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Introdução
Blade Runner é um dos melhores e mais influentes
filmes de ficção científica já produzidos. Baseado no excelente livro
"Do Androids Dream of Electric Sheep", de Philip K. Dick, o cineasta
Ridley Scott criou
Blade Runner como uma visão impressionante de um futuro próximo
obscuro. Apesar de parecer perturbadoramente sombrio na época de seu
lançamento, o filme tem-se mostrado profético no modo como o mundo está
mudando.
Deckard é um Blade Runner aposentado – um caçador de “Replicantes”
(andróides do futuro criados pela Tyrell Corporation para serem “mais
humanos que os próprios humanos”). Os Replicantes foram declarados
ilegais na Terra, porém um grupo dos mais avançados, os Replicantes da
série Nexus-6, seqüestraram uma nave de transporte e voltaram de seu
exílio. Deckard é forçado a voltar à ativa e seu trabalho é
exterminá-los.
O que querem estes Replicantes? Simples: querem “mais vida”. Eles foram
projetados para um tempo limitado de quatro anos e criados para servir
como mão-de-obra escrava, contudo eles desejam viver como humanos.
Liderados pelo carismático e inteligentíssimo Roy Batty, os Replicantes
buscam o confronto com seu criador, Eldon Tyrell, dono de uma das
maiores corporações do planeta. Na ação que transcorre através de uma
fantástica e futurística cidade de Los Angeles, em 2019, acompanhamos o
desumano Blade Runner à medida que ele persegue os Replicantes
renegados. As coisas ficam complicadas com o aparecimento de um novo
Replicante criado por Tyrell como um “experimento”. Essa nova
personagem, Rachael, foi dotada de lembranças e acredita ser humana,
antes que ela descubra o que realmente é.
O
Compositor
Blade Runner, o filme, é
visualmente atordoante, com uma visão urbana que tem sido muito
copiada, mas nunca aperfeiçoada, mesmo após 22 anos. A atmosfera é
encantadoramente enriquecida pela música do compositor grego
Vangelis. Vangelis
Papathanassiou (figura abaixo) gravou a trilha sonora de
Blade Runner em seu Estúdio Nemo (Londres) em 1982. Lá também
foram gravadas outras de suas trilhas para o cinema, incluindo
“Chariots of Fire”
(Carruagens de Fogo) com a qual ganhou um Oscar® em 1981.
Vangelis trabalha sobrepondo suas performances umas às outras em um
gravador multifaixas
(multitrack recorder), tocando virtualmente toda peça musical
sozinho. Um dos principais responsáveis pela particularidade de seu som
durante aquela época foi o Sintetizador Analógico Yamaha CS80,
que pode ser ouvido em quase todas as faixas da trilha sonora de
Blade
Runner, e foi um dos primeiros sintetizadores a oferecer
características de performance que permitiram um enorme grau de
expressão musical (alguns dizem, inclusive, que o CS80 ainda não foi
igualado a este respeito). Nas mãos de Vangelis, ele certamente se
tornou um impressionante veículo sonoro. No caso específico de
Blade Runner, é a música emocional que parece dar vida ao mundo
frio, duro e tecnológico representado na tela.

Blade Runner
é
o abandono do recurso às tradicionais trilhas de ficção científica de
anos
anteriores. Vangelis concentrou-se na atmosfera e emoção, evitando os
“gemidos” e “balbucios” sonoros que geralmente acompanhavam os filmes
antigos. A música também foi um esforço tecnológico, atraindo a força
conjunta de uma bateria de sintetizadores e outros equipamentos, sendo
tudo
mixado em som quadrafônico para uma apresentação especial do filme no
teatro
Leicester Square Odeon. Durante o
trabalho com a música de Blade
Runner, e em
outros projetos cinematográficos, Vangelis e seus engenheiros de som
seguiam um
espontâneo método de trabalho, o qual eles tentavam preservar através
do
longo processo de adição e sobreposição da gravação ao filme. Sem a
tecnologia MIDI (Musical Instrument Digital Interface)
disponível no
momento, contando apenas com primitivos equipamentos chamados
“seqüenciadores”
(sequencers), a maior parte da música foi criada através de
sobreposição
(over-dubbing), onde todo instrumento tinha de ser tocado e
gravado
individualmente. Mesmo algumas das linhas musicais simples foram, de
fato,
construídas a partir de muitas partes em unissonância, no sentido de
criar a
cor tonal certa. O engenheiro Keith Spencer-Allen observou a técnica de
Vangelis quando ele gravou suas trilhas sonoras “artesanais”. “(…) Vangelis
assistia às partes do filme que haviam sido assinaladas para música.
