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O AVIADOR (The
Aviator, EUA, Japão, 2004)
Gênero: Drama
Duração: 169 min.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Kate Beckinsale, Adam
Scott, Kelli Garner, Alec Baldwin, Gwen Stefani, Ian Holm
Compositor: Howard
Shore
Roteiristas: John Logan
Diretor: Martin Scorcese
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Filmes, mulheres e aviões
Scorcese transforma esta cine-bio
do excêntrico cineasta e aviador Howard Hughes, originalmente um projeto de
estúdio, numa atraente obra autoral
Martin Scorsese é
um diretor com uma marca tão forte que conseguiu transformar um projeto de outra
pessoa num trabalho de autor. Seu Howard Hughes é herdeiro de Travis Bickle -
TAXI DRIVER (1976) - e de Jake LaMotta - TOURO INDOMÁVEL (1980)-, personagens
perturbados e solitários. Solitário como o próprio cineasta, que confessou que
suas melhores horas são as que ele passa sozinho. Mesmo fazendo concessões ou
fazendo filmes mais comerciais como o excelente CABO DO MEDO (1991), ainda assim
o diretor entrega obras excepcionais.
O AVIADOR (2004), por exemplo, era um filme que estava para ser dirigido por
Michael Mann, que desistiu do projeto por já ter realizado dois filmes baseados
em personagens reais. Mann preferiu voltar para o terreno da ficção com
COLATERAL, e sugeriu ao amigo Scorsese aceitar o projeto. Scorsese não aceitou
de pronto a proposta, mas depois de ler o roteiro, sua paixão pelo cinema falou
mais alto, já que o filme era sobre um dos mais importantes produtores de cinema
de todos os tempos. Sem falar que o cara era super-excêntrico e assunto não
faltava.
Comparando com o filme anterior de Scorsese,
GANGUES DE NOVA YORK
(2002), O AVIADOR teve um efeito menos catártico em mim. Na verdade, durante a
projeção, fiquei um pouco aborrecido em algumas cenas de política e aviação.
Também achei meio forçada a tentativa de se estabelecer uma ponte com CIDADÃO
KANE, de Orson Welles. O que mais me interessava ali era o Howard Hughes
produtor de cinema. Inclusive, senti falta dos bastidores de O PROSCRITO (1943)
e de alguma atriz peituda interpretando a Jane Russell. Mas não dá pra reclamar
muito de um filme que tem aquelas espetaculares cenas das filmagens de HELL'S
ANGELS (1930), um dos filmes mais ambiciosos já feitos.
As cenas aéreas de O AVIADOR são eletrizantes, especialmente quando mostram o
próprio Hughes de câmera em punho filmando em pleno céu os quarenta aviões. E
pensar que quatro pessoas morreram nessa brincadeira. Será que essas cenas de
aviões caindo e se esbarrando no céu estão mesmo no corte final? Deu uma vontade
de ver esse filme. Quem sabe agora alguma distribuidora lança esse título por
aqui. Acho que só em dois animes de Hayao Miyazaki, NAUSICAA DO VALE DOS VENTOS
e LAPUTA: O CASTELO NOS CÉUS, foi que senti esse frio na barriga com cenas
aéreas. Destaquei essa cena das filmagens de HELL'S ANGELS, mas as duas
seqüências de pousos mais que forçados são igualmente espetaculares. Acredito
que muita gente deve ter se segurado nos assentos do cinema nessas horas.
Leonardo DiCaprio tem, talvez, a melhor performance de sua carreira como Howard
Hughes, levando-se em consideração que O AVIADOR é um filme de ficção baseado
numa pessoa real. Pelo que dizem de Howard Hughes, ele era um ser humano
asqueroso, repulsivo. Algo que deve-se questionar quando se pensa na quantidade
de mulheres (e homens) que ele levou para a cama. Se bem que dinheiro compra
muita coisa.
Sobre o bissexualismo do milionário, não julgo Scorsese por ele ter escolhido
mostrar apenas os relacionamentos de Hughes com o sexo oposto. O Howard Hughes
de O AVIADOR não necessariamente precisa ser o Howard Hughes real. Mesmo que se
pretendesse ser o mais fiel possível aos fatos, com certeza iria-se esbarrar no
mito. Porém, o filme seria bem bombástico se mostrasse o seu relacionamento com
astros como Cary Grant e Tyrone Power, bem como suas festas sadomasoquistas.
Esse lado S&M, aliás, é apenas sugerido na cena em que Hughes contrata Faith
Domergue para ser sua acompanhante e amante, depois do fim do namoro com
Katharine Hepburn.
Falando em Kate, a interpretação de Cate Blanchett está bem interessante, sem a
preocupação de pintar uma Kate simpática e atraente. Ela é quase tão neurótica e
nervosa quanto Hughes. A atriz até dá aquelas tremidas na cabeça, como que para
prever o Mal de Parkinson que a tomaria de assalto nos anos seguintes. Já a
linda Kate Beckinsale se saiu muito bem ao pegar esse abacaxi que era
interpretar "o animal mais belo do mundo", como era considerada Ava Gardner, na
época. Numa entrevista que li da moça, ela disse ter se sentido uma gorda feia,
já que engordou nove quilos para interpretar Ava e não se achava nada
deslumbrante. No filme, ela só aparece mais gorda no final. E até que ela ficou
bem bonita assim mais gordinha. Ficou mais parecida com Ava. Muito bonita a cena
em que ela resgata Hughes do seu isolamento, dando banho nele, procurando
entender suas loucuras, fazendo sua barba.
Quanto às loucuras de Hughes, como todo mundo é um pouco louco, identifiquei-me
um pouco com o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) dele. Já saí algumas vezes
do banheiro, por exemplo, e depois de ter lavado as mãos, peguei um papel-toalha
para abrir a porta. Mas antes que digam que eu estou louco, aviso que isso não
acontece com freqüência.
Pelo visto, Leonardo DiCaprio é mesmo o novo DeNiro para Scorsese. Os dois
estarão juntos pela terceira vez em THE DEPARTED (2006), baseado em INFERNAL
AFFAIRS (2002), dos diretores Wai Keung Lau e Siu Fai Mak. O AVIADOR ganhou os
Oscars de Melhor Atriz Coadjuvante (Cate Blanchett), Fotografia, Montagem,
Direção de Arte e Cenários e Figurino.
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