FALCÃO NEGRO EM PERIGO (Black Hawk Down, EUA, 2001)
Gênero: Drama
Duração: 144 min.
Estúdio: Columbia
Elenco: Josh Hartnett, Eric Bana, Tom Sizemore, Jason Isaacs, Ewan McGregor, Johnny Strong, William Fichtner, Ron Eldard
Compositor: Hans Zimmer
Roteiristas: Ken Nolan, Steven Zaillian 
Diretor: Ridley Scott 

Surra inacreditável

Mesmo deturpando fatos históricos e pregando a favor da intervenção militar, o filme mostra basicamente o exército dos EUA levando um espetacular "chute no traseiro"

A expressão "Let´s kick some ass" é hoje uma das mais populares do dialeto estadunidense. Não é a toa que a frase é dita logo de cara em FALCÃO NEGRO EM PERIGO por um soldado recém-chegado ao front, louco que está para entrar em ação. Essa obsessão dos estadunidenses por "chutar traseiros" alheios é a base da cultura deles e chegou atualmente às raias do absurdo. Não é de se estranhar, portanto, que os executivos de Hollywood, alinhados com as políticas e estratégias do Pentágono, coloquem cada vez mais seus investimentos em filmes panfletários que pregam a favor da intervenção estadunidense em território estrangeiro. Tudo em nome de uma suposta "paz" e "ordem", como somos informados logo no início por um longo letreiro que tenta deturpar fatos históricos para justificar a presença do exército do Tio Sam na Somália.

Segundo os realizadores, os EUA estavam lá somente para garantir que os pobres somalis pudessem receber os alimentos cedidos gentilmente pela ONU e que estavam sendo roubados pelo guerrilheiro local, Mohamed Farrah Adid, pintado como um monstro sanguinário e responsável pela morte por inanição de mais de 300 mil civis. Tem que ser muito ingênuo ou mal intencionado para querer nos fazer acreditar que os EUA invadem outros países (sempre do terceiro mundo) com boas intenções, já que situações de genocídio como essa que ocorreu na Somália são patrocinadas em larga escala pelo próprio governo estadunidense - seja por meio de sanções econômicas ou pelo financiamento das milícias de direita que, geralmente, são as responsáveis pela tortura e assassinato dos civis.

A justificativa para essa política intervencionista está presente em diálogos pavorosos como esse, proferido por um dos soldados "idealistas" do Tio Sam (Josh Hartnett, tão expressivo quanto uma escultura de pedra): "Eles não tem educação, não tem esperança, não tem futuro" - só faltou dizer que não têm DVD nem internet! Ou seja: "Cidadãos do terceiro mundo não são como nós, a raça superior, por isso necessitam da nossa proteção e da nossa doutrina". Adolf Hitler ficaria orgulhoso!

FALCÃO NEGRO EM PERIGO foi dirigido por Ridley Scott, que um dia foi capaz de nos brindar com gemas como BLADE RUNNER, mas que hoje optou por colocar seu talento técnico ao serviço de produções execráveis como GLADIADOR. Dessa vez uniu forças com o produtor de "filmes-clipes" Jerry Bruckenheimer, responsável por coisas como TOP GUN e PEARL HARBOR. Isso quer dizer que temos aqui mais um exemplar de técnica espetacular usada para contar uma histórinha torpe e reacionária da pior espécie. Tudo isso embalado por altas doses de tiros, explosões, sangue e efeitos especiais que pipocam na tela a cada cinco segundos, como que para não dar tempo para o espectador pensar nos horrores que está vendo. Vira tudo um mero "entretenimento" no final.

O maior defeito do filme, todavia, é mostrar os somalis somente como um bando de negros sujos e maltrapilhos (em algumas tomadas chegam até a parecer extra-terrestres!), cuja única função na trama é servirem de alvo para os desesperados Rangers. Não ficamos sabendo em nenhum momento o que levou aquele povo a atacar os "golden boys" do exército dos EUA com tamanha ferocidade. O roteiro até tenta dar uma pequena dica durante a cena em que um dos pilotos é capturado pelos guerrilheiros e informado que não são bem-vindos e que matar seu líder de nada iria adiantar, pois na Somália as coisas são diferentes. Pena que esse discurso sai da boca de mais um "negro imundo e maltrapilho", obviamente um dos vilões da trama, o que impede a platéia de, sequer, levar em consideração o que ele está dizendo. No final, somos informados por um pequeno letreiro que morreram mais de mil somalis durante a ofensiva para apenas 19 estadunidenses - cujos gloriosos nomes são estampados na tela, um por um. Isso quer dizer que, pelos cálculos dos produtores, a vida de um "americano" equivale à cerca de 52,6 vidas africanas!

Tentam até colocar a culpa do fracasso e das mortes em um dos generais que planejaram a ofensiva, mas fica óbvio que a ingenuidade dos soldados (em sua maioria jovens desmiolados que passaram por "lavagem cerebral") e a canalhice dos governantes é sempre a verdadeira causa de carnificinas como a mostrada no filme. O que mais impressiona, entretanto, é a insistência da mensagem que "não vão deixar ninguém para trás", como se fazer parte do exército estadunidense fosse a coisa mais nobre do mundo, pois sempre vai ter alguém disposto a ser herói e sacrificar a vida pelo outro - só com propagandas desse tipo é que podemos entender porque tantos jovens alistam-se livremente no exército daquele país, só para serem mandados para lutar em guerras que não conhecem nem entendem. Triste mesmo é o letreiro final, que nos informa que um dos soldados mortos bestamente na ação recebeu uma "medalha de honra", como se isso fosse algo louvável. Com certeza deve ter ficado linda sobre seu caixão... A verdade é que não existe nada que justifique a intervenção militar em terra alheia e quanto mais tentam explicar essas ações, pior fica a situação. 

O que causa mais estranhamento nesse FALCÃO NEGRO EM PERIGO é perceber que, mesmo fazendo a panfletagem a favor do imperialismo dos EUA, os executivos gastaram rios de dinheiro para mostrar, basicamente, o supostamente invencível exército do Tio Sam levando uma surra inacreditável dos próprios "magrelos" (termo pejorativo pelo qual eles chamavam os somalis) que deveriam salvar. A melhor crítica que um filme como esse poderia receber está em O SENTIDO DA VIDA do Monty Python, exatamente na cena em que um militar defende a importância do exército em nossas vidas, já que segundo ele, sem a habilidade para defender seu próprio ponto de vista contra outras ideologias mais agressivas, a racionalidade e a moderação podem desaparecer. "É por isso que sempre vamos precisar de um exército. E que Deus me atinja com um raio se não estiver certo!"... KABUMMMM!

Cotação: **

André Lux

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