BE COOL - O OUTRO NOME DO JOGO (Be Cool, EUA, 2005)
Gênero: Comédia
Duração: 114 min.
Elenco: John Travolta, Uma Thurman, Vince Vaughn, Cedric the Entertainer, André 3000, Steven Tyler, Robert Pastorelli, Christina Milian, Harvey Keitel
Compositor: John Powell
Roteiristas: Elmore Leonard, Peter Steinfeld 
Diretor: F. Gary Gray

Not so cool

Despretensão e deboche marcam o reencontro de John Travolta e Uma Thurman, em uma comédia que poderia ser bem mais legal

Uma das cenas mais interessantes de BE COOL (2005) é aquela do discurso de Cedric the Entertainer sobre a importância da cultura negra na sociedade americana, enquanto ele ameaça seus inimigos no escritório do personagem de Harvey Keitel. Esse é talvez o único momento sério do filme de F. Gary Gray. Claro que é inegável a contribuição do negro na cultura do mundo todo, mas não deixa de ser uma ironia essa valorização do estilo negro de ser justamente nesses tempos de moda hip hop nos EUA.

Lembro que quando assisti ALI, de Michael Mann, com aquela primeira parte ao som da música maravilhosa de Sam Cook, precebi o quanto a música negra caiu de qualidade com esse negócio de hip hop. Claro que tudo isso é questão de gosto, e gosto não se discute, mas como estou aqui para expor minhas insatisfações, então está valendo. Nesse caso, posso dizer que não vejo graça nessa onda gangsta rap, a não ser para se fazerem personagens de filmes, mas o que eu não acho legal é a molecada de hoje, inclusive os brancos, ficar se apoiando nesse estereótipo para ficar fazendo cara de mau e usar aquelas calças baixas e mostrando a cueca.

Há quem diga que isso pode não ser o foco principal do filme, mas acredito ser um dos pontos fundamentais. Principalmente se você sabe que F. Gary Gray é negro e começou em Hollywood fazendo filmes sobre negros, como SEXTA-FEIRA EM APUROS (1995) e ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQÜÊNCIAS (1996). Depois é que entrou para o primeiro time de Hollywood com os ótimos O NEGOCIADOR (1998) e UMA SAÍDA DE MESTRE (2003), onde se revelou um mestre da ação. Ainda não vi O VINGADOR (2003) que ele fez com o Vin Diesel, mas imagino que seja bem legal.

Mas não foi pela mudança de direção que BE COOL causou expectativa. Foi por causa do retorno de John Travolta a um de seus personagens mais carismáticos, o Chili Palmer de O NOME DO JOGO (1995), e pela participação de Uma Thurman, repetindo uma cena de dança que ela havia protagonizado com Travolta no clássico PULP FICTION. Bom, quem esperou pela tal cena de dança deve ter tido uma baita duma decepção. Em vez do ritmo gostoso de Chuck Barry, temos agora uma música sem graça do The Black Eyed Peas e uma dança esfrega-esfrega com zero de sensualidade.

As cenas musicais são uma xaropada só, o que comprova o quanto anda decadente a música mainstream americana. Achei ruins especialmente as cenas que envolvem Christina Milian, a cantora clone de Beyoncé, que no filme é a protegida de Travolta e Uma Thurman. Continuo não achando muita graça em Vince Vaugn. Ele faz parte de uma turma bem interessante, que tem feito várias comédias juntos atualmente. Mas ele não chega a ser engraçado em nenhum momento. E Uma Thurman poucas vezes esteve tão sem brilho.

Apesar de ter muitos pontos contra, o filme tem alguns momentos bem interessantes, além do já citado discurso de Cedric. A história não tem a menor importância e desde o começo, com John Travolta dizendo que odeia continuações, sabemos que o tom do filme é de completo deboche e despretensão.

Entre os destaques do filme estão:

a) The Rock - ele faz um guarda-costas gay super-engraçado;
b) Andre 3000 - o vocalista do Outkast faz Dabu, um dos capangas do mafioso interpretado por Cedric the Entertainer - engraçado quando Travolta o cumprimenta;
c) a moça do The Black Eyed Peas, que é linda, independentemente de sua música ser fraca ou não;
d) a cena em que o Aerosmith canta "Cryin'" - tudo bem que Aerosmith hoje em dia se tornou quase insuportável, mas essa canção é emocionante e me faz lembrar a Alicia Silverstone;
e) fora isso o filme se dá ao luxo de ter Danny DeVito e James Woods em participações bem pequenas, além de pontas de Sérgio Mendes, Wyclef Jean, Fred Durst, Gene Simmons, RZA, etc.

No balanço geral, dá para sair na dúvida se a experiência de ver o filme valeu a pena ou não. Acho que valeu sim. Principalmente pela surpresa de ver The Rock mandando ver como comediante.

Cotação:
Ailton Monteiro
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