Após
duas ou três corridas do filme, ele tinha o núcleo de uma idéia e,
então,
iniciávamos a gravação. Freqüentemente, isso consumia um par de
tentativas
para criar a seção musical completa.”
Algumas das principais razões por que a trilha de Blade
Runner
ainda
parece contemporânea e original foram a escolha dos instrumentos
usados e o modo como Vangelis combinou os sons acústicos e eletrônicos
para
produzir texturas sonoras evocativas, extremamente originais – por
exemplo, a
combinação de instrumentos de percurssão orquestral e linhas completas
onipresentes com sintetizadores escutadas no tema de abertura, tocadas
no
sintetizador preferido de Vangelis, o Yamaha CS80. Ele forneceu a
maior parte das linhas solo com sintetizador ouvidas na trilha musical,
incluindo o som enérgico, parecido com o de uma gaita,
apresentado em "Blade Runner Blues" e "Main Titles". O
Yamaha CS80 (abaixo) foi um dos primeiros sintetizadores polifônicos
analógicos a estar
disponível comercialmente, e pesava cerca de 95 kg!

Outros instrumentos
usados por
Vangelis incluíram o Roland
VP330 Plus vocoder (usado para teclados de coro e cordas) e o raríssimo
(e
caro) Yamaha GS1, um teclado FM antigo semelhante a um piano de cauda
em
miniatura, o qual contribuiu para o som suntuoso de piano eletrônico
ouvido no
"Love Theme". As unidades eletrônicas de efeito em estúdio também
contribuíram grandemente para a intensidade e atmosfera da trilha
sonora –
por exemplo, a antiga unidade de mola reverberante MasterRoom instalada
no Estúdio
Nemo a qual, junto com o bumbo da bateria de Vangelis, produziram os
sons
estrondosos que abrem o filme, os quais servem efetivamente para
introduzir o
espectador no mundo de Los Angeles em 2019. Uma outra peça
evocativamente atraente
é "Memories Of Green", a qual se destaca por seu som de piano
melancólico.
Isto foi conseguido colocando o som de um piano de cauda Steinway
através de um
pedal de guitarra Electroharmonix "Electric Mistress" – o tipo de
técnica
de gravação irreverente que teria sido evitada pela maioria dos
produtores/engenheiros da época, mas a qual foi prontamente utilizada
por
Vangelis em sua busca por novos sons e texturas. Os ruídos eletrônicos
também
pertencentes a esta faixa vieram de um dos primeiros videogames
lançados no
mercado, um produto japonês chamado "Bambino UFO Master Blaster
Station"!
A
Trilha Sonora
A
trilha sonora original para Blade Runner não foi lançada senão
12 anos após a
estréia do filme (1994), trazendo muito interesse para a partitura de
Vangelis.
Isto levou a uma coleção de lançamentos relativos à trilha sonora –
alguns
legítimos, outros não. Abaixo, identificamos alguns deles:
a)
New American Orchestra - 1982
Este
item, na verdade, não contém nenhum material tocado por Vangelis. O
álbum, lançado para acompanhar o lançamento do filme pelo estúdio de
cinema, contém faixas que foram transcritas do material original e
executadas
por músicos de estúdio. “Por que eles já não lançaram a trilha
original?”, você pode perguntar. Algumas fontes falam de um conflito
entre
Ridley Scott e Vangelis em relação a material composto por terceiros na
versão
final do filme. Outros dizem que Vangelis estava tão atarefado que ele
não
teve tempo de compilar a trilha sonora e ficou de má vontade em abrir
mão do
controle contratual para o estúdio (dando a este a chance de completar
a trilha
sonora com as faixas originais). Em
outras palavras, isto ainda é um mistério. Umas
poucas pistas, entretanto, apontam para um não cooperativo Vangelis:
-
O estúdio estava obviamente ansioso para lançar algo ou ele
não teria gasto dinheiro para recriar a trilha sonora;
-
O estúdio obviamente teria preferido lançar a trilha sonora
original – muito menos caro do que a recriação;
-
O material estava certamente disponível na forma completa (o
que dizer dos bootlegs?).
Logo, a única
possibilidade que podemos imaginar para o estúdio “recriar” uma trilha
sonora completa a partir do rascunho é porque eles estavam impedidos
pela
autoridade legal de lançar o original. De qualquer forma, quando o
filme foi
mal nas bilheterias, houve pouco incentivo para Vangelis completar uma
trilha
sonora original para um filme impopular.
