A Bruxa de Blair
Nos últimos anos, tem sido comum o lançamento de filmes americanos de alto custo de produção, que acabam por dar prejuízo aos estúdios. Porém, de vez em quando alguns filmes  independentes, de baixíssimo orçamento, tornam-se sucessos inesperados  de público e crítica. Isto ocorreu há alguns anos com Robert Rodriguez e seu El Mariachi. Já em 1999, A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project) tornou-se o filme independente mais bem sucedido de todos os tempos, quando em sua terceira semana de exibição arrebentou nas bilheterias dos EUA e atingiu um faturamento de mais de US$ 107 milhões. Nada mal para um filme produzido por cineastas jovens, feito com atores completamente desconhecidos, sem uma ampla campanha de divulgação, e a um custo irrisório: US$ 35 mil. O fenômeno Blair Witch é resultado de uma bem-sucedida poção de criatividade, sorte, propaganda boca a boca e fanatismo via Internet. A grande sacada dos diretores Daniel Myrick, de 35 anos, e Eduardo Sánchez, de 30, foi fazer um filme de terror em forma de documentário falso, e criar uma mitologia própria que alimentasse a fantasia dos fãs. A câmera nervosa acompanha a história "verídica" dos estudantes Heather Donahue, Michael Williams e Joshua Leonard (aliás, os nomes verdadeiros dos atores amadores, recrutados em clubes de rock). Fascinados pelo desaparecimento de várias pessoas nos arredores da floresta Black Hills, atribuídos a Elly Kedward, uma bruxa lendária banida em 1785 da cidade de Blair, antiga Burkittsville, os estudantes decidem investigar os fatos. Segundo os "dados históricos", depois do banimento várias crianças desapareceram da cidade, o que alimentou a lenda de uma maldição. Mais tarde, na década de 40, um serial killer chamado Rustin Parr alega inocência dizendo ter sido coagido pelo espírito da bruxa. Acompanhada de Joshua e Mike, que operavam o áudio e as câmeras, a diretora Heather pretendia registrar o que separava a lenda da realidade. O filme em si nada mais é do que o material "encontrado" um ano depois por estudantes de Antropologia em uma cabana centenária na floresta: fitas DAT, uma câmera de vídeo Hi-8, anotações de Heather e uma câmera 16 mm. Os cinegrafistas foram os próprios atores, que aprenderam a manusear os equipamentos e áudio e vídeo para que tudo parecesse real, em uma filmagem que durou apenas oito dias. Daí a câmera tremer tanto, o que causa um efeito bem pior do que o frio na espinha... Em alguns cinemas americanos foram colocados avisos, pois várias pessoas se sentiram mal com a imagem tremelicante e tiveram de sair da sala para vomitar. Por via das dúvidas, carregue um comprimido anti-náuseas antes da sessão.

A proposta mais radical de A Bruxa de Blair foram as verdadeiras sessões de tortura a que os atores foram submetidos para que o resultado fosse o mais verossímel e apavorante possível. Munidos de um GPS, (Global Positioning System), um aparelho de localização via satélite, os atores foram deixados na floresta, sem saber grande coisa sobre o roteiro. Com o mesmo sistema, a equipe acompanhava todos os passos dos atores e os aterrorizavam durante a noite, com ruídos estranhos, gritos, objetos de feitiçaria e bilhetes para semear a discórdia. A improvisação de cenas e diálogos percorre todo o filme, que prescinde totalmente de litros de sangue e efeitos especiais. Sem conseguir escapar da floresta, a deterioração psicológica dos personagens é inevitável e angustiante, à medida em que o medo e o desespero começam a dominar o grupo. The Blair Witch Project será amado pelos fãs de um cinema fora dos padrões comuns de Hollywood, e detestado por aqueles que não suportarão a precariedade da produção e seu final abrupto. O filme não possui trilha sonora musical, mas existe o CD de músicas inspiradas por ele, com uma seção multimídia para aqueles que querem saber mais detalhes sobre a produção. A sua mitologia, criada por Daniel Myrick e Eduardo Sanchez inclui uma cronologia que vai do surgimento da lenda da feiticeira até a descoberta do material filmado e gravado pelos três estudantes desaparecidos na floresta:

Fevereiro de 1785 – várias crianças acusam Elly Kedward de atraí-las para sua casa para retirar o sangue delas. Kedward é condenada por feitiçaria, banida da vila durante um rigoroso inverno e dada como morta.
Novembro de 1786 – todos aqueles que acusaram Kedward e metade das crianças de Blair desaparecem. Temendo uma praga, a população foge e jura nunca mais pronunciar o nome da bruxa.
Novembro de 1809 – é publicado "O Culto da Bruxa de Blair", um livro raro.
1824– onde antes ficava Blair, é fundada a cidade de Burkittsville.
Agosto de 1825 – 11 pessoas afirmam ter visto a mão de uma mulher pálida empurrar Eileen Treacle, 10 anos, para a Enseada de Tappy. O corpo nunca foi encontrado e, durante 13 dias, a enseada fica obstruída com feixes de galhos.
Março de 1886 – Robin Weaver, oito anos, é dado como desaparecido, e, depois de seu retorno, um dos grupos de busca some. Os corpos são encontrados semanas depois no Rochedo Coffin (em inglês, caixão), amarrados e sem as entranhas.
Novembro de 1940/Maio de 1941 – sete crianças são raptadas na região de Burkittsville.
25 de maio de 1941– Rustin Parr, um velho eremita, conta aos freqüentadores de um mercado que ele completou sua missão. A polícia encontra em sua casa isolada na floresta os corpos das sete crianças desaparecidas. Parr afirma que cometeu o crime para “um fantasma de uma velha”. É condenado e enforcado.
20 de outubro de 1994 – alunos da Faculdade de Montgomery, Heather Donahue, Joshua Leonard e Michael Williams chegam a Burkittsville para realizar um documentário sobre a lenda da Bruxa de Blair. Mary Brown, uma velha praticamente insana, conta ao trio que viu, perto da enseada, uma criatura meio humana, meio animal.
21 de outubro de 1994 – os três jovens se embrenham na floresta Black Hills para chegar ao Rochedo Coffin e nunca mais são vistos.
26 de outubro de 1994 – depois de achar o carro de Josh, a polícia estadual de Maryland faz uma busca na área de Black Hills, com cem homens, cães, helicópteros e o auxílio de um satélite do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
3 de novembro de 1994 – a busca é interrompida. A mãe de Heather começa uma exaustiva busca pessoal. O caso é declarado sem solução.
16 de outubro de 1995– alunos do departamento de Antropologia da Universidade de Maryland descobrem uma bolsa, contendo 11 filmes em preto-e-branco, 10 fitas de vídeo, câmeras e o diário de Heather, enterrada sob a fundação de uma cabana centenária.


Equipe Scoretrack