PRIMO BASÍLIO (Brasil, 2007)
Gênero: Drama
Duração: 106 min.
Elenco:
Débora Falabella, Fábio Assunção, Glória Pires, Reynaldo Gianecchini, Guilherme Fontes, Simone Spoladore, Zezeh Barbosa, Laura Cardoso, Gracindo Junior, Ancelmo Vasconcelos
Compositor: Guto Graça Mello
Roteiristas: Euclydes Marinho, Rafael Dragaud
Diretor:
Daniel Filho

Parece mas não é

Daniel Filho transforma a obra de Eça de Queirós num filme de grande apelo popular

Uma das vantagens dos filmes de Daniel Filho é que eles geralmente parecem ser muito ruins pelo trailer, mas quando se vê o resultado, nota-se que as coisas não são bem assim. Bom, pelo menos foi essa a relação que eu tive com seus trabalhos anteriores. Recusei-me a ir ao cinema para ver tanto A DONA DA HISTÓRIA (2004) quanto SE EU FOSSE VOCÊ (2006), mas quando conferi esses dois filmes em dvd, vi que eles não eram tão ruins quanto eu imaginava. Apesar de não serem exatamente bons, vejo qualidades nesses dois trabalhos, que não têm vergonha de serem feitos para agradar o grande público e gerar dinheiro com o apoio de atores globais e de tramas bem populares. Depois disso, até tive coragem de ir ao cinema para conferir MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA (2006), uma divertida comédia com influência das screwball comedies dos anos 30 e 40 e da pornochanchada brasileira dos anos 70 e 80.

Em PRIMO BASÍLIO (2007), o erotismo característico das pornochanchadas do filme anterior parece estar de volta. O que para muitos é uma heresia, já que estamos falando de uma adaptação de uma obra de Eça de Queirós, um dos mais respeitados romancistas da literatura portuguesa e o principal autor do Realismo português. Daniel Filho transforma a obra de Eça num melodrama que mistura Doulas Sirk com Nelson Rodrigues, inclusive, com direito ao famoso uso do "perdoa-me por me traíres", que confesso ser algo que me comove. Daniel Filho comete alguns exageros e pode até provocar risadas na platéia, principalmente nas cenas com a personagem de Juliana, a empregada vivida por Glória Pires. Achei divertido ver a platéia rindo da inversão de "tarefas" entre empregada e patroa. Senti-me bem vendo um filme num cinema mais popular, num dia de ingresso mais barato. Era como se eu estivesse nos anos 80, época em que as pessoas não se sentiam incomodadas com a nudez e o sexo no cinema, antes de o cinema se tornar diversão da elite. E provavelmente as tais cenas mais picantes protagonizadas por Débora Falabella e Fábio Assunção vão provocar um "boca-a-boca" que vai beneficiar o sucesso comercial do filme além de aumentar o número de desafetos.

A adaptação de Daniel Filho esquece um pouco a crítica social de Eça de Queirós e privilegia o romance proibido entre Luísa (Falabella) e Basílio (Assunção) e a chantagem da empregada perversa. Não deixa de ser divertido também ver Reynaldo Gianecchini como Jorge, o marido "corneado". Dos personagens coadjuvantes, a mais interessante é, sem dúvida, Leonor, a mulher mal falada interpretada por Simone Spoladore. Destaca-se também o amigo de Jorge, vivido por Guilherme Fontes, a pessoa mais honesta da estória. O que acaba incomodando um pouco é a mensagem moralista, que deixa o grande público saindo do cinema com a convicção de que mulher casada que trai o marido se dá mal. Apesar disso, ver a reação da platéia diante desse enredo ajuda bastante a entender a atual moralidade da sociedade brasileira.

Cotação:
Ailton Monteiro
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