Este álbum
é uma diversidade em termos de qualidade. Mesmo assim, temos que “tirar
o
chapéu” para as pessoas que transcreveram para o papel a música de
Vangelis,
pois elas prestaram muita atenção à estrutura musical das composições.
Isto
é particularmente importante considerando-se que, desde que Vangelis
não lê e
nem escreve música (!),
quaisquer transcrições tiveram que ser criadas por ouvido. Onde elas
falharam
foi ao tentar recriar os sutis ruídos eletrônicos de fundo, os quais
não
possuem equivalente em uma orquestra de estúdio.
b)
Off World Edition - 1993 Off World Music
Este
álbum
é provavelmente o mais vendido após as trilhas sonoras oficiais de
Blade
Runner. Apenas duas mil cópias deste CD foram produzidas. Ele
oferece uma parte
gráfica quase profissional e uma qualidade de som não uniforme. Algumas
fontes
dizem que as trilhas de áudio originais deste lançamento têm origem no
material utilizado para criar o remix da Edição do Diretor,
junto com uma
gravação de vinil de outro compositor (“Harps of the Ancient
Temples”, de Gail Laughton) e uma fonte desconhecida para “If I Didn’t
Care” (não usada no cinema por motivos de direitos autorais). Quem quer
que
tenha tido acesso a essas preciosidades descuidou do nível de qualidade
das
faixas, pois em algumas – como “Main Titles and Prologue” - há alguma
distorção audível em baixa freqüência. O livreto de capa que acompanha
o CD
contém muitas páginas de texto e fotografias sobre o filme e a trilha
sonora.
Consta no texto que a trilha sonora original não foi lançada por causa
de um
conflito entre Ridley Scott e Vangelis a respeito de material adicional
composto
por outros.
c)
Lançamento Oficial - 1994
Atlantic/Warner
Brothers
Finalmente,
eis um lançamento com uma fantástica qualidade sonora e a um preço
acessível.
Ele tem algumas particularidades. Há trechos de diálogo do filme
intercalados
com o score no início das faixas. As superposições de voz são
um pouco
distrativas e em todos os casos, exceto em “Tears in Rain”, não têm
nada a
ver com a localização da música no filme. Em relação
às faixas deste álbum, há quatro delas que não aparecem em nenhuma
parte do
filme. A faixa “Rachel´s Song”, por exemplo, foi, segundo boatos,
gravada
para o filme, porém nunca utilizada. Uma prova disso é que Mary Hopkin,
a
vocalista da música e que ficou famosa nos anos 60 pela canção “Those
Were
the Days”, a tinha, de fato, gravado em 1982. As outras faixas
são obviamente
novas músicas compostas especificamente para este lançamento.
d) Outros
lançamentos
Ao longo da
última década e nestes últimos anos, uma série de bootlegs da
trilha
sonora original de Blade Runner foi lançada e disponibilizada
ao público em geral
de forma muito restrita. A quantidade de cópias varia muito, desde 10
até
cerca de 3.000. Assim, um alerta para os colecionadores deve ser dado:
devido aos
preços extremamente altos atingidos por certos bootlegs em
sites de leilão
como o Ebay, podemos perceber o fenômeno do “CD feito em casa para
colecionadores”. Como resultado da facilidade em se produzir áudio e
material
gráfico em um PC comum, alguns vendedores inescrupulosos do Ebay vêm
produzindo
suas próprias versões da trilha sonora e as vendendo a preços
estratosféricos (vi, certa vez, uma destas na seção “Buy-it-Now” –
compre já – por
cerca de U$600!). É isso aí: eles selecionam algumas faixas em um CD,
criam uma capa
e uma contra-capa incríveis, imprimem-nas numa impressora a laser e
procuram por
colecionadores famintos no Ebay. É claro que a melhor parte deste
negócio é
que eles podem vender a mesma raridade quantas vezes quiserem!
Apesar do
grande número de lançamentos relacionados à trilha sonora de Blade
Runner, há,
de fato, somente quatro fontes principais de material:
-
O
CD
oficial;
-
As
faixas
clandestinas usadas na versão OWM;
-
A versão
“trilhas de áudio menos diálogo” usada em produções estrangeiras e que
apareceu originalmente como a versão FIC Private Release
(1990); e
-
Faixas de áudio tiradas
diretamente do filme (com o score incompleto).
[1] Ousley, Bentley. I Dreamt Music: In Search for the Ultimate Blade Runner Soundtrack. 2002.
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