UM BEIJO ROUBADO (My Blueberry Nights, China, França, Hong Kong, 2007)
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Elenco:Jude Law, Norah Jones, Frankie Faison, David Strathairn, Adriane Lenox, Rachel Weisz, Benjamin Kanes, Cat Power, Natalie Portman, Michael May, Tracy Elizabeth Blackwell, Chad R. Davis
Compositor:
Ry Cooder
Roteiristas: Lawrence Block, Wong Kar-Wai
Diretor: Wong Kar-Wai

Com gosto de chantilly

O diretor chinês Wong Kar Wai, em seu melhor filme, retoma os caminhos do cinema independente cult dos anos 1980

Apontado por muitos como o primeiro filme americano do cineasta chinês Wong Kar Wai, UM BEIJO ROUBADO é, na verdade, uma produção entre a China, a França e Hong Kong, embora realmente falada em inglês e ambientada na América. Mas isso é o que menos importa em relação ao filme, que se tornará uma experiência muito mais rica para o espectador se observado por sua interessante condição: o de ser um curioso retorno ao cinema cult dos anos 1980, construído pelo cineasta da mesma forma que os filmes independentes eram naquela década - e antes da expressão "cinema independente" ter a força de hoje.

Quem assistiu a filmes como O FUNDO DO CORAÇÃO (1982), ESTRANHOS NO PARAÍSO (1984) ou BETTY BLUE (1986), tem aí boas referências para compreender o estilo do cinema cult daquela década: personagens rebeldes, soltos e absolutamente donos de sua própria vida, vivendo (ou procurando viver) de forma quase nômade, transitando por ambientes nos quais as noites fossem repletas de glamour e neon, e os dias (se existissem), fossem amplos e ensolarados. Wong Kar Wai, em seu melhor filme, cria uma realização que segue exatamente os preceitos acima -  Elizabeth, sua protagonista (em ótimo desempenho da estreante Norah Jones), é tão insatisfeita com tudo o que há ao seu redor que jamais conseguiu construir um lugar para chamar de seu - e, se não conseguiu isso de um lugar, o que dizer de um amor. Ao conhecer o Jeremy vivido por Jude Law, o coração rateia - e ela decide fugir. Nitidamente, mais uma vez a personagem opta pela fuga quando se confronta com o amor... uma das chaves para se entender o comportamento dos anos 1980.

O interessante no filme de Wong Kar Wai é que não é a estória de UM BEIJO ROUBADO o que mais importa, mas sim a forma estilosa e oitocentista com que o filme foi feito. O beijo do filme - que, talvez, não devesse ter sido revelado no título - é construído de forma que, a princípio, o público apenas deduz se, efetivamente, ocorreu ou não. Em meio às noites de tortas, chantilly, blueberry e amores mal-desenvolvidos (porque gerados em meio a culpa e inibição), tal beijo surge, na tela, no momento certo, como uma explosão de real e concreta liberdade - não a liberdade de se ir para onde quiser (muitas vezes, como no filme, reflexo de uma prisão ao medo), mas a real Liberdade - a de não temer se entregar ao amor. Como os beijos revelados no final de CINEMA PARADISO (outro clássico dos 80), o beijo do título, quando finalmente revelado na tela, transmite ao espectador a mesma sensação que não é apenas de liberdade, mas sim de libertação. Algo que o cinema independente dos anos 80 sempre buscou mas que, aparentemente só agora, com essa retomada por Wong Kar Wai, se sua proposta fílmica, conseguiu atingir.

Cotação:
Carlos Dunham
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