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BABEL: Impressões |
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Alfredo Werney e Wanderson Lima
Eis aí uma paráfrase simplista do princípio de crueldade advogado pelo filósofo Clément Rosset. O artista que toma esse princípio a sério, inevitavelmente se questiona: como representar o que é intrinsecamente cruel sem lhe mitigar a visceralidade? Ao artista que se depara com esse dilema, fazer glamour às custas da miséria alheia, estetizar a pobreza, é a primeira via a ser rechaçada. A saída, em geral, é recorrer ao brutalismo, à representação crua e hipermimética: esta não passa no comum das vezes de um neo-realismo requentado, pseudo-revolta movida por um sadismo mal disfarçado. Mas há ainda outra possibilidade, que se configura quando a assunção do princípio de crueldade desperta no cineasta a consciência de que os problemas estéticos são também problemas éticos. Quando isso ocorre, somos brindados com obras do naipe de “Os Esquecidos”, de Buñuel, “A Terra Treme”, de Visconti e este pungente “Babel”, fecho de uma trilogia dirigida pelo mexicano Alejandro Gonzales Iñarritú. O cinema de Iñarritú é antagônico: ao mesmo tempo em que joga com elementos já muito experimentados, consegue remanejar alguns clichês. A rigor, não há, ao menos por enquanto, nada de rigorosamente inovador nas películas deste mexicano, como muitos alardeiam. O modelo entrecortado e circular / atemporal de narrativa há muito o cinema já conhece: de Welles a Tarantino esta técnica já não surpreende tanto. Nada há, também, de atual na sonorização de seus filmes: a exploração de sons diegéticos como elemento estético, a economia de música propriamente dita, o ruído como símbolo, os contrastes perturbadores de som, o silêncio como elemento expressivo e rítmico – tudo isso já nos é familiar desde o advento do cinema moderno. “Cidadão Kane“, de Welles, é uma obra-exemplo.
Deixemos, porém, a complexa discussão da relação entre arte e mercado e lancemos um golpe de vistas nas temáticas abordadas na película. Em geral as discussões são acerca da incomunicabilidade das nações contemporâneas (mesmo quando compartilham as mesmas dores); da burocracia descabida, do choque de diferentes culturas, da perda e do sofrimento humano. México, Japão, EUA e Marrocos compõem esta paisagem desumana e árida. Uma confusão de cores, sons, direções, sentidos. Uma verdadeira Torre de Babel. Um ônibus de turistas estadunidenses e europeus prepotentes, uma criança marroquina que atinge à bala uma turista por um acaso; um mexicano brega e imprudente (de novo, o talento de Gael García), uma doméstica mexicana trabalhando clandestinamente nos EUA; uma japonezinha carente e lasciva, semi-segregada do mundo por ser surda-muda. Em suma, uma galeria – uma alegoria – de infortunados num mundo onde não se sabe o esperanto, o mundo brutal e grotesco, brutesco, das pinceladas expressionistas de Iñarritu. Mundo-choque, mundo de choques. Contrastes visuais abundam: o deserto de Marrocos / a modernidade de Tóquio, as festas mambembes dos mexicanos; a contida vivência do marroquino / as explosivas danças dos latino-americanos; o cinza do deserto / o colorido exagerado que beira o tosco; abismos e montanhas em Marrocos / arranha-céus em Tóquio; o natural / o mecânico. Não há mitos arianistas nem estereótipos positivos em “Babel“: a alegria latina é tontería, irracionalismo compensatório de múltiplas formas de exploração e humilhação; a saberia oriental foi para o espaço, a prudência também: se o mundo é a Babelândia, Tóquio é a capital.
O universo de “Babel“ é o do excesso, do contraste de cores, de volume, de tomadas, de quebras intencionais de ritmo. Saímos de um deserto com cabras para uma agitada partida de vôlei. Saímos de gritos acutíssimos para a mudez de uma japonesa. Saímos de uma paisagem deserta e triste para um casamento popular e turbulento. A câmera em “Babel“ move-se não para buscar o espetacular, o pitoresco – mas para representar cada lugar de um ponto de vista diferente. Ritmos e movimentos de câmera, como sabemos, são visões de mundo; a câmera de Iñarritú é, assim, quem negocia e equaciona as diferenças que, no plano das relações familiares e das relações entre países, são inegociáveis. O ritmo da montagem é condizente com cada cultura: planos rápidos e estonteantes para representar a agitada vida do Japão (ocidentalizado e capitalista); pouco movimento de plano e pouca atividade rítmica da música para representar a vida rural-tediosa do Marrocos.
Que, aliás, fecha-se com a sugestão de que nem tudo é babélico assim, pois que ainda pode haver, ao menos no núcleo familiar, uma tênue possibilidade de diálogo. Incoerência? Concessão ao público? Estas perguntas incomodam porque tudo em “Babel“ se encaminhava para a tragédia... até que um discretíssimo deus ex-machina começa, no seu silêncio onipotente, a montar para nós um quebra-cabeça no qual vislumbramos talvez um sorriso, talvez mesmo um aperto de mão. Disso, preferimos antes concluir, apenas, que Alejandro, possivelmente, ainda crê nos homens. Sua postura não é, por exemplo, a de um iconoclasta niilista como Lars von Trier. Como muitos outros artistas de inclinação trágica, Alejandro cismou-se com as ironias da deusa Fortuna. Sua obra realiza, na verdade, uma teologia negativa, com todas as ambigüidades que esta traz em seu bojo. A trilogia do acaso, Babel em especial, é muito mais que a ilustração da teoria do caos e seus efeitos-borboleta: é um leitura penetrante do mal-estar de nossa civilização. O acaso, ao contrário do que diz a canção, não vai nos proteger: não conseguimos amar, não conseguimos mudar de postura, não conseguimos nos comunicar, em grande parte, porque, ironicamente, estamos sempre no lugar errado e na hora errada. |