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TERENCE BLANCHARD

por Claudio Szynkier

A confecção de ricas partituras e a duradoura colaboração com o diretor Spike Lee marcam a profunda arte e a carreira deste compositor negro dentro do cinema americano. Nos tempos atuais, torna-se tarefa difícil encontrar um compositor para cinema que possua real identidade criativa. Alguém que não esteja filiado à escola da mesmice. Um dos músicos mais completos (possuidor de rica formação como trompetista, compositor e condutor) do presente contexto musical cinematográfico e, principalmente, detentor de uma forte e requintada identidade, é Terence Blanchard. Colaborador habitual de Spike Lee, notabilizou-se exatamente por seus trabalhos ao lado do articulado diretor. Sua música pode ser entendida como fio condutor de um pesado lirismo e do tom refinado e pomposo peculiares às películas de Lee lançadas ao longo da década de 90.

O início e o jazz

Iniciado na música por Joseph Oliver, seu pai, aos cinco anos de idade, Terence Blanchard começou com o piano. No entanto optou pelo trompete depois de ter visto, alguns anos mais tarde, uma banda de jazz apresentando-se em sua escola. Apaixonou-se pelo instrumento, tocado por Alvin Alcorn, e decidiu que fazer aquilo era o que gostaria por toda a sua vida. O músico Blanchard (13/03/1962) nasceu, cresceu e se fez como artista na negra e efervescente New Orleans, capital do jazz. Lá estudou no New Orleans Center of Creative Arts. Contudo foi em New York, onde encontrou nomes sagrados do estilo, como o baterista Art Blakey (com quem tocou no lendário conjunto Jazz Messengers), que o compositor pôde expandir de fato os horizontes de sua carreira. Nesse tempo, fez amizade com outros dois músicos emergentes do jazz do início da década de 80, os irmãos Marsalis: Brandford (que mais tarde compôs temas de jazz para Spike Lee em "Mo' Better Blues", aliás, acompanhado do próprio Blanchard) e Wynton. Obteve destaque também em projetos realizados junto ao saxofonista Donald Harrison. Além de amplo aprendizado no jazz, Blanchard recebeu importante formação erudita.

O estilo

Terence Blanchard imprime um estilo singular dentro do cinema moderno. Singular pois, não raro, remete à maneira de tratamento e ambientação musical característica do cinema americano clássico, das décadas de 40 e 50. Dessa forma, pode-se dizer que o compositor (que também é fã de Quincy Jones, Goldsmith e Alex North), embora detentor de marca própria, é um saudosista. Suas composições soam como se fossem imensas figuras - desenhadas por meio de uma apurada gama de cores sonoras e de um código melódico pouco usual e bastante refinado. São geralmente lentas, vultuosas e demonstram uma combinação entre o caráter impressionista (que parece provir, dentre outras fontes, de sua origem no jazz e do conhecimento sobre o estilo) e influências da tradição mais essencial da grande música americana. Podem ser percebidos, muito nitidamente, alegorias e conceitos da linguagem colorida e exuberante de Aaron Copland.

Spike Lee


A concepção musical de Terence Blanchard possui uma múltipla função nos filmes de Spike Lee:

- Gerar um sentido emocional e de lirismo grandiloqüente para os traços da poética cinematográfica de Lee. Os traços dessa poética são fortes, por vezes brutais. Assim, a música tem a propriedade de anestesiar ou temperar a linguagem do diretor. Às vezes, chega mesmo a santificá-la;
- Oferecer um efeito de contraste à obra de Lee, em um primeiro plano. O estilo do compositor, em uma leitura inicial, não seria aquele mais enquadrado dentro dos ambientes da New York retratada pelo diretor. Uma New York das questões humanas intrincadas, da tensão racial; uma New York real e violenta, nas ruas e nos sentimentos das pessoas que lá vivem. A sobreposição da música à película e, conseqüentemente, o contraste criado, portanto, são capazes de produzir uma grande combustão de sentimentos.

Entretanto, em uma segunda leitura, pelas próprias raízes da música de Blanchard e também por suas características orquestrais, a mesma não deixa de ser correspondente direta a esses delicados e ricos mundos filmados com intensidade por Lee. Como outra funcionalidade, temos a de dar aos filmes do diretor uma conotação épica-urbana, grandiosa.

As selvas urbanas

Uma obra memorável, tanto para a cinematografia de Lee quanto para a carreira musical de Blanchard (sendo que é a primeira partitura para cinema assinada por ele), é "Jungle Fever" ("Febre da Selva"), de 1991. As orquestrações de Blanchard surgem aqui com a mesma sutileza dos passos de um grande artista do circo andando com maestria sobre a corda bamba. O compositor enlaça os diálogos entre os personagens de Annabella Sciorra e Wesley Snipes de uma forma que a música parece estar sagaz e lentamente a envolvê-los. A cena que se passa no escritório é exuberante e fala bem sobre isso. Outro grande destaque é a composição com o coro de meninos do Harlem. Peça angelical, embora envolta por uma harmonia complexa e tensa, características, aliás, recorrentes dentro da obra do compositor. Bela arquitetura musical.

