliado
sobremaneira pela excelente trilha sonora de Howard Shore que, sem exagero
algum, está presente em todos os minutos da produção.
Nas atuações, há apenas um problema: Elijah Wood e Sean Astin são ofuscados
pela perfeição de Gollum. Um Oscar de inovação para Andy Serkis, que deu
vida ao personagem, não seria um exagero. Bernard Hill, Ian McKellen, Miranda
Otto e Viggo Mortensen estão especialmente bem em seus papéis, sendo seguidos
de perto pelo restante do elenco.
Com este filme, então, a trilogia entra em seus momentos decisivos. A trama,
que já começa de maneira complicada, se torna ainda mais complexa. Traições,
redenção, mais batalhas e reviravoltas deverão ditar o ritmo de "O
Retorno do Rei". E se Peter Jackson já conseguiu fazer uma verdadeira
maravilha com este segundo e mais difícil capítulo, o que podemos esperar da
conclusão desta magnífica história ? A resposta, só no final de 2003.
Diego Sapia Maia
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