Em "Clockers" ("Irmãos de Sangue"), os jovens negros vinculados ao tráfico de drogas - vivendo uma malandra e ilusória vida de pequenos gângsteres - e a realidade daquela vizinhança (de tiros, brincadeiras de criança, mais tiros e bicicletas) também recebem luz das composições de Blanchard. O músico, como sempre, auxilia Lee no processo muito particular de estilização da obra. O faz acompanhando os passos, literalmente, da mãe zelosa, aflita pelo destino do filho que vai descobrindo as chamativas portas da vida do crime. Acompanha também os passos do próprio filho e também do personagem principal do filme, referência do garoto naquele aparentemente mágico mundo bandido. Marca a ação e os sentimentos muitas vezes contraditórios desses personagens, com acordes preciosos e liricamente tensos. Uma cena que realiza-se em meio a um grande tema de Blanchard em "Clockers", é aquela em que a mãe, furiosa, segurando o menino pelas orelhas, vai tirar satisfações com os jovens criminosos do bairro. Sua ira deve-se ao fato de ter visto no filho um corte de cabelo no mínimo extravagante. O corte de cabelo, segundo ela, era fruto da má influência daqueles "desajuizados". Blanchard escreve, por meio da composição, uma profusa epopéia de sentimentos dentro desse simples retrato do bairro negro em um dia nublado comum. Essa epopéia musical parece transcender, voar muito além do que estaria originalmente escrito naquela cena. O aparentemente simples torna-se grandioso. A marca do compositor poderia ser sintetizada exatamente aqui.

Dimensão musical

A música de Blanchard parece ter uma curiosa conotação panorâmica. É possível perceber nela, por meio do denso sentido de harmonia e de orquestração, grandes paisagens. Essas paisagens têm consigo verdadeiros, embora subjetivos, efeitos de dimensão e perspectiva. A música parece, assim como a câmera de Lee, estar sempre envolvendo de cima as ações e os quadros filmados, brincando com a própria realidade imposta pelos mesmos. Os elementos da ação, personagens, cenários e afins, tornam-se títeres nas mãos e nos sutis movimentos de Blanchard. Esses movimentos contribuem para a produção de um certo estado de catarse, não incomumente evocado pelos espaços de realidade engenhados por Lee.

Mais verões de Lee e Blanchard

Outros notáveis momentos da colaboração entre Spike Lee e Blanchard estão em "Malcom X", um filme com imponentes e bem característicos retratos musicais, "Bamboozled", aclamado, e "O Verão de Sam", onde Blanchard ajuda a tornar viva a experiência-filme de Lee de reconstruir uma conturbada Nova York do final da década de 70. O verão mais violento e confuso da história da cidade (filmado por Lee com olhar por vezes sarcástico), o de 77, recebe cores e pinturas típicas do compositor, entretanto, marcadas por linguagem e sentimentos mais tensos e dramáticos do que o normal em sua obra. Entre as fitas que também marcaram o trabalho em conjunto dos dois artistas, estão "Crooklyn" e "Get On The Bus". Em "He Got Game", Lee experimentou. Blanchard ficou de fora para que o diretor forjasse cada fotograma de seu filme inspirado pela obra de Aaron Copland. A Copland, na verdade, é dada a própria condução da fita. A premissa de Lee era conceitual: o filme, rebuscada homenagem à cultura popular americana, mais precisamente ao basquete, teria estética e musicalmente a grife do compositor mais essencial dos valores e da cultura da nação, ou seja, Copland. O mais interessante é que, de alguma forma, Blanchard não esteve completamente à parte do filme, pois o cerne de sua obra remete, e muito, à obra de Copland. Pelo trabalho de 2002, "The 25th Hour", mais um filme de Spike Lee, Blanchard foi indicado ao Globo de Ouro como o compositor da melhor partitura.

Fora do mundo Lee

Além dos projetos em que contribui com Spike Lee, Blanchard também está presente em recentes trabalhos de outros diretores, como Michael Cristofer, Steve Carr, para quem musicou "The Next Friday", e Gina Prince-Bythewood. Em "The Next Friday", Blanchard realizou um trabalho não tão memorável, mas que chega a atingir seu objetivo dentro do filme. Para Prince-Bythewood, escreveu a música do ótimo "Love & Basketball". Com Cristofer, trabalhou em "Gia" e "Original Sin", sendo o último um trabalho diferenciado, onde o compositor aparece mesclando elementos afro-cubanos (o enredo da fita desenvolve-se em Cuba) à sua estética orquestral.
Como trompetista, o músico de New Orleans pode ser considerado um dos maiores nomes do jazz atual. Blanchard foi indicado ao Grammy em 2001 e eleito em 2000 pelos leitores da Downbeat (importante publicação do gênero) como artista do ano e melhor trompetista.

Filmografia de Terence Blanchard, cortesia de Internet Movie Database

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